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30 junho 2014

miguel serras pereira / advento


Se eu pudesse dizer-te outra palavra
que não fosse só este silêncio só desfeito
com ela te diria o nome do meu filho
e entretanto descubro que não esperamos

Também aqui não nos espera a terra
Podemos ouvir e beber todos os ventos
ou saber como todas as palavras são apenas
o momento só de outro momento

Mas nem na morte estamos sós
Por isso não esperamos nem cremos
e é nos nossos corpos o silêncio de outra voz
quem respira quando nos calamos




miguel serras pereira
trinta embarcações para regressar devagar
relógio d´água
1993



15 novembro 2012

miguel serras pereira / sobre as ervas



Vem sobre as ervas do silêncio
E desperta a tua mão
─  É apenas o espaço sem dedos entre os dedos
de outra mão ausente

na tua mão de silêncio sobre as ervas
no espaço sem mão entre os teus dedos.



miguel serras pereira
trinta embarcações para regressar devagar
relógio d´água
1993



05 setembro 2012

miguel serras pereira / remo de água


  

(Valada do Ribatejo)



Voltará o verão à terra larga
e a carne à noite branca do começo
mas tu não voltarás e não passaste
e aconteces para sempre sempre que aconteces

Atravessas um remo de água submerso
na água que inunda ao alto o meu olhar
E é então que o tempo passa e ao passar se esquece
de me levar consigo ou te deixar ficar




miguel serras pereira
trinta embarcações para regressar devagar
relógio d´água
1993


05 junho 2012

miguel serras pereira / após o mar


  


Perdeu-se após o mar a nostalgia
de sermos pelo menos na hora do desastre
um voo de marinheiros caindo ainda
vencidos e longínquos ─  como o dia
sobre o rasto vermelho das amadas

E mesmo onde te encontro a despedida
corta as minhas mãos abertas pelas tuas
Passam as aves e passada a minha vida
procura o chão ardente da cidade
onde eu possa ser contigo as mesmas ruas

Entretanto esperamos apenas ─ árvores tristes
divididos um pouco mais a cada encontro
Eu parto e digo-te à partida amada que resistas
decepado sobre a terra e sobre ti
terra que deceparam do meu sangue

Mas a esperança que nos vem dentro do vento
desperta a voz da morte no regresso
Por isso somos hoje tão sábios e tão lentos
que as gaivotas nos poisam na cabeça






miguel serras pereira
trinta embarcações para regressar devagar
relógio d´água
1993




10 janeiro 2011

miguel serras pereira / desoras





I

Levei-te a minha casa mas nenhum
de nós dois foi capaz de me encontrar
tu por ser já talvez um pouco tarde
eu pelos anacronismos do costume

Por isso amada se apesar de tudo
nem sempre fomos só iguais a nada
teremos de arranjar novo teatro
onde a verdade logre melhor lume

mais capaz de a si próprio se tornar
esse instante de cada instante único
em que o instante ou só passa ou a passagem
mais que só consumir-se nos consuma

pois nem o tempo pode outro lugar
que não nos falte ou exceda onde nos une




II

Que sabes tu do inferno de onde estou
a telefonar-te agora? Mas também
como haverias tu de o saber se nem
eu sei já onde estou nem bem quem sou?

Porquê tentar de resto que o soubesses
em vez de te falar dessa promessa
nisso mostrando já melhor cabeça
que seria qualquer sítio onde estivesses

por acaso e eu chegasse por acaso
e depois sucedesse que em me vendo
quisesses cavalgar o tanto atraso
de quanto até então eu fora sendo?

E o rio cuja agonia ao fundo estancas
singraria as tuas mãos nas minhas ancas





miguel serras pereira
canal revista de literatura nr.3
verão de 1998
palha de abrantes






31 outubro 2010

miguel serras pereira / talvez um barco







Podia dizer-to agora mesmo
mas do silêncio já nada me separa
ou só o tempo lento ainda de um momento
uma palavra só sem mais cansaço

Será talvez um barco se fores tu
- a chuva da manhã nos vidros limpos
e o vulto esguio perdido duna a duna
de quem regressa apenas de partida

Um pássaro esquecido brilha ainda
em dois olhares levemente embaciado
pela mesma indecisa febre antiquíssima

Podia dizer-to agora mesmo
E talvez seja um barco se fores tu
- ou serei eu talvez se for o mar






miguel serras pereira
trinta embarcações para regressar devagar
relógio d´água
1993