10 junho 2026

luís vaz de camões / quando a suprema dor muito me aperta

  
 
Quando a suprema dor muito me aperta,
se digo que desejo esquecimento,
é força que se faz ao pensamento,
de que a vontade livre desconcerta.
 
Assi, de erro tão grave me desperta
a luz do bem regido entendimento,
que mostra ser engano ou fingimento,
dizer que em tal descanso mais se acerta.
 
Porque essa própria imagem, que na mente
me representa o bem de que careço,
faz-mo de um certo modo ser presente.
 
Ditosa é, logo, a pena que padeço,
pois que da causa dela em mi se sente
um bem que, inda sem ver-vos, reconheço.
 
 
 
luís de camões
poesia lírica
ulisseia
1988
 



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