02 abril 2026

luis muñoz / homossexualidade

Primeira versão
 
                            Solitude, récif, étoile
                            Stéphane Mallarmé
 
 
Primeiro é apenas isso:
tal o habitante de uma ilha
que descobre uma orla em redor,
uma orla tecida como em dentes de areia,
um nada concreto,
como é sempre o nada,
um sono recortado, o regolfo das ondas
no mesmo lugar e a tempo todos os dias,
assim, tal como isso,
uma ternura de água em redor
e uma franja de gelo em redor,
a hiena dos sexos e esse tacto que suaviza
a angústia nocturna, esse sonho em relevo
que arrasta até à cama, que te lança a luz
de onde a não esperas,
assim, tal como isso,
como pontos unidos, tudo é ilha.
 
Solidão, recife, estrela.
 
 
*
 
Segunda versão
 
 
Falamos até tarde no terraço.
Os grilos repetiam
a pulsação da noite, como se nos dissessem:
este é o tempo.
Tínhamos bebido e o álcool
não se tinha estancado, girava docemente
como única chave que muitas portas abre.
Torneámos o tema do amor,
com empenho, sem o mencionar nunca,
como a um leão adormecido,
mas agarrou os corpos a seu modo.
 
Ao amanhecer, fechamos as persianas,
para assim a noite ainda durar.
 
Preparava um café e pensei no impossível,
como se tudo então se tivesse detido
– um corredor vazio, uma luz indagadora
e relevo no liso – ,
e em amar só aquilo que for com o possível.
 
 
 
luís muñoz
trípticos espanhóis vol. III
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2004




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