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22 maio 2026

catarina santiago costa / sou uma daquelas crianças

 
Sou uma daquelas crianças
que receberam carvão no sapatinho.
Mas, se servir para assar pimentos e sardinhas,
nem tudo está perdido.
 
O que é um livro se não um pássaro
morto nas minhas mãos,
o lápis um galho retorcido e caquético,
o papel uma mortalha seca
carente de unguentos –
ao meu toque, tudo encarquilha.
 
“Tenho o coração cheio de poemas”
escreves-me, brilhando do outro lado da rua.
Por isso, perdurará em ti sempre
essa primavera de abelhas e joaninhas.
 
Embriagada de ti,
lembras-te esse tempo
em que os sinos eram
mais reais do que audíveis.
Na minha mente, anunciavam
amiudadas boas-novas.
 
A vida era um domingo sem fim
no bairro da Estrela.
Ia-se à missa para trocar beijinhos com o vizinho
do lado,
o rapaz mais tímido da paróquia,
que importava se não era baptizada.
 
 
 
catarina santiago costa
nervo/27 maio/agosto 2026
colectivo de poesia
2026