27 agosto 2026

louise glück / na praça

  
 
Há duas semanas que ele anda a observar a mesma rapariga,
Alguém que costuma ver na praça. Na casa dos vinte, talvez,
tomando café à tarde, uma pequena cabeça escura
inclinada sobre uma revista.
Fica a observá-la do outro lado da praça, fingindo
comprar alguma coisa, cigarros, um ramo de flores, talvez.
 
Por ela ignorar o seu próprio poder,
este é agora imenso, fundido nas necessidades da imaginação dele.
Ele é seu prisioneiro. Ela diz as palavras que ele lhe atribui
numa voz por si imaginada, num tom baixo e brando,
uma voz do Sul, tal como os cabelos negros serão certamente do Sul.
 
Em breve, ela irá reconhecê-lo, e depois começará a esperá-lo.
E talvez a partir daí traga todos os dias os cabelos acabados de lavar
e olhe abertamente em redor na praça antes de baixar outra vez o olhar.
E depois disso tornar-se-ão amantes.
 
Mas ele espera que isso não aconteça logo,
pois seja que poder for que ela agora exerça sobre o seu corpo,
     sobre as suas emoções,
é um poder que ela deixará de possuir assim que se comprometer –
 
recolher-se-á naquele mundo privado do sentimento
a que as mulheres acedem quando amam. E, aí vivendo, será como
uma pessoa que não projecta sombra, que não está presente no mundo;
nesse sentido, achando-a ele de pouca serventia,
pouco importa se ela vive ou morre.
 
 
 
 
louise glück
uma vida de aldeia
tradução de frederico pedreira
relógio d´água
2021


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