27 janeiro 2011

josé de almada negreiros / mãe!






Mãe!

Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas!
Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.
Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado.
Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei,
tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa.
Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!






josé de almada negreiros
a invenção do dia claro





1 comentário:

Maria Petronilho disse...

É o meu poema preferido... porque nunca pude pedir a minha mãe que passasse a sua mão pela minha cabeça... porque as minhas viagens sempre foram solitárias...
Mas eu e minha mãe-menina construímos uma frota de barcos de papel de seda, dos que forravam os envelopes naquele tempo.
... As delicadas mãos de minha mãe construíram um barquinho minúsculo, preto, que ia todo pimpão, sempre à frente... chamámos-lhe "Pérola Negra", lembras-te, Mãe?