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27 agosto 2020

gonçalo m. tavares / ignorância



Uma ignorância súbita, de uma intensidade incalculável.
É não entender da forma mais humana que existe.
Não é o medo, no animal,
Não é a explosão na matéria: é o espanto.




gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004













28 março 2020

gonçalo m. tavares / guerra, inferno



Uma certa indumentária clássica: os sapatos mantêm-se
Indispensáveis mesmo depois da guerra.
Uma progressiva intimidade com o inferno não
Modifica conceitos estéticos e necessidades orgânicas:
Quais os índices do desejo em dias de bombardeamento?
Há números importantes para perceber a razão por que certas
Palavras se introduziram em todas as línguas,
Do Oriente ao Ocidente. Palavras más.




gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004






25 fevereiro 2016

gonçalo m. tavares / o número 76



Uma vaca, com o número 76 na orelha, está morta, o corpo caído sobre a neve. O excessivo frio súbito matou vários animais – dezenas, centenas, milhares de animais. Mas nenhum animal era igual àquela vaca com o número 76 desenhado numa placa amarela agarrada à orelha. Esse número, sabe-se lá porquê, assusta.

  
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2011



08 abril 2015

gonçalo m. tavares / a cabeça



Esta cabeça que aceita tudo como os pobres,
impossível desligá-la, fazer uma muralha,
fechar o sítio de onde sai o que se pensa.
Mas os acontecimentos exteriores ainda assustam,
ou divertem,
      e não consigo parar.
A carne se fosse metal seria melhor,
              mas não é melhor,
nunca é melhor.

  

gonçalo m. tavares
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relógio d´água
2004




28 outubro 2010

gonçalo m. tavares / chão





Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.






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relógio d´água
2004






29 maio 2008

a trégua






Havia uma desarrumação no cabelo, se tinha
Calções eles caíam; puxava-os para cima, não
Me penteava.
Se alguma trégua fiz com a infância foi esta:
Ainda não uso pente, os calções são calças,
mas continuam a cair. Por delicadeza,
Puxo-as para cima.






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relógio d´água
2004