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15 agosto 2020

adília lopes / para um vil criminoso



Fizeste-me mil maldades
e uma maldade muito grande
que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa
a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém
uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por me teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe


adília lopes
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987






09 setembro 2015

adília lopes / meteorológica


                    para o José Bernardino

  
Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter

Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas

Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)

A vida
é livro
e o livro
não é livre

Choro
chove
mas isto é
Verlaine

Ou: um dia
tão bonito
e eu
não fornico




adília lopes
caras baratas
antologia
relógio d´água
2004




04 abril 2014

adília lopes / clarice lispector



Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
nos textos



adília lopes
clube da poetisa morta
caras baratas
antologia
relógio d´água
2004




08 setembro 2013

adília lopes / os poemas que escrevo



Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas



adília lopes
um jogo bastante perigoso
caras baratas
antologia
relógio d´água
2004



25 junho 2013

adília lopes / portugueses



Portugueses:
gente ousada
gente usada

Brandos usos:
abusos grandes
e pequenos



adília lopes
sete rios entre campos
caras baratas
antologia
relógio d´água
2004



08 fevereiro 2012

adília lopes / primeiro amor






Gostava muito dele
mas nunca lhe disse isso
porque a minha criada tinha-me avisado
se gostar de um rapaz
nunca lhe diga que gosta dele
se diz
ele faz pouco de si para sempre
os rapazes são maus
eu não era bela
nem sabia quem tinha pintado Os pestíferos de Jaffa
resolvi  assim escrever-lhe cartas anónimas
escrevia o rascunho num caderno pautado
não sei hoje o que escrevia
mas sei que nunca escrevi
gosto muito de ti
e depois pedia a uma rapariga muito bonita
que passasse as cartas a limpo
eu acreditava que quem tinha uns cabelos
assim loiros e a pele assim fina
devia ter uma letra muito melhor do que a minha
agora que conto isto
vejo que deixo muitas coisas de fora
por exemplo que o meu primeiro amor
não foi este mas o Paulo
o irmão da rapariga bonita





adília lopes
resumo
a poesia em 2009
assírio & alvim
2010



04 maio 2010

adília lopes / sete rios entre campos






Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu







adília lopes
caras baratas
antologia
relógio d´água
2004







25 março 2008

o meu tempo (1960-1993)






Agora as pessoas
não sabem morrer
estar doentes
sofrer
ter prazer
tocar-se
dantes também não
(Ó mais nu
e branco dos homens)









adília lopes
caras baratas
antologia
relógio d´água
2004