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11 abril 2020

jorge de sousa braga / ao relento



Para encherem a noite, os grilos não precisam mais que
De uma lura. Mesmo no cativeiro continuam a cantar.

Para o homem, momentos há – e é doloroso reconhe-
cê-lo – em que até o universo é uma prisão.


  

jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991










29 maio 2017

jorge de sousa braga / poema de amor




Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
                    te coubesse no dedo.





jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991





15 agosto 2016

jorge de sousa braga / esse verão



Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
 – Tão quente tão quente
esse verão

  

jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991




12 maio 2015

jorge de sousa braga / na corrente



Há quem diga que a noite é um rio - subterrâneo - que
nasce e desagua em pleno dia. Ou será o dia um rio  que
nasce e desagua em plena noite? Ou talvez a noite e o
dia sejam o mesmo rio que não nasce nem desagua.
Corre apenas. Através de nós.



jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991







26 janeiro 2015

jorge de sousa braga / portugal



    Portugal
    Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
    oitocentos
    Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
    África
    só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
    e nunca mais voltasse
    Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
    que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
    e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
    Portugal
    Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
    (que os meus egrégios avós me perdoem)
    Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
    Anda na consulta externa do Júlio de Matos
    Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
    aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
    rosas
    Portugal
    Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
    Império
    mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
    Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
    das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
    Portugal
    Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
    Sabes
    Estou loucamente apaixonado por ti
    Pergunto a mim mesmo
    Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
    mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
    e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
    Portugal estás a ouvir-me?
    Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
    de ressentimentos
    um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
    Portugal
    Sabes de que cor são os meus olhos?
    São castanhos como os da minha mãe
    Portugal
    gostava de te beijar muito apaixonadamente
    na boca



    jorge de sousa braga






23 outubro 2014

jorge de sousa braga / o frigorífico branco



O frigorífico estava vazio
Apesar desse aspecto desolador
foi ao mercado
e com todo o dinheiro que lhe restava
comprou um enorme ramos de junquilhos



jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991





01 julho 2013

jorge de sousa braga / passara quarenta anos


  
Passara quarenta anos de binóculos assestados, a seguir
as migrações das aves  e a tomar  estranhos apontamen-
tos num caderno.  A  última vez  que  foi  visto  voava  a
meia altura em direcção ao sul.



jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991



02 abril 2013

jorge de sousa braga / morte em veneza




De muitas coisas se pode morrer
em Veneza
De velhice de susto
de peste

ou de beleza



jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991


24 agosto 2012

jorge de sousa braga / hidrologia


  


Nem em todas as montanhas nasce um rio
nem todos os rios vão desaguar
ao coração enorme e sedento
dum poeta




jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991