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17 julho 2026

léo ferré / os bichos enfim desenfreados

  
 
 
    Os bichos enfim desenfreados
    A prioridade à Esquerda, com licença!
 
    Já não morreremos de nada
    Viveremos de tudo
 
    E os micróbios da estupidez que não tereis deixado de
nos legar, erguendo-se
    Das vossas estrumeiras
    Dos vossos livros armazenados nas vossas silotecas
    Dos vossos documentos públicos
    Dos vossos regulamentos de administração penitenciária
    Dos vossos decretos
    Até das vossas orações,
    Todos esses micróbios jurídico-pantufas
    Ficai tranquilos
    Teremos já as máquinas para os revogar
 
    TEREMOS TUDO
 
    Daqui a dez mil anos
 
 
 
léo ferré
il n´y a plus rien / já não há nada
trad. antónio ferreira, luísa mariante e maria paiva
ler devagar
2017




11 abril 2023

léo ferré / eu cá sou da raça ferroviária

 



 

[…]
 
     Eu cá sou da raça ferroviária que fica a ver passar as
vacas
     Se não comêssemos as vacas, os carneiros e os restos
     Não conheceríamos nem as vacas, nem os carneiros nem
os restos…
     No fim de contas, criam-nos para nos darem bicadas
     Então, sejamos nós a dá-las!
     Costeleta para duas pessoas, conheces?
 
     Felizmente há a cama: um parque de estacionamento!
     Vens, meu amor?
     E depois, é como na roleta: apostamos, apostamos…
     Se a roleta só tivesse um buraco, obrigavam-nos a apostar
na mesma
     Aliás, é o que fazemos!
     Compreendo os jogadores: têm trinta e cinco possibilidades
de não se deixarem enrabar…
     E deixam, deixam…
     O drama, no casal, é que são dois
     E só há um buraco na roleta…
 
[…]
 
 
léo ferré
il n´y a plus rien / já não há nada
trad. antónio ferreira, luísa mariante e maria paiva
ler devagar
2017





25 março 2019

léo ferré / a desordem é a ordem menos o poder




[…]

A desordem é a ordem menos o poder!

Já não há nada

Sou um preto branco que come graxa
Porque se chateia de ser branco, este preto,
Fartou-se que lhe dissessem: «Branco de merda!»

Em Marselha, a sardinha que entope o porto
Estava recheada de heroína
E os homens-rãs não regressaram…
Libertai as sardinhas
E acabam-se os peixeiros!

Se soubesses o que eu sei
Apontavam-te o dedo na rua
Mais vale então que nada saibas
Assim, ao menos, ficas numa boa, anónimo, Cidadão!

Tens direito, Cidadão, ao mínimo decente
À publicidade das enzimas e do charme
Ao tráfico de dólares e aos traficantes de armas
Que arrastam os jornais na lama e no sangue

[…]


léo ferré
il n´y a plus rien / já não há nada
trad. antónio ferreira, luísa mariante e maria paiva
ler devagar
2017