Mostrar mensagens com a etiqueta manuel resende. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta manuel resende. Mostrar todas as mensagens

16 maio 2021

manuel resende / epigrama

 
 
Não não foi pela usura que veio o Duce
Nem por casa de pedra fresca nem pelo fresco na pedra
Foi pela ganância pelo árduo
Exercício espiritual das transferências de fundos
Foi pelas costas da Etiópia, suor destilado no norte d’ áfrica
Por um exército de diarreias e palavrões nas camaratas
Não o Duce não veio pela usura
Mas pelo medo das províncias
Mas para que os escravos digerissem
Diligentemente a fome pois a fome
É o pão mais duro de roer.
 
 
manuel resende
natureza morta com desodorizante
poesia reunida
edições cotovia
2018





30 março 2021

manuel resende / voltar para casa

 
 
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
E seguir o rasto das árvores no chão,
Pelo caminho conhecido, com o coração mirrado nas mãos
E as mãos nos bolsos como um apontamento antigo?
Não haverá outra história para viver, um jornal para cada um,
E súbita a esperança a queimar os lábios, a palpitar na boca,
Pronta a saltar e a arder todo o corpo?
Mas porque tem a pessoa de voltar para casa
Cabisbaixa?
 
 
manuel resende
em qualquer lugar
poesia reunida
edições cotovia
2018





26 setembro 2020

manuel resende / chico 2

 
 
Morrem à minha volta.
Sem longas doenças, fulminados.
Equipados apenas com o corpo.
Não quiseram que a alma morresse
Antes deles.
 

 
manuel resende
em qualquer lugar
poesia reunida
edições cotovia
2018
 






06 maio 2020

manuel resende / vida



Vida passajada, alinhavada
Cerzida, em ponto de cruz, ou de estrada,
Ou de pérola, tenho-te tratado
Com todos os cuidados –
E tu, madrasta, sempre
Logo num ai devoras o almoço que eu
Preparei com tanto amor, a manhã inteira.
Sempre a começar de novo, sempre a dar-me outra manhã,
Quando a de ontem já me bastava para toda a vida.


manuel resende
poesia reunida
edições cotovia
2018










14 março 2020

manuel resende / diário de hannah arendt



A filósofa Hannah Arendt
Está a descascar cebolas na cozinha.
Pergunta: “Sabes dizer-me
O horário dos correios?”

E a amiga:
“Tu estás apaixonada…”


manuel resende
poesia reunida
edições cotovia
2018









17 fevereiro 2020

manuel resende / uma palavra


Longe de mim querer corromper a juventude,
É um trabalho que sobreleva as
Minhas capacidades.
Antes cicuta.
Mas tenho de explicar o sentido
Da palavra “desesperança”.

É uma esperança negativa.
A gente senta-se num cais
E deixa o sol trabalhar.
O sol minúsculo, isto é, o calor na pele.
Chamo a isto a experiência mínima.

Feito isto:
Venha de lá então
Essa catástrofe.



manuel resende
poesia reunida
edições cotovia
2018