Com grande clareza, grande exactidão, hoje
a montanha mostra-se
em toda a sua altitude, num apurado entendimento
do fôlego. Parece
mais próxima do que é costume;
ainda assim mantém
uma grandeza solitária, incontestada:
esta proximidade franca,
este modo de anunciar a primavera
enfim chegada, este cerimonioso
desnudar de seios nevados, como se
braços se espraiassem, não é
querer a intimidade.
(Entretanto
o sol de
Abril, ainda frio,
floriu as
pequenas margaridas,
tantas e
humildes que se fazem espezinhar –
e que
importa? Há em cada flor
a forma de
uma gargalhada.)
A montanha prossegue graciosa
o seu sóbrio desvelamento.
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021