04 junho 2026

armando silva carvalho / le beau séjour

  
 
Também este não dorme de noite
mas parece dormir dentro dos meus olhos.
Entre nós não há nada a ser o corpo
de uma cerveja turva de sangue.
 
Estamos tão perto desse Beau Séjour
onde tudo se passa em panorama turístico
cenário de marquesas de azulejo
ou de sedutores com o pé no estribo.
 
São coisas velhas. E o novo aqui é o Brasil
do Ronaldo e a minha elegante camisa
azul-turquesa que soube delicadamente
enxugar uma lágrima de espuma.
 
Não sei com que respeito ele me faz cúmplice
do seu tédio e eu a ele do meu riso
de tradutor traído.
Eu sei. Claro que sei. Também vi esse filme.
 
Sai uma dose de mãozinhas de vitela
para as mãos deste príncipe
que me deixa passar por entre cortesãs
que não vê nem ouve e lhe pedem tremoços.
 
A cidade por dentro é um novelo de medos
e alguma ternura de papel pintado.
Não há como sermos grandes na cozinha
dizem as facas limpas já na sobremesa.
 
E o meu senhor dos escalopes traz-me a melancolia
na bandeja de chapa negra da memória,
talvez quisesse dar-ma na da avó de prata
que não saiu das berças para entrar na história.
 
 
 
armando silva carvalho
lisboas roteiro sentimental (2000)
o que foi passado a limpo, obra poética
assírio & alvim
2007
 




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