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21 maio 2026

denise levertov / uma nova flor

  
 
Quase todas as vivas pétalas do girassol
tinham caído, então arranquei as poucas
que faltavam e encontrei-me
com uma nova flor: o centro,
redonda almofada escura
da cor de café torrado, tocada de inúmeras
ínfimas florinhas de ouro, mais visíveis agora,
caído o vivo e brilhante amarelo,
e à volta um verde anel, as pétalas
por sob as pétalas, ali desde sempre,
cada uma com a forma de chamas sagradas
as folhas de figueira dos pagodes,
forma lúdica, jubilante
(subestimada em padrões Paisley)
e a luz vindo por entre elas, de modo que
quando, em dupla ou tripla fila, como um grupo
de anjos da Renascença, se sobrepunham,
havia sombra, um tom mais denso
do mesmo verde de rebentos – uma nova flor
neste dia de outono, revelada
no outono da sua própria floração.
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021


13 janeiro 2026

denise levertov / escadaria antiga

  
 
Passos como água escavam
as amplas curvas de pedra
século a século
subindo, descendo.
Quem pode dizer
se o último a trepar a escadaria
em viagem
descendente ou ascendente
está?
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021




22 abril 2025

denise levertov / noblesse oblige



 

 
Com grande clareza, grande exactidão, hoje
a montanha mostra-se
em toda a sua altitude, num apurado entendimento
do fôlego. Parece
mais próxima do que é costume;
ainda assim mantém
uma grandeza solitária, incontestada:
esta proximidade franca,
este modo de anunciar a primavera
enfim chegada, este cerimonioso
desnudar de seios nevados, como se
braços se espraiassem, não é
querer a intimidade.
                            (Entretanto
                       o sol de Abril, ainda frio,
                       floriu as pequenas margaridas,
                       tantas e humildes que se fazem espezinhar –
                       e que importa? Há em cada flor
                       a forma de uma gargalhada.)
A montanha prossegue graciosa
o seu sóbrio desvelamento.
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021







 

14 abril 2021

denise levertov / mês veloz

 
 
O espírito de cada dia passa, cabisbaixo
sob o vento, braços cruzados.
ambíguos irmão daquelas idealizadas
“filhas do Tempo”, nem dons nem escárnio
proferindo, as mãos prendendo
os cotovelos, escondidas em mangas largas
de túnicas cor de sombra. Dia após dia
e nenhuma em demoras, a cadência do seu passo
sem pressa, e ainda assim veloz, demasiado veloz.
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021