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18 agosto 2020

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis


VIII

______________ descobrimos, no pinhal, a configuração de uma caveira: uma caveira emerge no pinhal, à beira do caminho; olhando-a de perto, analisando-a, verifico que não é uma caveira, mas uma pedra.
     Só eu tive a ilusão de ser uma caveira por duas manchas incravadas no granito.
     — É um logro — diz-me Aramis. — Não foi propriamente uma ilusão, mas uma percepção difusa. De uma cabeça assente no chão trazendo à minha consciência o suporte da morte.
     Foi um ardil da pedra dirigido ao meu olhar.
     Só eu, naquele momento a atravessar o pinhal e a floresta das faias, teria a emoção visual de que estava a descobrir, apoiada na caruma, e à beira da vereda, uma ex-cabeça humana.  

 ~

maria gabriela llansol
julião sarmento
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991





08 agosto 2019

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis





XVIII

porque
todo o lugar é o limiar do mundo, janela de sacada que dá para a obra da paisagem; entre mim e ela há ainda uma mesa redonda – vermelha – , e duas cadeiras de jardim;          o meu universo preferido, Aramis, é a certeza da paisagem para além do limiar, e o mergulho ocular em certas cores trazidas da matéria: o castanho – da madeira; o vermelho – do ferro; o verde – das plantas;
o rosa – de uma emoção forte de suavidade.
São as cores em que a composição me é quase espontânea, juntas à sombra, constituem a                            visão.


       O azul excluído, é a cor única da nossa Comunicação final______________________ já sem caminho.



maria gabriela llansol
julião sarmento
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991







28 fevereiro 2005

book zapping #005 maria gabriela Llansol

o raio sobre o lápis




V

a conclusão de que não há abismo, e que a infância não
pára de desenvolver-se e crescer,
é um novo princípio de realidade, de morte, de velhice:
eu não deixo de viver no mundo interior e exterior das
metamorfoses flutuantes; é já dia, mas a noite que con-
duz a esperança no pensamento, e sobre si própria, não
acabou.
Não acabou definitivamente;
onde estará, protegendo-se da luz, o sapo que brilha?
Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates.»




O Raio Sobre o Lápis
de Maria Gabriela Llansol
desenhos de Julião Sarmento
Assírio & Alvim
Novembro de 2004