06 novembro 2025

charles bukowski / sol a descer

  
 
ninguém lamenta que eu esteja de partida,
nem eu;
mas devia haver um trovador
ou pelo menos um copo de vinho.
 
creio que isto incomoda principalmente os jovens:
uma morte lenta e pacífica.
ainda faz um homem sonhar;
anseias por um velho veleiro,
a vela branca com sal incrustado
e o mar a sacudir indícios de imortalidade.
 
mar no nariz
mar no cabelo
mar no tutano, nos olhos
e sim, aí dentro do peito.
será que sentiremos saudades
do amor de uma mulher ou da música ou da comida
ou do salto do grande e furioso cavalo
musculado, coiceando torrões de terra e destinos
ao alto e para fora
no momento exacto em que o sol se põe?
 
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisto
porque não houve majestade
antes
e cada um de nós, como vermes que escavaram
                                   a saída de dentro de maçãs,
não merece qualquer reprimenda.
 
a morte entra-me na boca
e serpenteia ao longo dos meus dentes
e pergunto-me se tenho medo deste
morrer mudo, sem arrependimentos, que é
como o murchar de uma rosa.
 
 
 
charles bukowsky
os cães ladram facas
trad. rosalina marshall
alfaguara
2018




 

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