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21 julho 2026

antónio dacosta / no meio das águas

  
 
NO MEIO das águas está a fresca ilha
Onde do leite de sereia mamaste
No seio daquela que de lá o trouxe
 
Pobre de ti das praias ardentes esquecido
Da Dinamarca te elegeste príncipe
Do veneno bebeste quanto restou
Na corte onde Ofélia amou
 
Da janela do teu bairro com quiosque
De alma aos pés e pénis na mão
Pensaste o ser e não ser de outros que ti
 
E se da ilha só sargaços Circe te deu
Na outra de Próspero foste o grande amigo
 
 
 
antónio dacosta
saudade
a cal dos muros
assírio & alvim
1994




25 junho 2025

antónio dacosta / ó dia de sol e morte

 


 
3.
 
Ó dia de sol e morte
 
As flores eram venenosas
As moscas eram negras
O azul tenebroso
 
Tanta luz impiedosa
Sobre o luto da terra
 
 
 
antónio dacosta
saudade
a cal dos muros
assírio & alvim
1994



08 abril 2022

antónio dacosta / nesse jardim onde pousais

 


 
Nesse jardim onde pousais
Pousei eu
 
Os sinos soavam pesados
Na limpidez da tarde
E havia nos eucaliptos
Uma memória antiga
Um antigo cheiro
 
Passavam as raparigas
Que sabia não serem minhas
 
Doía-me o destino
A sua voz vinda de longe
O seu dedo apontado a mim
 
Elas sabiam
 
 
 
antónio dacosta
a cal dos muros
assírio & alvim
1994









24 setembro 2015

antónio dacosta / venho do mar



Venho do mar
Venho dos montes
Sê amiga do meu repouso

Se apeteço ser rei
Ter um barco e um cão
E dos meus amigos ser amigo

Sê benigna
Se me amas



antónio dacosta
a cal dos muros
assírio & alvim
1994



18 novembro 2013

antónio dacosta / tornam aqui as aves



Tornam aqui as aves
Sempre outras como eu
Longe de mim buscam
Outro que mim

O teu braço apontado ao céu
Semelhavas - no desabrochar
As flores o tempo que nos cercava

Não havia portas no teu jardim
Era como estar dentro do que vias
Tudo de ti estava em nós e era transparente

Via-te o vulto voltado à luz
Que o braço erguido apontava
E no tempo que nos cercava
Semelhavas
Que o nosso olhar não via
E de longe em ti buscava
O outro que mim

  

antónio dacosta
a cal dos muros
assírio & alvim
1994



15 maio 2013

antónio dacosta / no jardim de meu pai


  
Agora posso dizer o quanto me doíam
a dureza do teu silêncio e as
veredas por onde te sumias
no teu exílio, ilha, o olhar
presos na última réstea de luz que no
mar se afoga.
A voz antiga que se impunha não
falar da tua ausência
enchia-a e distraído
de mim apenas via nela as secas flores
murchas da memória.
Meu ignorado
mestre de enigmas os que percorriam o teu
sorriso breve
só por ti eram sabidos
ocultos na curva doce dos dias
que medias a olhar o teu
próprio fim.
Não mos podias tu ensinar a mim
nem eu aprendê-los de ti podia.



antónio dacosta
a cal dos muros
assírio & alvim
1994


26 setembro 2012

antónio dacosta / poema português





Ó minha terra de nevoeiros míticos
De imerecidas serras frescas
O sol que aquece os teus dias não é nulo
Nem os epistémicos deuses que te espreitam
Do alto sobre as tuas sete colinas
Ávidas estátuas tristes de serem velhas sombras
Antigas e só oníricas de vez em quando
Deixai pois ó pretas gravatas públicas da verdade
Deixai o sonho ser tão real como são
As pedras os muros as casas as amplas cidades
A morna brisa que te aquece as noites
Há-de amanhã soprar outra e outra vez
E tudo o que no redondo mundo é vivo
Será vida como agora a vejo eternamente a mesma.





antónio dacosta
a cal dos muros
assírio & alvim
1994