249 – A hora do fim. Ouço mais perto o relógio que a vai dar. Intriga-me,
não me aflige muito. É o meu modo de subir um pouco acima do vulgar, de mim,
para quem dói muito e intriga pouco. Coisas, lugares, mesmo afectos, a partir
de certa idade não pertencem ao real mas à memória, onde o seu destino é já o
de cada um. Há todavia um desespero manso em nós que é o de não termos
realizado não bem o que se diz ser-nos o «sonho», porque ter um «sonho» é já
saber o que é, mas o que trouxesse a paz de termos esgotado todo o possível o
que em nós quer responder a uma voz incerta que nos fala e não conseguimos
ouvir, que fala mas não sabemos de quê. Tenho em mim mais possibilidades do que
todas as realizações que realizasse. Mas o mais insuportável é que essas realizações
deixem as possibilidades absolutamente intactas. Como o fígado de Prometeu,
reconstituem-se logo que se efectivam numa realização. Como o ventre de uma
mulher que fica inteiro para outro filho. Uma realização existe em si e
portanto não existe na possibilidade que se é. E é o que levaremos para a
morte, essa falha enorme do nosso impossível. E é o que mais dói aos avisos do
fim – esta absoluta nulidade do que fiz e a alucinação de fazer, antes que a
hora chegue.
vergílio ferreira
pensar
bertrand editora
2004
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