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15 novembro 2020

maria gabriela llansol / um falcão no punho (fragmento)

 
 
Herb∂is: a ilha para onde nos dirigimos tinha sido riscada do mapa; a não ser que o lugar onde nos encontrávamos, desprendendo-se dos prados firmes, nos levasse para ela.
 
Os dias já não são o que eram; nunca havíamos suposto que seria necessário recorrer tano à escrita:
                  «si l’on pousse assez loin dans le langage,
                   on se trouve pris dans l´étreinte de la pensée.»
 
a perda do mar pela areia é inevitável; da vela que arde à folha que respira, o seu rosto permanecia sempre latente; e qualquer objecto estava sempre a ser rodeado por ela.
 
 
 
maria gabriela llansol
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987

 




18 agosto 2020

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis


VIII

______________ descobrimos, no pinhal, a configuração de uma caveira: uma caveira emerge no pinhal, à beira do caminho; olhando-a de perto, analisando-a, verifico que não é uma caveira, mas uma pedra.
     Só eu tive a ilusão de ser uma caveira por duas manchas incravadas no granito.
     — É um logro — diz-me Aramis. — Não foi propriamente uma ilusão, mas uma percepção difusa. De uma cabeça assente no chão trazendo à minha consciência o suporte da morte.
     Foi um ardil da pedra dirigido ao meu olhar.
     Só eu, naquele momento a atravessar o pinhal e a floresta das faias, teria a emoção visual de que estava a descobrir, apoiada na caruma, e à beira da vereda, uma ex-cabeça humana.  

 ~

maria gabriela llansol
julião sarmento
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991





10 janeiro 2020

maria gabriela llansol / causa amante


 4 – foi a observar as beguinas migratórias que
      aprendi muito sobre o comportamento das aves;
      pelo verde, e pelo Inverno, espero o momento
      em que me seja revelado
      quantos do nome de João
      fizeram o meu nome.
      As beguinas que migram,
      não encontraram aqui nem o alimento,
      nem o modo de vida adequado.
      Não declaram morto o que está morto:
      pensam que adormeceu, e não o acordam.



maria gabriela llansol
causa amante
a regra do jogo
1984






08 agosto 2019

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis





XVIII

porque
todo o lugar é o limiar do mundo, janela de sacada que dá para a obra da paisagem; entre mim e ela há ainda uma mesa redonda – vermelha – , e duas cadeiras de jardim;          o meu universo preferido, Aramis, é a certeza da paisagem para além do limiar, e o mergulho ocular em certas cores trazidas da matéria: o castanho – da madeira; o vermelho – do ferro; o verde – das plantas;
o rosa – de uma emoção forte de suavidade.
São as cores em que a composição me é quase espontânea, juntas à sombra, constituem a                            visão.


       O azul excluído, é a cor única da nossa Comunicação final______________________ já sem caminho.



maria gabriela llansol
julião sarmento
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991







09 fevereiro 2019

maria gabriela llansol / LXII. dedico




a melodia é para a árvore e folhas; a leitura, a escrita, para o rosto entre ambas; o texto, ao entrar na árvore, sai paisagem. Resta-me a dor de aprender a identificar.



maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silêncio de 2004
assírio & alvim
2006







15 dezembro 2018

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis





XIII

     Aqui, tudo o que é estranho é imediatamente possível:
     o encontro com um pequeno sapo perdido, a tua aparição que surge ainda sem elo com a palavra. Uma velha bilha que se transforma em cornucópia de abundância, dizer de amor ao meu amante através de ovelhas, e misturando-me com o rebanho.
     Com esta resposta ao amor do meu amante por mim, com esta resposta ao amor do meu amante por ele,       e aos outros amantes que teremos, e que não terão igualmente fim,


     descemos, através de um arruamento branco, da plataforma da serra de Ossa.



maria gabriela llansol
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991









12 setembro 2018

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis



V

a conclusão de que não há abismo, e que a infância não pára de desenvolver-se e
e crescer,
é um novo princípio de realidade, de morte, de velhice:
eu não deixo de viver no mundo interior e exterior das metamorfoses flutuantes;
é já dia, mas a noite que conduz a esperança no pensamento, e sobre si própria,
não acabou.
                Não acabou definitivamente;
                onde estará, protegendo-se da luz, o sapo que brilha?
                Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
“Olha-os, e não os mates.”



maria gabriela llansol
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991







27 junho 2018

maria gabriela llansol / séculos a fio de chuva




198

_______________ séculos a fio de chuva
Ininterrupta, de pântanos e de frio criavam
No garoto um corpo tiritante dotado de uma
Agudíssima faculdade de observar. Se o coberto
Nunca secava, razão por que na sua língua não
Existia nem frio nem seco, e nada podia ser
Seguido por peugadas, onde pousara o inimigo
Seus sinais de passagem? Se ali vivesse um
Contador de histórias fulgurante, diria que
Ele estava banhado em lágrimas, em lágrimas
Totais. Mas eu _ o dom de escrevente que o
Seguia __ textuava, e textuava, um modo
De trazê-lo seco para um mundo de vida.
Apesar de mundo ser palavra supremamente
Ambígua, por constantemente se esbater
Se apagar.



maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003







03 maio 2016

maria gabriela llansol / interiormente, o segredo traria uma grande claridade


145

Interiormente, o segredo traria uma grande claridade,
Se pudesse. Só por fora sendo obscuro, o seu escuro
Sem efeitos não transparece. A criança que ainda
Subsistia no construtor de calendários, por pirrice,
Não quis meditar sobre as consequências. O tempo,
Não. Mesmo que fosse o inverso nada se alteraria.
De qualquer modo, empurrando seus carrinhos de brincar,
Entraram em colisão. Não creio que seu problema fosse
De sensualidade. A dar uma opinião, diria que era mais
Uma das muitas sequelas do caminho, como outra
Qualquer fase de caminho que se visse, ao longe.
Do terreiro da contemplação.



maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003



27 novembro 2015

maria gabriela llansol / a véspera é um dia de grande potência cognitiva


55

A véspera é um dia de grande potência cognitiva,
Uma potência cognitiva revestida de forte
Sensibilidade sem emoção. Ver o que ainda se
Não conhece é uma rara particularidade
___________ que, por vezes, arrasa.
Quando olhou o vidro,
O vidro estava ao espelho _____ é a véspera.


maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003



20 março 2015

maria gabriela llansol / um falcão no punho (fragmento)



Levantei-me antes da luz (cedo),
envolvida pela pergunta   como permanecer no conjunto das pessoas do meu sangue. Não dou importância que já vivi com outras pessoas, na mesma casa, que já convivi familiarmente com alguém. São já nove horas da manhã, mas ainda sinto os efeitos da madrugada. Afastei-me do movimento do Augusto, da minha mãe, da minha irmã, que se levantam e, tomando café e comendo fatias com manteiga na mesa da cozinha, procuro perceber os meus sentimentos e ideias, determinar o seu lugar escondido na invocação do labirinto. O canto do galo, a urina de Jade no muro, os gatos de idades diferentes à volta do prato, e o chacal que me faz andar à roda, no interior de mim, e uiva à minha serenidade. Não me reconheço apenas uma mulher, mas um anel, com algumas feridas. Fundada na luz que se eleva na cozinha, e que desce, condensando-se, da bandeira multicor da porta da entrada, junto-me a Spinoza, para subjugar o meu chacal, com a sua geometria; mais uma paixão, mais um momento de ódio, mais uma hesitação, mais saber que se transforma em fio subtil de poder, mais um instante de medo, eis o dia. É o sinal de que a madrugada está a passar, decompondo-se nos seus elementos, e vestígios. Por mais sombrios que sejam os dias, a companhia de Spinoza não me deixa nunca ficar muito tempo sem a terra, o ar, e o fogo.
Arrastador.
Alvor.
Insuflador.

O alvor que se anuncia na parte superior da porta com as outras palavras pertence à minha génese, e impeliu-me para fora do país de uma única língua; é preciso dar várias inteligências à língua reunida num todo, que só tem uma corola.

O meu país não é a minha língua, mas levá-la-ei para aquele que encontrar.


maria gabriela llansol
um falcão no punho
rolim
1985




23 agosto 2014

maria gabriela llansol / volto a deitar-me



37

Volto a deitar-me.
Bebo a água que fui buscar à cozinha.
Tudo dorme.
Sou eu.
És tu.
É o quarto.
Amanhã, te digo.
Que a noite é mais ser. Eu quero-lhe bem
Sem me apaixonar por ela.



maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003



12 fevereiro 2014

maria gabriela llansol / estas árvores balouçam na sua hesitação



190

__________________ Estas árvores balouçam na sua hesitação
Mas prosseguem. Os ramos mais altos precipitam-se,
Abrem no ar pousadas. Os mais baixos ocupam. Sol não
Falta. Há apenas a curva do caminho com incidências
Drásticas na sua respiração. Sim, há ainda as concorrentes,
As sementes ininterruptas, e o incompreensível desprezo
Dos humanos. Parascreve não diz. Se o cortarem, não
Reagirá ­­­­‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑ «Por que não entendeis a leveza de prosseguir?»




maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003


22 agosto 2013

maria gabriela llansol / quando a recordação dói



186

---------------------------------------quando a recordação dói,
As memórias movem-se, a nostalgia cai, e tu surges do
Passado pronto para me ferir
----------------------------quando o vento sopra de verdade,
As folhas movem-se, a chuva cai, e eu não sei se do chão
Te levanto ou te deixo para biodegradado. Mário,
É instantânea a translação entre frases textuantes.



maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003



09 janeiro 2013

maria gabriela llansol / meu deus, agora o amor está sujo




5 de Março de 1995



__________________________________________________________________________ Sandra,


   Meu Deus, agora o amor está sujo. Numa bacia. Sujo, como é possível? Não penses que é uma pergunta, é antes uma não-pergunta, ou o espanto antes da pergunta, o puro lugar do in-compreender. Uma morte,
que voz a traz,
a aproxima de nós e nos enxovalha o olhar?
    Que o sólido existe, existe,     como a natureza vegetal existe. Basta olhar como se decompõe o madeiro da árvore.
    Que o líquido existe, existe,     como a natureza animal existe. Basta ver como se liquefaz um corpo.
   Mas não será preciso, meu amor, tornar mais inteligível, mais percuciente, mais feroz, em suma, mais irradiante, a natureza evanescente, real e vaporosa, das figuras
que sempre fomos,
esses animais magníficos de uivo vibrante,
em vias de extinção?
    Com os olhos, a rapariga que saiu do texto («Não sintas ciúmes! Não há nada disso entre nós!») diz-me que sim, mas com a boca pronuncia:
    ─ Que coisa incompreensível termos vivido com um nome próprio.




maria gabriela llansol
inquérito às quatro confidências
relógio d´água
1996



03 novembro 2012

maria gabriela llansol / estou de pé sobre a fronte apelativa...


  

4

Estou de pé sobre a fronte apelativa de uma imagem de mulher.
E por onde ela me atrai, principia a circular meu desejo; afinal,
Converso com ela; mais exactamente, ela fala comigo, pois eu
Raramente abro os lábios. Apenas por olhar me identifico.
Que inventar para lhe pôr na testa? Nada de parecido com um beijo.
Com um desafio. Sinto
A força dos cavalos à deriva. Vejo que meu corpo se senta, se deita,
Pousa a cabeça no chão, pelo lado da cara. Choro em torrentes nesse
Corpo total. Muitas são
As lágrimas que merece a alegria de conhecer.



maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003




30 setembro 2012

maria gabriela llansol / sua paixão é ter paixão



  
100

Sua paixão é ter paixão, não uma paixão. Tanto
Quanto um traço pode ser explícito. Vê-se na
Relação entre o fora e o dentro. Rapaz a pique,
O dentro emite, o fora transparece, o dentro
Recebe para emitir uma vez mais e não se repetir.
Ar, sangue, pulsações, estratégias giras de
Conhecimento, uma acção radical por dia,
Várias ogivas prontas a dar. E ela disse-lhe:
«Ok! E se deixasses de esmolar?»




maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003




03 janeiro 2012

maria gabriela llansol / estas árvores balouçam na sua hesitação




190



____________ Estas árvores balouçam na sua hesitação
Mas prosseguem. Os ramos mais altos precipitam-se,
Abrem no ar pousadas. Os mais baixos ocupam. Sol não
Falta. Há apenas a curva do caminho com incidências
Drásticas na sua respiração. Sim, há ainda as concorrentes,
As sementes ininterruptas, e o incompreensível desprezo
Dos humanos. Parasceve não diz. Se o cortarem, não
Reagirá. «Por que não entendeis a leveza de prosseguir?»




maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003




29 julho 2011

maria gabriela llansol / XCII. beirais

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__________ se estiveres ausente ( automóvel, comboio, avião, mudança de estação ou de cidade ), compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua.





maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silêncio de 2004
assírio & Alvim
2006
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17 outubro 2010

maria gabriela llansol / fui dar com ela no quarto a chorar






340


Fui dar com ela no quarto a chorar, o telemóvel
Atirado para um canto. Entre lágrimas, foi dizendo
(E tem doze anos) que seu amigo decidira que deviam
Esperar. Sua mensagem: «Só o amor verdadeiro está
Por vir». É ténue a diferença (pensei) entre um galã
E um filósofo. Mas ela, sobretudo, descobrira que os
Novos instrumentos «mordem» tanto como os antigos,
Salvo que muito mais depressa. A mentira vende. Para
A publicidade, na nova comunicação é impossível a má
Notícia. Por que não trocam com os jornais?






maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003