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13 novembro 2018

manuel gusmão / o chão da história move-se




3

     o chão da história move-se; repentinamente abre fendas, e então melhor se ouve o motor que trabalha, - é uma espécie de mar.
     as coisas resvalam, a fauna e a flora desse mar rolam pelas suas idades, estremecem, uivam, precipitam-se em frente.
     espera um pouco, - ouve, dentro dos pulmões do mar, alveoladas entre os limos e os peixes mais quietos, as ovas pantanosas destas branquíssimas borboletas que zumbem no teu amor a vertigem e a ameaça.
     até pode ser que a doença cresça e magoe.
     por um momento tu inclinas-te e lavas, nessas águas que ardem, «o focinho lavado em sangue».
     Mas aprendes ou não aprendes que em algum momento no futuro, no futuro!, te agitas na alegria?

(dedicatória)



manuel gusmão
dois sóis, a rosa
a mesa (d)o mar (1979)
caminho
1990






19 setembro 2018

manuel gusmão / b.




aprende a falar – diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos, põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. então, falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue,
de assombro em
assombro.



manuel gusmão
dois sóis, a rosa
a arquitectura do mundo
caminho
1990







14 março 2016

manuel gusmão / no coração da rosa a noite


1
No coração da rosa a noite
abre as alas
do brilho

a noite
alarga na rosa
o seu sim
diurno



manuel gusmão
dois sóis, a rosa
a arquitectura do mundo
caminho
1990



02 dezembro 2015

manuel gusmão / estudar o sol



estudar o sol
para conhecer o olhar;

que a rosa se desencadeie:

dividindo-os
sobre a mesa
operatória
do vasto mundo
em trânsito; voo
amoroso
para ti



manuel gusmão
dois sóis, a rosa
a arquitectura do mundo
caminho
1990



04 setembro 2015

manuel gusmão / uma pedra na infância



Põe uma pedra
uma pedra sobre a infância

Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro

Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa

falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas o riso sem porquê

Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:

Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite do poço.

Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.

Já não vais a tempo, ela enredou sem remédio
as vidas os nomes a tua condenação. Mas vai.

Para que se cale de vez essa respiração que se ri
na cara da morte, nos olhos do enviado de deus

recita o que o ditado ditou: Põe uma pedra sobre
a infância e ouve a era a folhagem que cobrem

o céu em ruínas.

Também então havia uma pedra no canto do quarto
Alio onde a noite começava, era uma pedra e depois
crescia, petrificava-se no seu coração de pedra
dividia-se e eram várias crescendo; ocupando
todo o espaço do sono, do sonho do mundo.
Pesavam no teu peito procuravam-te os olhos
que de pedra ficavam e o grito era uma pedra
que na garganta subia contra a outra pedra.
O próprio ar golpeado era e dividia a voz
pedra contra pedra, o deserto a perder de vista.

Põe uma pedra sobre outra pedra. Inventa uma
outra infância de que possas recordar-te.
Obedeces ao poema e é sem espanto que vês:
nada acontece. Não há

nenhuma voz na voz dos condenados.



manuel gusmão
leyapoemas, jl
2009




12 dezembro 2013

manuel gusmão / entre a praia e o jardim



1
entre a praia e o jardim
as margens da luz:
praias de longa duração fluindo
em torno de um jardim instantâneo;
jardins que vão crescendo durante séculos
até um relâmpago de praia onde
o teu corpo em flashes brancos
se incendeia branco;
o espanto que a
ssombra o espanto, nas fronteiras
perturbadas, o fulgurante
mar, a massa de árvores
na montanha.

  
manuel gusmão
as escadas não têm degraus nr. 3
livros cotovia
março de 1990



21 julho 2011

manuel gusmão / cenas

 
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3

ao cimo do jardim no topo
de todas as hastes do jardim é
como se explodisse uma praia.
ou como se rodando sobre si mesmo
e subindo, em cima, o jardim
expirasse uma praia que se abre.
e então na mínima ondulação
dessa praia, no alto da explosão,
é um jardim terrestre que vai
começar
a aparecer. que recomeça.




manuel gusmão
dois sóis, a rosa
a arquitectura do mundo
caminho
1990
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