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18 abril 2021

luiza neto jorge / sítio sorvido

 
 
I
 
A tranquilidade de um sítio é como
o limiar náutico da beleza
esse reduto assaltado isso
que não existe talvez
 
que ninguém resumiu com ardor
com total tranquilidade
mesmo a dormir
 
Eis-me num café longínquo onde o que há
são cadeiras
de facto não são joelhos
ou animais transportadores para as duas
margens.
 
Apenas um objecto
menos contaminado
uma chávena, pego-lhe,
bem cheia bem reflectida
 
secreção de gestos fortuitos
em honra de um sítio invadido
 
ou evadido
 
 
II
 
Passada a porta passado oceano e firmamento
é o café que surge, a experimentar
quem vem de fora.
 
Inúmeras chávenas
menores despojos deixa a peste
 
Enquanto a mesa redonda põe
a minha doçura à prova
 
a chávena combativa
objecto a ferver
no fundo que porcaria
esconde?
 
É que nem tudo nem todos
são visíveis deste sítio
quer seja o oceano a porta
ou o purgatório
 
 
 
 
luiza  neto jorge
os sítios sitiados
poesia
assírio & alvim
1993
 



16 outubro 2019

luiza neto jorge / os frutos frios por fora



A vida está cada vez mais cara
no meu tempo a vida
era mais em conta
fazia menos calor
as cidades não mudavam de lugar
corria uma brisa, como uma vassoura.

O fruto, um autómato surpreendido.
Desprendeu-se da casca, que viu?
Um autocarro, um avião, um submarino.
Os frutos frios por fora
são por dentro aquecidos a electricidade.
Os frutos davam frutos, flores, brinquedos.

No meu tempo o rio corria limpo
como um corredor novo
nadávamos nus
uns pelo meio dos outros
extraíamos um amante do vulcão mais próximo.

A um dos meus o mais novo
o mais próximo da sua idade
matou-o o fumo!

Vivia-se até à última.
A vida era mais em conta; depois
derramaram-se histórias sobre mim
os olhos de Buda destilavam
penicilina, eram o que se chama uns olhos
divinos.

Nunca mais quero animais
em casa. Morriam os animais
comprava-se veneno, matava-se gente.

Muitos amantes dormindo sobre a lava.
Morríamos em ilhas separadas por
um cordão de rios ininterruptos.
Nem tínhamos idade para ser crianças num
continente.

Havia no meu tempo fábricas
sumptuosas. Onde se fabricava uma constelação
exacta e limpa, um amor sumptuoso e seus afluentes,
e ínfimas máquinas purgatórias.
Fabricava-se mais e melhor que hoje.

Não há respeito por ninguém;
por exemplo o diamante
não tem a utilidade de uma jóia:
é só um diamante (para um asceta)
só um dia amante (para um suicida).
Com uma jóia, sim, compra-se o mundo.

No meu tempo mal se via a terra
às escuras. Uma luz satélite, um olho
artificial,
uma luz de fruto verde frio por fora
operava esse milagre, essa visão.

Meu pai, que se ausentara,
sabia que seu pai ia ser morto.
Estendia-se a roupa sobre o fogo.
Crescia o pão largo como uma
ampola de penicilina, em tempo de guerra
de guerrilhas.




luiza neto jorge
edoi lelia doura,
antologia das vozes comunicantes da poesia portuguesa
organizada por h. helder
assírio & alvim
1985






12 fevereiro 2019

luiza neto jorge / o sítio em visita




*

Há no mundo inteiro uma, quando muito, rua
difícil de encontrar.

São os campos, gente humílima, absorta em grãos
de areia, praia inequívoca onde,
na estação tardia, os do mar se deitam.

Algumas folhas, de livros, assinalam o ponto.
Algumas cartas, de marear,
não chegam.



luiza  neto jorge
os sítios sitiados
poesia
assírio & alvim
1993







12 agosto 2018

luiza neto jorge / recanto 7




Escolho sempre um nome que me soe amante
retrato de homem nascido
«em plena guerra», de esparsas relíquias
Incêndio e incendiador     dor e adaga dolorosa.

Ora brilho com ele em marés vivas
como a água na areia brilha assiduamente
ora nos bebem os inimigos o sangue
os pensamentos
o desvio menos exposto do desejo.

Mas ele brilha     João     em todo o corpo
Fuma, o gladiador.
Luta     amordaça     desfaz     refazamor.


Apocalipse segundo João.



luiza  neto jorge
dezanove recantos
1970







05 abril 2018

luiza neto jorge / a casa do mundo




Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirenéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objectos de família, atiro-lhes
a porta.

Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.

É a casa do mundo:
desaparece em seguida.


luiza  neto jorge
o seu a seu tempo
poesia
assírio & alvim
1993







05 dezembro 2017

luiza neto jorge / pelo corpo



infinita invenção
de pétala a escaldar
desprende o falo

a palavra sublinhada
que é ele a avançar-me
pelo corpo

a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,

o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo


luiza  neto jorge
o amor e o ócio
poesia
assírio & alvim
1993





30 novembro 2016

luiza neto jorge / recanto 18



Desses «em guerra» vos falo falo dos que me seguem
não os chamámos seguiram-nos
todos descremos e rimos por dinheiro não trocámos
projectados para a morte não traímos

Eu e ele somos a espaços
improváveis veículos (eu e vós)
mestres voadores numa convulsão de cigarros mestres
reptantes redemoinho meu ressaca viva oculto vinho
oculto amor

o nosso vedado o mundo tão exíguo e o dos outros
(luzes água planetas mecanismos ambíguos) mais
exíguo

Amamos o mundo (quem?) o tempo (qual?) a luz (quando?)
a treva (onde?) tudo (?) todos (?!)
trepidantes trémulos
com a ajuda mental de partículas
de merda

ou simples estados, frenesis, convulsivos, objectos,
alibis, a pique, patológicos,
risos, redundâncias, aços, lascados, alarmados,

conhecemos – além de nós, reais –
os reis, os resíduos, o dente liliputiano
no sorriso o arcanjo.



luiza  neto jorge
dezanove recantos
1970





27 abril 2016

luiza neto jorge / sítio lido



          I

          Um livro crepita
          um gémeo pendura-se
          no seu fogo

          (aparato lírico do fogo
          queimando o labirinto)


II

Escorregam as linhas descendentes
de um poeta.

E as chuvas caminham noutra direcção
para uma página menos escrita.


III

Compare-se o que se diz
com o silêncio que circunda a boca
de um ser desconhecido.

Flecha primeira a chegar
aos confins da terra.

Um dispositivo de silêncio
nos pontos cardiais
desta página
instaura a maravilha
por alguns séculos


IV

Estremeço
No coração.
As letras vêm de lá
e da mão.

Padeço:
o eco — perco-o —
sai da garganta
e da distância.

Palavra é o que lembo
ou o que meço?

          
V

Este é o tempo todo que me falta
e nem é muito nem pouco.

De mim direi o que deixarem
as falas que flutuam entre mim.

Palavras não se repetem
nem o verso sai do sítio em si

Repousa muito aí, até esquecer.

A morada é nesta confluência
do que digo e aquilo que farei

depois e antes de não saber
falar


luiza  neto jorge
os sítios sitiados
poesia
assírio & alvim
1993



17 março 2015

luiza neto jorge / as casas vieram de noite



As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas



luiza neto jorge
os sítios sitiados
plátano. lisboa
1973 




24 agosto 2014

luiza neto jorge / a divisibilidade: a visibilidade a dois



A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só o poeta o diz.

A mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.

Dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.

A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas de um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação.

Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-se ainda.



luiza  neto jorge
o seu a seu tempo
poesia
assírio & alvim
1993



17 março 2014

luiza neto jorge / o poema ensina a cair



O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair
quando a face atinge o solo
numa curva delfada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.




luiza neto jorge



26 dezembro 2013

luiza neto jorge / poema quase epitáfio



Violentamente só
desfeito em louco
- nem um gato lunar
te arranha um pouco

Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos

Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)

O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões

- Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?

  
luiza neto jorge
os sítios sitiados
plátano
1973




26 novembro 2013

luiza neto jorge / noite-pétala



Posso estar aqui
eu posso estar aqu perfeitamente pobre
um círio me acendi espora aguda
o vento ritmo negro assassinou-o

posso estar aqui
─  o musgo é lento como a sombra ─
e sei de cór a voz cega das canções
 (viola de silêncio acorda-me)

que eu posso estar aqui perfeitamente pedra
insone
e um longo segredo impessoal
bordando a minha solidão



luiza neto jorge
a noite vertebrada
1960




20 julho 2012

luiza neto jorge / a magnólia





A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem-me a forma
o meu resplendor. 

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala. 

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
Perdido na tempestade, 

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim. 




luiza  neto jorge
o seu a seu tempo
poesia
assírio & alvim
1993



13 dezembro 2011

luiza neto jorge / acordar na rua do mundo






madrugada. passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos.
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas. no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas. ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu. estragou-se o alarme
da joalharia. os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam
   
o azul dos azulejos. assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai
de uma vaso salpicando o fato do bancário




    
luiza neto jorge
poesia
fragmentos
assírio & alvim
1993





14 julho 2009

luiza neto jorge / difícil poema de amor







Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes.
Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito
feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos
do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas
que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo
deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.

Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.

Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste
maléfico como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade.

Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial
quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas
da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela.
As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas:
vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vazados.
Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu?
Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a cálculos.
Amas-me demais.

Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à
boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado.
Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio
é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes. Conheces-me.
Não me tens amor

Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade
e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.

Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso
que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.

Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar.
Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos
esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro:
se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero.
O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?

Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo eu.
Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado,
pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento.
Desça com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam
sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação
em volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento.
Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado .
As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito.
Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me.
Assim nos separámos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo
será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo
e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse?
Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço
nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros
é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura
que carrego sobre o corpo a horas e desoras
ostentando-a como objecto público sagrado purulento.
O odor que as pedras têm quando corpos.
O apocalipse de tudo quando amamos.
O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos lhe respondo.
Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde
ou simplesmente de noite despertos.
Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já.
Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos
e admiramos os monumentos e morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa.
Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra.
Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa
celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas
com demónios privados nas esquinas.

Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.

És tu tão único como a noite é um astro.

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita
o meu nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!








luiza neto jorge
terra imóvel
portugália
1964