24 março 2026

gonçalo m. tavares / a guerra

  

O zero entre os números, é de longe o mais estável;
no entanto, o mundo prossegue.
Como o fim de uma coisa, de um objecto
ou de uma guerra: os homens querem esquecer e
não têm projectos: limpam o sangue de cada fio de erva
como as empregadas domésticas dedicadas
fazem ao pó dos seus livros.
Mas ninguém é tão paciente ou corajoso que consiga
Limpar ao pormenor os mortos e os seus vestígios no espaço.
Ficam sempre coisas, mudas e ruidosas,
que testemunham um peso. Ali, a vida foi violenta demais
para a carregares: eis uma descrição possível
para o abandono da mulher que amas.
Como vês nem sempre a causa é a traição habitual: por vezes
os homens chegam tarde à esposa
porque morreram numa batalha. Se ligares a televisão
ainda vais a tempo de escutar
os comentários de um general que estudou em Londres
                    e é muito inteligente.
 
 
gonçalo m. tavares
1 poesia
relógio d´água
2004
 

23 março 2026

antónio josé forte / este cérebro…

  
 
Este cérebro de um país
placa tornante gonzo eclusa
de tantas aspirações que procuram
 
ele próprio no centro
da comodidade das suas estradas convergentes
local feito para a troca e para reuniões
capital onde se realiza não só a síntese
de duas raças
mas também a união de tantos interesses
tantas energias
desligou as suas imagens
 
boca aberta em expectativa
os homens-jaguares
vão falar
 
 
 
antónio josé forte
uma faca nos dentes
parceria a. m . pereira
2003




22 março 2026

nuno júdice / o lugar das coisas

 
 
 
Gosto das palavras exactas, as que acertam
com o centro das coisas, e quando as encontro
é como se as coisas saíssem de dentro delas.
 
Essas palavras são duras como os objectos
que designam, pedra, tronco, ferro, o vidro
de espelhos quebrados com o calor da tarde.
 
Tento incendiá-las quando escrevo, como se
o fogo saísse de dentro da frase, e se espalhasse
pelo campo da página numa devastação de sílabas.
 
Então, atiro sobre as palavras outras palavras,
água, pó, terra, o ar seco do verão, para que a voz
não fique queimada nesta paisagem negra.
 
Recolho os restos, os adjectivos, os advérbios,
artigos, preposições, para que só as palavras que indicam
as coisas fiquem no lugar que já tinham.
 
Pouco importa que as frases percam o sentido. O
que fica são os nomes das coisas, para que as coisas saiam
de dentro dele e as possamos ver nos seus lugares.
 
 
 
nuno júdice
50 anos de poesia
antologia pessoal (1972-2022)
dom quixote
2024
 




21 março 2026

gastão cruz / o tempo anterior

  
 
Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na
 
água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci
 
mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço
 
 
gastão cruz
as pedras negras
os poemas (1960-2006)
assírio & alvim
2009





20 março 2026

pedro tamen / só me separa intenso do que foge

 
 
 
Só me separa intenso do que foge
pelo meio dos fumos e das micas
a bala que me apontes e se aloje
onde resido eu, e tu te ficas:
 
nesse lugar de goma almiscarada,
e mascarada (que não é possível
de modo outro ser-se), tu, a fada
de cor e pele e carne mais doível,
 
ergues a mão de lacre no que sou
e tocas essa vara, vime e lenho
no que passar, ou passe, ou já passou
 
– e assim é que me perco e que me ganho,
pois que por ti tudo o que tenho dou,
pois que de ti o que te dou retenho.
 
 
 
pedro tamen
os quarenta e dois sonetos (1973)
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




19 março 2026

manuel cintra / tinha filhos escondidos

 
 
 
Tinha filhos escondidos
Nos olhares plantados entre os filhos
Dos outros
 
 
E se nessa época o ar fosse fértil,
Caramba,
Muito o havia de emprenhar.
 
 
 
manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981




18 março 2026

adília lopes / para escrever

 
 
 
1
 
Para escrever
é preciso
ter pouco
que fazer
 
(tirando
esta quadra
não consegui hoje
escrever mais nada)
 
 
2
 
Quando a vida
é madrasta
a arte
não basta
 
(entre pato e peru
este bicho
cruza-se comigo
no Campo Sant’ Ana
Eva não faria melhor
do que eu
ao mundo para quadro de Isabelino
nada lhe falta, Rosa Alice)
 
Para escrever
é preciso
dinheiro
 
 
 
adília lopes
dobra
poesia reunida
versos verdes (1999)
assírio & alvim
2021




17 março 2026

albano martins / o mesmo nome

 
 
 
Cabem ali
todos os indícios. De nenhuma
casa, nem mesmo
dos seus alpendres, te consideras
dono e senhor. E,
por mais que escrevas,
escreverás sempre
o mesmo nome.
 
 
 
albano martins
por ti eu daria
o mesmo nome (1996)
glaciar
2021
 




16 março 2026

cristovam pavia / improviso aos poetas

 
 
 
Ó mastigadores do mundo:
Nas vossas veias de suba,
Nos vossos olhos se transmude,
Pelos vossos lábios se exprima…
Vós o desflorais tão dentro,
Com uma angústia tão profunda!:
Parece o corpo da amada
E é terra que se ilumina.
 
 
 
cristovam pavia
poesia
dom quixote
2010
 
 


15 março 2026

fernando namora / identificação

 
 
Não sei se conhecem
a lucidez de quando
a loucura se aproxima
e a sentimos no estalar
dos ossos.
Já não demora
o fatal amplexo,
ei-lo no sue gélido pacto
com o que dentro de nós
se despede
para ser sacrificado
ao alívio de o deixar.
 
 
 
fernando namora
nome para uma casa
livraria bertrand
1984
 




14 março 2026

antónio osório / catorze de março

 
 
 
Catorze de Março, dia de teus anos.
Nascentes cachos de uva, glicínia,
vestígios da olaia, multidões de ervas.
Mondo as primeiras sobre a sepultura
e custa fazer-lhes mal, tocar-te.
Em torno pinheiros e colinas levedam
a primavera. Entre canteiros correm
dois rapazes, sua avó varre a meseta
daquele corpo ao lado do teu.
Leio: piloto. Nunca o viste. Sem bússola.
Plâncton, ambos, no mar desconhecido.
 
 
 
antónio osório
a ignorância da morte
os cavalos de tróia
editorial presença
1982
 



13 março 2026

cesare pavese / paisagem II

 
 
 
Com o céu estrelado, a colina branqueja, de terra desnudada;
poder-se-iam ver os ladrões lá no alto. Na cova do vale
os bardos estão todos na sombra. Lá em cima também os há,
mas é terra de quem não precisa, aí não vão eles:
cá em baixo, na humidade, com a desculpa de andarem às trufas,
entram nas vinhas e roubam as uvas.
 
O meu velho deu com dois engaços caídos
entre as cepas e esta noite até ferve. A vinha já é pouca:
dia e noite na humidade, só nascem folhas.
Entre as cepas, vê-se sob o céu a terra desnudada
que de dia lhe rouba o sol. Lá em cima o sol queima
do nascer até se pôr e a terra está calcinada: vê-se mesmo de noite.
Lá não nascem folhas, a força vai toda para as uvas.
 
Apoiado a um bordão, na erva milhada, o meu velho
tem tremuras na mão: se os ladrões vêm esta noite,
salta do meio dos bardos e dá-lhes cabo do canastro.
A essa gente há que dar-lhes sem piedade, como animais,
que não hão-de ir contar. De vez em quando levanta a cabeça
cheirando o ar: parece-lhe que lhe chega, no escuro,
uma ponta de cheiro a terra, trufas arrancadas.
 
Nas encostas altas, que se estendem até ao céu,
não há sombra das árvores: os cachos arrastam-se pela terra,
tanto é o peso. Não se podem esconder:
distinguem-se lá no alto as manchas das árvores,
negras e escassas. Se tivesse a vinha lá em cima,
o meu velho esperá-los-ia de casa, na cama,
de espingarda apontada. Aqui no fundo nem sequer a espingarda
serve para alguma coisa: no escuro só há folhagem.
 
 
 
cesare pavese
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997
 



12 março 2026

josé emílio pacheco / aguarela

 
 
 
O ar sangra sobre a cidade,
leve pomba que o falcão trespassa.
 
Não é ainda noite e o céu
cerrado está como em tormenta. Répteis
abandonam as suas tocas
com o medo feroz às costas.
 
Mas não passarão.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 



11 março 2026

leopoldo maría panero / saint malcolm parmi les oiseaux

 
 
 
 
                                                                    Ao álcool
 
 
 
Quem grita, vingativo, no palácio sem nome,
quem grita, quem me força a viver como seu
látego estalando todos os dias nas minhas costas,
quem senão esta
perpétua tentação para… a dor do nada,
desta morte que convida, esta
perpétua obsessão de sofrer por nada, pelo
que não tem valor, e pelo que não é
esta morte, e esta
doce dor para ninguém e para todos,
esta doce dor como um pecado.
 
 
 
leopoldo maría panero
a canção do croupier do mississípi e outros poemas
trad. jorge melícias
antígona
2019
 




10 março 2026

andrea cohen / aquilo que se

 
 
 
Aquilo que se
pode matar com
 
uma mão não
se pode – com
 
um milhar
de mãos –
 
reaver.
 
 
 
andrea cohen
serenamente sobre as lanternas
trad. francisco josé craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2024




09 março 2026

alejandra pizarnik / árbol de diana

 
 
               
6
 
ela despe-se no paraíso
da sua memória
ela desconhece o feroz destino
das suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
árbol de diana (1962)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020
 


08 março 2026

aleksander kushner / a história não nos ensina nada

  
 
A história não nos ensina nada,
Mas, como um historiador disse uma vez – e não
Há razões para não acreditarmos nele  - por não a
                                                     conhecermos,
A história castiga-nos.
Não ensina, castiga. Olhos
E mais olhos é do que precisamos, e de prestar atenção.
 
Mais que uma preceptora
Ela é uma professora primária. Tantos temas terríveis
Nos seus manuais, nas suas crónicas…
Mas nós, sabes, não somos assim tão grandes.
Somos, sim, teimosos, de acordo
Com as palavras iniciais da desgastada professora:
“Pensem, está bem. sentem-se. Não se mexam.
                                               Escrevam isto.”
No fundo da sala, sonhamos com notas satisfatórias.
 
 
 
aleksander kushner
é por isso que a alegria é mais alta
poemas russos dos séculos vinte e vinte um
versões de luís filipe parrado
contracapa
2022
 


 

07 março 2026

macky corbalán / humanos

  
 
Leio-os como páginas escritas.
Atravesso os seus órgãos opacos, a sua pele,
o susceptível fio dos nervos.
É sempre o mesmo, em cada época:
rixas, acordos e desânimo. Mas há uma coisa
que eu não entendo: essa obscura,
repentina agitação
quando recordam.
 
 
 
macky corbalán
por alguma razão
antologia de poesia argentina
selecção e tradução de hugo miguel santos
contracapa
2024


06 março 2026

lawrence ferlinghetti / que podia ela dizer

  
 
7
 
Que podia ela dizer ao ursinho maravilha
e que podia ela dizer ao seu irmão
e que podia ela dizer
                              ao tipo com os pés virados para o futuro
que podia ela dizer à mamã
depois daquela vez que se deitou tão tesa
                                                             entre as flores de rebuçado
               naquela soalheira margem de um rio
                         onde pendiam fetos no ar recortado
                                   da respiração do amante
          e os pássaros enlouqueceram
                                               e atiraram-se das árvores
  para provar ainda quentes no terreno
                                                      as sementes dispersas de esperma
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



05 março 2026

john ashbery / decisões loucas

  
Sempre resolvo as coisas de algum modo mas
Foste tu que descobriste para mim aquilo
De que eu gosto, lagos e pinturas.
 
De noite soltaram-se as amarras
Ao romper do dia tinham desaparecido.
Tudo o que fiz foi deixar a chaleira ferver.
A silhueta familiar
Evitou que eu pensasse nisso.
 
Ficam vestígios.
Não falta nada.
Tudo está em ordem então,
As casas claramente mais modestas,
E sempre assim por diante…
Uma vista do parque de estacionamento.
 
Algumas frequências
Ainda o não abandonaram.
Ainda podes encontrar esses prazeres algures
Em velhos estábulos. A resposta
Negativa do ouvinte não afogou
A coisa muito simples deste mundo
Que nos ensinaram a respeitar
À medida que crescíamos.
Uma vírgula no olho de Deus.
O efeito desejado.
 
 
 
john ashbery
uma onda e outros poemas
tradução colectiva / joão barrento
poetas em mateus
quetzal editores
1992





 

04 março 2026

john freeman / rua 28

  
 
Todos aqueles anos em que vivemos
nas traseiras da florista, quando era hábito acordar
cedo para me pôr à janela a ver
homens de camisolas vermelhas a empurrar
carrinhos de hidrângeas, paletes de tulipas
da Holanda, ranúnculos
rosa-velho, magotes de jacinto
amarelo, uma fúria de cor debaixo
de lâmpadas de halogéneo ainda antes
das seis. Os donos dos restaurantes com
os seus casacos de pele pretos que chegavam
antes da alvorada obrigados a assistir como
cortesãos à passagem da beleza, aguardando
que esta se aprontasse enquanto do outro lado
da rua, no parque de estacionamento, não era raro
haver alguém, nas calmas, a mijar.
 
 
 
john freeman
mapas
trad. miguel cardoso
tinta da china
2019
 


03 março 2026

henry deluy / hoje o mar está longe de ti


 

 

Hoje o mar está longe de ti.
Para sempre. – E desta colina.
Para sempre a um metro dos teus olhos.
 
                         *
 
O espanto poderia ser uma intimidade.
Longa vida, meu pai, junto do teu viver.
 
 
 
henry deluy
primeiras sequências
trad. colectiva mateus, set. out. de 2000
quetzal editores
2002




 

02 março 2026

pedro loureiro / incrível como resiste a escória

 


 

 
Incrível como resiste a escória
como cresce e se multiplica no breu
imune a sulfatos e humanismo
mantém-se inerte, encoberta,
disfarçando seu odor
através de mutações morfológicas
para reaparecer de novo
leve e perfumado
como peras tenras
uma outra face
de um mesmo prisma
decompondo e dispersando
a mesma luz enferma
em suas falsas cores
 
 
 
pedro loureiro
astigmatismo ou redenção
ilustrações inma serrano & josé louro
editora urutau
2019







01 março 2026

ibn al-a´lam ash-shantamari / a morte, dona de quem sente

  
a morte, dona de quem sente,
está entre ti e tudo quanto almejas
não a esqueças da alva ao sol poente
e que nos olhos da memória a vejas.
 
seja ela o bálsamo do teu olhar
nos momentos em que tu medites,
quando a alma de ti se afastar
e no derradeiro estertor te agites
 
 
 
ibn al-a´lam ash-shantamari
o meu coração é árabe - a poesia luso-árabe
tradução de adalberto alves
assírio & alvim
1999
 



 

28 fevereiro 2026

al berto / doze moradas de silêncio

  
7
 
tingir a ponta dos dedos e do sexo
na tinta permanente dos corpos… desejar-te
de olhos fechados sentado num jardim público
 
de vez em quando
sublinhar determinadas palavras que se confundem ao mel
escutar atentamente o latejar fogoso da terra… sentir
os escaravelhos enrolarem excrementos verdes
junto ao rumor imperceptível das casas desabitadas
 
ler apressadamente um jornal ou uma carta esquecida
escrever um bilhete postal:
 
                Cheguei bem. escrevo-te um dia destes
 
recolher folhas secas delgadas hastes quebradas
pedaços de musgo para uma insuspeita colecção
minúsculos lamentos escondidos pelos bichos
no jardim… perseguir um cão sem rumo que te recorda
 
 
 
al berto
doze moradas de silêncio 1978/1979
o medo
assírio & alvim
1997
 




27 fevereiro 2026

daniel faria / a criança fecha os olhos no muro

  
 
A criança fecha os olhos no muro
Conta o tempo que os amigos demoram
A transformar-se
 
Fecha os olhos no interior dos números
Olha para dentro e em redor e encontra-se
A si mesma
A criança pergunta se há-de ir ter consigo
 
Ela quer encontrar os amigos, ela quer
Que lhe respondam. Ela calcula a voz alta
A altura do muro, a progressão do silêncio
 
 
 
daniel faria
poesia
das inúmeras águas
quasi
2003




 

26 fevereiro 2026

fiama hasse pais brandão / ermo

  
 
Esta onda recua deixando-me
presa ao mar pelo cheiro das marés.
Sentir como um elemento natural
se junta a outro numa só imagem.
Correr pelo declive atrás dos pequenos rolos
de espuma infantil e subir
como que empurrada pela leveza.
Ter surpresa e terror
e ontologicamente transformá-los um dia
numa erma visão, essência do verso.
 
 
fiama hasse pais brandão
eremitério
obra breve, poesia reunida
assírio & alvim
2017



25 fevereiro 2026

fernando alves dos santos / irmão

  
De Espanha me chama meu irmão,
chamamento andaluz
que vem de Leão.
 
A voz aranha do meu quintal
se enleia esbelta
no frágil pardal.
 
Baixelas de prata da solidão
das margens do rio onde sou delta
e sou irmão.
 
 
 
fernando alves dos santos
diário flagrante [poesia]
edição perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
2005
 



24 fevereiro 2026

henrique risques pereira / o tempo passa rápido

  
 
O tempo passa rápido entre as coisas não esquecidas
e tudo volta ao sonho que está ao meu lado
sombra maligna que se espalha por galáxias distantes
estranhos espaços
cores esvoaçantes
tudo impreciso
suspenso
sem memória
sem vida.
 
 
 
henrique risques pereira
transparência do tempo
(poesia)
edição de perfecto e. cuadrado
quasi
2003




23 fevereiro 2026

fátima maldonado / nocturno

  
 
Quando ao adormecer
partimos à procura
da face dos antigos
amores sufocados
renascem provisórios,
como se vai à pesca
levando numa caixa a isca torturada
ou na boca a faca se transporta
antes de mergulhar à procura das ostras,
entre as pálpebras sustemos,
sem sombra de recuo
a fé de destrinçar por entre moribundos
os limos dos desejos, as folgas da tensão,
as faces dos amados.
É sempre em quartos baixos
de vidros sobre as portas
ao fundo de corredores
que se inclina a face por entre os nossos braços
e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,
os ternos nomes libertos dos esquifes,
os lázaros no fim sempre ressuscitados
a cabeça ao fazer o gesto do encontro
acorda o corpo vivo que se sente enganado
e vai para a cozinha remoendo ameaças
deitar da cafeteira o jorro reluzente.
 
 
 
fátima maldonado
os presságios
os encontros
editorial presença
1983
 




22 fevereiro 2026

álvaro de campos / quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?

  
 
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
 
Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, navio com máquina, navio com remos,
Navio com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
Esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente,
Só válida à emoção através da saudade futura,
Da saudade, esquecimento que se lembra,
Da saudade, engano que se deslembra da realidade,
Da saudade, remota sensação do incerto
Vago misterioso antepassado que fomos,
Renovação da vida antenatal, [...]
Absurdamente surgindo, estática e constelada
Do vácuo dinâmico do mundo.
 
Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento,
Que têm realidade na alma,
Que não são mitos, são a realidade
Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles
Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la...
Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.
Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou?
Para que hei-de ser sempre eu se eu não posso ser quem sou,
Mas isto tudo é como uma realidade longínqua
Daqueles que não partiram ou daqueles
Cujo lar é nenhum e de memória
Quando, navio [...], deixaremos o lar que não temos?
 
Navio, navio, vem!
Ó lugre, corveta, barca, vapor de carga, paquete,
Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira,
Navio de passageiros de todas as nações diversas,
Navio todos os navios,
Navio possibilidade de ir em todos navios
Indefinidamente, incoerentemente,
À busca de nada, À busca de não buscar,
À busca só de partir.
À busca só de não ser
À primeira morte possível ainda em vida —
O afastamento, a distância, a separar-nos de nós.
 
Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada...
Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
Do fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
Do olhar velado divino.
 
Navio quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem.
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!
 
28-10-1924
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




21 fevereiro 2026

joão miguel aragão / semente

  
 
Seja o verso
a luz que visita
algum desvão mais obscuro.
Seja, sob a pólvora, o pássaro
que segue o périplo do pólen,
na trincheira cava e descobre
a semente
que já a lama cobre.
 
 
 
joão miguel aragão
pacto
poética edições
2025




20 fevereiro 2026

izidro alves / identificação

  
 
As lágrimas
Foram o que de mais puro
Trouxe da infância
 
E a fisga
Para atirar ao céu
O mais obsceno.
 
 
 
izidro alves
cédula do mundo
labirinto
2025




19 fevereiro 2026

josé carlos barros / a música

  
 
De algumas músicas que há muitos anos
sobre todas as coisas verdadeiramente nos tocaram
dizemos mais tarde que «envelheceram mal»
como se elas tivessem mudado na sua estrutura
e nós permanecêssemos jovens.
 
 
 
josé carlos barros
o uso dos venenos
língua morta
2018
 




18 fevereiro 2026

josé tolentino mendonça / coisas da tristeza

  
Uma palavra uma casa e esse rastro
ardendo lentamente a solidão
Oh quem pudesse ainda reconhecer
a doce mãe do soldado
nas dispersas sombras das vigias
 
Colhesse a rapariga lilases como outrora
as crianças demandassem os terraços
ao peregrino assomo do pastor
e o seu canto acordasse trémulas luzes
quando recolhe o dia
 
Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque
 
 
 
josé tolentino mendonça
longe não sabia
presença
1997




 

17 fevereiro 2026

sebastião da gama / caravela perdida

 



 

 
Não sabe já, perdida caravela,
não sabe a minha voz o que demanda.
(Será talvez seu rumo andar perdida…)
Ainda bem, que assim não chega nunca:
a virgem ansiedade da partida
lhe anima a toda  a hora a vela panda.
 
Chegar? Pra quê, se era descer as velas
e era baixar o ferro, era parar?...
Antes errar, inciente de que lado
ficam agora as águas percorridas
e de que lado o Mar por navegar.
 
Caravela perdida, minha voz,
eia!, retumba o ar de teus acentos!
Pinta com tua cor todos os ventos!
Rompe!, vibra!, estremece! – Ah minha voz!,
e não quebres o ritmo, e não intentes
perguntar por que cantas, porque cantas.
 
 
 
sebastião da gama
cabo da boa esperança
ed. ática
1959
 



16 fevereiro 2026

adolfo casais monteiro / mas a vida continua

  
 
Amo a carícia das coisas
sem antegosto de inferno
nem sonhos de paraíso.
Amo o que dás, vida eterna!
Amo o que existe, sem remorso.
Se sofro, vida, bem sei
que não mentia o teu sorriso:
puseram grades nas fontes
– mas a vida continua!
 
 
 
adolfo casais monteiro
noite aberta aos quatro ventos (1943 e 1959)
poesias completas
imprensa nacional-casa da moeda
1993




 

15 fevereiro 2026

robin blaser / senta-te confortavelmente

 



 

 
senta-te confortavelmente
aqui junto a este lume de rosas
e escuta o canário da tua mente
agora depois
salta para o céu
quando rodar por aqui
mas refreia-o na tendêmcia
para morder coisas bravias,
agara-te bem ao frenesim
e cavalga-lhe os sussurros
bem, não esperavas que fosse tudo simpatia
no caminho para a casa do perigo,
pois não?
 
                                                29 de Janeiro de 2004
 
 
 
robin blaser
pullll lllllll
poesia contemporânea do canadá
trad. john havelda, isabel patim & manuel portela
antígona
2010
 
 
 
 


14 fevereiro 2026

marcos foz / enublado dizes

  
[…]
 
& fulmina-nos o que vem de fora
simples estados pontilham
o valado na curvatura dos crânios
exibem um rasto movediço alegram
nos enfim em trajo despreocupado;
alheios estão às nossas falhas aos
destroços da caravela do prometido
anseio engarrafado fora do
alcance da decomposição natural
neste mundo de bicos garras ciladas
mais justo afinal que o esfarelar
da prosa e o esgotamento em verso;
o quê quem pontas celestes por
resolver no relatório do não-suicidado:
as lanças darão floresta, um estandarte
o sol, e o céu – acampamento, inspirado
fôlego imprevisto – de empréstimo
em empréstimo, de fevereiro a fevereiro,
nozes espalhadas fazendo obséquio
longe do texto junto à corrente do reanimado
por entre pequenas mazelas empele amorenada
as falanges esforçadas no quebrar –
desanuviado gostaria de ser,
neste exacto ponto, não pela estaca;
pelo segredo da vida – estão a ver?
 
[…]
 
 
 
marcos foz
enublado dizes
edição do autor
2024
 




13 fevereiro 2026

eduarda chiote / o rapaz das rosas

  
 
1.
 
O poeta surgira das alvas rosas
pois, nelas, uma ardência
gelada
concentrava o purificado odor do ramo
calcinado – São para si: disse.
– Não faço anos, retorqui, surpreendida.
“Bem sei; mas as que lhe ofereço
não têm a volatilidade
da sua exaustão delicada.
São intemporais
e intocáveis”. Reparei que vestia uma túnica larga
por onde o magro corpo, íntimo e casto descia
até aos pés descalços de mistério e de baixa
entropia: pois e apenas
imaculado e híbrido, bondoso
me sorria; de modo que lhe perguntei
porque me escolheste: - Acaso para louvar até ao
fim a tua culposa santidade?
 
 
2.
 
Escuta: sou a embrionária e perene pele
da matéria primordial das
rubras rosas.
Podes tu, fogo, calcinar as faíscas
que nadam dentro
dos partos e cantos puros
da minha autenticidade
caótica? – Não me importo. Não me importo.
Acho-me em sincronia com a chuva
agreste e dura.
Serpentes engolem o seu veneno
e olhos sem pálpebras criam peixes
de mundos onde podemos ser
covardes e corajosos; simultaneamente
frágeis e fortes.
Paira, sob a solidão carente da empatia
o que persiste no
odor apiedado do dia
em que murcharam em mim todas as rosas.
Que o mundo acabe definitivamente
ou não, juro, não me importo.
Não me importo.
A ciência tenta comunicar algo que ninguém
Sabia antes; a poesia tenta
o contrário: Não há acordos entre
prosa e poesia.
 
 
3.
 
Suprema irrisão: somos macacos químicos,
íntimos de uma cultura grosseira, agreste
e assassina. Matamos deuses e Deus
por pura idiotice. Gastamos energias criativas
fornicando de cinco em cinco minutos.
Astuciosos e indiscretos, cultivamos
um apego ao sémen
idêntico aos pequenos lavores
que despontam nos botões das rubras rosas
e catamos no doce pêlo do animal
a sintonia entre o abismo da alma e o seu criminoso
requinte; de modo que me interrogo; – Quem
e o que somos neste contexto, agora?
– Ridículo, ter a “bomba operacional” passado de
moda: mil toneladas de dinamite
causarão daqui em diante adicionais catástrofes
de floridas rosas: e daí, repito, quem se
importa, interessa em saber, porque crescem as unhas
aos mortos e não desafina a eterna melodia
que da mais escura noite os mochos
forjam fabulosa e furtivamente;
a alva luz do dia e o mísero apelo ao
ao que justifica opostos.
 
 
4.
 
De novo apareceu atravessando
a preocupação da sua furtiva imagem,
mas eu reconheci-o com a precisão
de um relâmpago no vidro
da janela da casa onde vivo agora.
De um modo gentil
e quase familiar, entregou-me
um livro.
Para meu espanto, todas as páginas em branco.
Excepto a da dedicatória: “Para os que
nasceram sem identidade, mínima esperança
de entender que o inferno é capricho terreno
e paz a vingança.” Tudo me fora nesse
instante mais claro, oblíquo e resplandecente; e,
sobretudo, semelhante a si mesmo nos vestígios
de uma empatia que estoicamente suporta
o seu vazio.
 
 
5.
 
Numa perspetiva romântica
esqueço, não sei porquê, convenientemente
um espaço para construir jardins
aturdido por gigantescas flores de um apagar-lhe
as pegadas – confessou-me o rapaz – reduzindo-as a cinzas
e depois obrigadas a regenerarem-se
desadequadas e como se o Homem tivesse regressado
à fonte em chamas de “um marxismo
imaculado”, de fabulosa, extrema dor e saudade.
 
 
6.
 
A consciência começa com o olhar, talvez o de
atingir o alvo sobrenatural e invisível
do fogo fora do tempo, pela descida ao barro
dos oleiros divinos.
Benditas as mãos desfiguradas
da criança mimada e mimética, ensinada a apontar
a creditação do lugar onde o ovo deposita a
galinha.
 
 
7.
 
Conto.
Resumo.
Não vale a pena tentares,
leitor,
entender que dentro em pouco,
a imobilidade pode ficar totalmente presa
a miseráveis desinibições
de uma monotonia enjaulada e “por trás de
mundo nenhum.”
Desloca-me: o poema está
pronto.
 
 
8.
 
Esta compulsiva ganância de escrever que
inventas preciosa, esmerada e em aristocrática matriz
virginal de grande classe,
atrai a apropriação errada de grandes defesas
que ameaçam a tua infantil imprudência
e masculina menoridade.
– A quem tentas iludir ao fazeres passar
a incompetência por criatividade
inteligente? Repara: nem os rigores
das palavras te pertencem nem o talento.
E o pior de tudo é roubá-lo
a ti mesmo- – Quando começou a acção furtiva
de te enganares
a ponto de passares a não ser o oposto da verdade
que mente sempre?
Esta compulsiva ganância de escrever
pode até ser um diabólico amor pelo poder
pois quem o tem não o usa: inteligência,
ou pura estupidez de empatia?
 
 
9.
 
Era devastadora a fúria da tempestade,
marginalizando a casa isolada, ao extremo das
grades do terraço desabarem
descomunalmente; mas o rapaz entrara nela calmo.
Absoluto e paciente.
Como assassino de si mesmo.
– Só tenho um minuto minúsculo
mas queria, precisava, ver-te. E desatou a chorar.
– Podes, se quiseres, dizer-me quem és; acaso
um artista atormentado pelo que se passa em Gaza,
o abuso, a pornografia infantil e os mistérios sagrados
da desordem na luz que perdura, ainda assim, na cave
da carne?
– Sou, e apenas, aquele que consegue matar
as cabeças das cobras e o erro deslumbrante
dos espinhos das rosas
no seu incerto entendimento.
 
Aproximei-me do seu vulto.
 
Numa observação fortuita, reparei que dentro do caixão,
o rapaz chorava. Sem que uma pá removesse a terra
onde eu recentemente havia sido enterrada; eu e o
atormentado, dois desconhecidos, e talvez por isso lhe
entregara o melhor de uma competência autista
da linguagem;
de uma dor encomendada.
 
Antes de mais, os mortos falam por sinais práticos e
limpos: o caixão era modesto e parecia querer chamar
a atenção de que não vale a pena luxos
quando se decide ser cremado.
No meu cadáver
as pétalas das rosas choravam: profissionalmente pagas.
 
 
 
eduarda chiote
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de poesia
2026
 





12 fevereiro 2026

e e cummings / sê para o amor como chuva para cor

  
 
LXIII
 
sê para o amor como chuva para cor; cria
me gradualmente (ou como estes emergindo agora
montes inventam o ar)
                                         respira simplesmente cada meu como
meu tremer onde meu ainda invisível quando. Espera
 
se não sou coração, porque pelo menos bato
– pensa sempre que parti como um sol tem de ir
às vezes, para fazer uma terra alegremente parecer firme para ti:
lembra-te (como essas pérolas mais que rodeiam esta garganta)
 
uso teus mais caros medos para além da sua interrupção
 
(nem tem uma sílaba ávida turva do coração
enorme linguagem perda ou ganho de censura ou aplauso)
mas muitos pensamentos morrerão, não nascidos do sonho
enquanto asas acolhem o ano e árvores dançam (e se calhar
 
embora desejo e mundo se afundem, um poema flutuará
 
 
 
e. e. cummings
trad. ana hatherly
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990




11 fevereiro 2026

sarah kirsch / a cheia

  
Espelhos negros paisagens duplas beleza de cartas de jogar
A nuvem saúda a sua gémea, o céu um círculo.
Um tronco, cada árvore duas copas.
 
O teu corpo sou eu, tu sorris para ti.
 
 
 
sarah kirsch
trad. joão barrento
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990
 





10 fevereiro 2026

james tate / quando os nómadas chegam descendo o monte

  
 
Quando os nómadas chegam descendo o monte
nos camelos de palha
o anjo da alegria rasteja pelo imenso corredor
e os vegetais frescos na carroça abandonada
desabrocham em chamas azuis
velhos junto à fonte erguem-se
e dizem-se adeus
o brilho do sol é enxaguado na tinta mais negra
cobras dormem deitadas de costas
à volta do relógio de sol dourado
a noite enorme esconde-se nas pupilas do contador de histórias
e o vento é dividido
por uma agulha bem colocada
quando os nómadas chegam descendo o monte
com a sua linguagem invisível.
 
 
 
james tate
tradução de josé alberto oliveira
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001
 



09 fevereiro 2026

jeannette lozano / a tia jeannette

  
 
Ela lia as borras do café
e dava dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.
 
«Vejo tormenta», disse um dia.
Não sei se falava de mim.
 
A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.
 
Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.
 
Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta.
 
«Escreve tudo», disse-lhe, «escreve tudo o que vês.»
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua.
 
 
 
jeannette lozano
telhados de vidro nº. 19
maio de 2014
tradução de inês dias
averno
2014
 



08 fevereiro 2026

álvaro de campos / ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.

  
 
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha
Quero que sejam alegres à maneira deles.
Se o fossem à minha seriam tristes.
Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu.
Cada um no seu lugar e com a alegria dele
Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele.
Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter.
 
s.d.
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993





07 fevereiro 2026

diego doncel / o job dos estábulos

  
O burro do tio Satour tem gravado por cima dos olhos
um aviso espiritual: «Eu não sou o mais tolo»
E na verdade ao percorrer a cinza amarga dos campos,
ao sentir na sua alma o peso triste do planeta,
que é a medida de todas as coisas,
aprendeu o alfabeto da desolação,
um alfabeto feito de moscas e de pó.
 
Equilibrista dos pedregais, palhaço metafísico,
de tanto pensar na sua melancolia tornou-se nisto:
um castrado para o pensamento.
Como profeta de riso enigmático
as suas olheiras sujas denunciam o humor sem sentido das suas profecias,
esse andar por aí a fazer troça, com paradoxos ridículos,
daqueles que numa mansidão ignorante
não mudaram para si todo o saber.
– O excesso de inteligência – zurra às vezes satisfeito –
traz desordem ao esplendor da lua e do sol,
desmorona as montanhas, seca os rios e perturba
 a sucessão das estações.
 
Será por isso que ele, como um visionário sem salvação,
ficou lorpa e irónico, feito um tumulto
de ossos debaixo da sua pele ruiva de diabo.
A doçura fê-lo enlouquecer e deu-lhe uma infinita serenidade,
mesmo quando vai pelas ruelas a cabecear
ao sol cansado do entardecer e rumina divertido a ideia
de que o homem é um ser superior só porque faz o mal.
 
São muitos os motivos que tem para se revoltar
contra os deuses e contra os homens,
mas são mais as razões para apaziguar-se com as troças
que brilham no seu olhar escarninho e pavoroso e nas suas húmidas olheiras.
– A paz que não dura uma eternidade é um pesadelo – diz.
 
A sua alma é apenas um rascunho de alma, uma piada
dita por alguém para mover o cansaço deste enorme esqueleto.
Por isso a ironia é o disfarce de todo o seu cepticismo e de toda a sua desmemória,
a melhor arte para sobreviver entre imbecis.
 
Aí vai ele a rir-se de si mesmo por uma terra
oxidada de ervas secas, por uma terra
onde uma nuvem de insectos assola na sua neurose
a derradeira frescura da noite.
O seu riso é espectral, como o de um Job dos estábulos,
como o de um punhado de pó e de silêncio
que se divertisse por penetrar cada noite
no absurdo do mundo.
 
 
 
 
diego doncel
em nenhum paraíso
trad. joaquim manuel magalhães
averno
2007





 

06 fevereiro 2026

joaquim manuel magalhães / pelos caminhos da manhã

  
TERCEIRO
 
As sete estrelas da ursa maior
repousa nelas a cabeça crucificada.
No baixo céu do norte aonde gira
o orbe que faz de céu à terra
abre-se a grade para este escuro.
 
Entre o mar e o ar sombrias algas,
o dragão, as três donzelas
e a árvore com os frutos doiro.
 
1.
 
Os ruídos dormindo sobre a água
a luz vindo até o dia abrir
sobre os pássaros as casas e os olhos
numa travessia entre detritos.
O último lume da noite
a neblina das mãos
os sons cobertos dos bichos
das plantas voltando a respirar
das pedras onde a humidade seca.
Sob o signo do inimigo pode abandonar-se
este intermédio instante de que os astros fogem.
Perguntas aos homens por quem passas
pelas árvores cujos frutos vais colher
depois de vencido o seu dragão.
É uma fábula, um trabalho quimérico,
mas o abismo existe e terás de passa-lo.
A tristeza e a coragem fazem-te voltar
pelos piores terrenos desta terra
ao encontro do relâmpago mensageiro.
Tão depressa te mostra o procurado
não o decifras,
não resolves esta outra vez da tua vida.
Cego pela luz mortal duma estrela
perdendo-se para que outra nasça
o local que não vês é esses frutos.
 
 
2.
 
No lugar da escuridão procuras
a água de seda desses sóis
pequenos entre a folhagem vigiada,
vagueias como se norte e sul
fossem a mesma estrada.
Sobre ela caminha uma serpente.
Tinhas vencido a outra que no berço
tentara devorar-te, a do desejo
no teu corpo quase sem alma ainda.
Estende-te um dente luminoso
pronto a arrancar-te o rosto,
vai ensinar-te a morte, mestre menor
dos reinos dos sentidos. Esmaga-la
nos braços, ela foge, regressa,
espalha as escamas na poeira.
Feres-lhe os cerros com os paus agudos,
atira-te venenos aos rins ao baço,
tenta cativar essas correntes.
Se a ergueres no ar, se a cortares da terra
que lhe dá as seivas e as seduções,
as mudanças e as aparências,
esmagas-lhe a cabeça aos vários ventos,
passa o portal que o seu cuspe cerra,
atinges as outras perdições.
 
Os pólos opostos do espírito, os deuses da porta,
comparecem nas marítimas furnas do crepúsculo.
A mais escura linguagem compreende o mundo.
A lebre foge nas infindáveis lezírias
seguida pelo cão condutor dos espíritos.
Uma gota de sangue acende clarões na água,
cai ferida uma ave perseguida por condores
e ao enganoso inimigo do que vem
é consumido pelo fogo dos vulcões ocultos,
suas cinzas levadas para o limiar dos gelos.
Enganado, enlouquecido, perseguido
essa lebre é o coração do homem,
essa ave fulminada nos despenhadeiros.
 
As conhecidas coisas da razão
e as pela razão desconhecidas
vais pelos pequenos charcos da chuva
pensando ver o mar e o vento nos arbustos,
na matéria confundido, numa busca sem sentido.
As revelações pequenas, as meditações
os enganos do frágil pensamento
aos ritmos do dia vão lançando
nas superfícies do mundo encantamento.
Eu sei que é tenebroso o que é claro,
que de muito longe vêm evidências
e os ecos dos pássaros são sinais
onde a terra adormece, o sol repousa,
os regatos devoram as imundícies,
as cabras conduzem a humidade tensa das flores.
Mas nas tenções do mestre encontrarás
o brilho que desaparece
para que surja outro fulgor.
 
 
3.
 
O fogo tenta devagar subir na árvore.
A casa move-se. Vêem-se os seixos do rio.
Ouvem-se as lagartixas sobre os muros.
Vão tão alto os pássaros que são luz.
As ruínas da terra cobrem-se de musgo.
Nas manchas da resina correm chamas.
A pele coberta pelos poderes do sol,
o cabelo aberto pelos ácidos do mar,
a boca enegrecida pelas algas,
o outro jovem ensina-te no corpo
como o corpo diminui a sujeição.
As unhas dos seus dedos onde a carne
está pronta a tocar-te,
a conduzir a tua força mais secreta
pelos canais das pernas, pelos braços
a levar-te pela relva negra das lagoas,
pelos côncavos onde amam os escondidos.
Nessas cisternas de acabada água
cobrindo as vozes que nem vós ouvis
perdidos um no outro como no sangue o sangue,
a árvore sagrada é o seu corpo?
um dos frutos sua boca de pele plúmbea,
o outro seu dorso vergado de carícias,
o terceiro o lancinante vértice perdendo-se
do ar e da terra no mais líquido dos fogos?
A esse altar amarrado ouvias as lições
da confusão e do esquecimento.
Mas a lança interior dos outros mestres,
do que vinha nos relâmpagos, nos tornados,
nas cadeias dos homens construindo
a perecível história de que nasce o futuro,
redisseram-te como os frutos vogam
noutro ar mais alto, noutras mais ígneas raízes.
E partisse deixando as cicatrizes
que saberes secavam.
 
 
4.
 
Os cães devoram os vestígios.
Esta ceia de cinzas leva-nos
ao oceano dos números, das derrotas
onde as sombras de deus nos denuncia
o pavoroso fogo do amor. Nesse brazido
os uivos dos animais feridos,
as asas arrancadas, as guelras abertas,
as gargantas rasgadas por metais
sobem ao encontro dos fantasmas,
descem às lamas, aos estrumes,
a boca devora os excrementos,
alimenta a selva doméstica
de cactos, fungos e venenos.
Os cães regressam, escavam
túneis onde a carne repousa.
 
Pelo visco das lágrimas corriam
os abutres lacerando o fígado,
correntes ao granito esmagando os ossos:
salvaste do castigo ao que trouxera
aos homens o sinal da mudança
e viste-o no deserto que lutara
contra ocultações, opressões, terrores
em armas contra a morte encarcerado.
E paraste-o nos campos cultivados
para ajudar colheitas,
no centro das habitações dos homens
nos mecanismos corruptores
para transformar o pão diário e a coragem.
 
Um homem com um arco mata um lobo,
a seu lado um corvo vai voando.
O rei negro no seu trono negro
esmaga com os pés o ventre rubro
dum jovem deitado sobre um grão de areia.
Dá um som imenso pela névoa do mar,
as palmas das mãos dançam na água
entre as ferozes plantas e os limos.
As separações dos desígnios e do mundo
estão conciliadas. As duas colunas da desgraça
caem num imenso planalto
de chuvas de vinhas de flores.
As justas balanças não oscilam.
Os órgãos dançam esquecidos
num corpo solar que retriunfa.
 
5.
 
As mãos deles traziam-te as maçãs.
As primeiras estrelas aparecendo
enquanto o sol se põe,
os animais cobertos do último calor,
as plantas bebendo o primeiro escuro
vêm com eles entregar-te os frutos.
Os olhos apavorados do repouso tocam-te na testa.
A aranha voltou, o suco negro dos fungos.
De repente toda a árvore floriu, tão branca
entre a chuva, os distantes detritos, os trovões.
Eram esses o caminho.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
pelos caminhos da manhã
arcádia
1977
 



05 fevereiro 2026

maurice blanchot / sou egoísta?

  
 
Sou egoísta? Só alguns me imputam sentimentos, não sinto pena de ninguém, raramente desejo agradar, raramente desejo que me agradem. E eu, quase insensível ao que me diz respeito, sofro somente por eles, de tal forma que o seu menor desconforto se torna para mim uma dor sem fim. Todavia, se for necessário sacrifico-os deliberadamente, privo-os de qualquer sentimento de felicidade (chego a matá-los).
 
 
maurice blanchot
a loucura do dia
trad. ricardo ribeiro
sr teste edições
2021


04 fevereiro 2026

joão melo / o que fazer diante do fim



 

 
Quando o fim assomar
à tua frente
como um monstro
de sete cabeças, catorze línguas
e milhões de braços pavorosos
 
quando o fim ameaçar
levar-te na sua bocarra
escancarada e sem fundo
 
quando o fim te convencer
que o outro lado do espelho
é menos assustador do que aquilo que vês
 
– Resiste!
 
Não temos outro mundo
Para tornar mais humano…
 
 
 
joão melo
diário do medo
editora urutau
2021
 



 

03 fevereiro 2026

joão narciso / estes ventos negros


 

11.
 
Adormeceste.
 
A maré subiu.
 
O teu barco navegou à bolina.
 
Naufragaste.
 
Ao saíres dos sonhos, sentiste o arrepio de uma memória
falsa. A memória que o sonho te deixou.
 
Abraçavas a tua irmã. Ela teria uns quatro anos; tu eras
o velho que és hoje e estavas de joelhos, apoiado numa
perna.
 
A menina não percebia quem tu eras; sabias perfeitamente
a quem pertenciam aqueles caracóis que te faziam
comichão no queixo, aquele calor que reconhecias dos
anos que fugiam de ti e saíam de mansinho enquanto
os abraçavas. Sentiste uma alegria que há muito não
pairava nos teus sonhos. Disseste-lhe qualquer coisa
não sabes bem o quê.
 
Quando a largaste, a tua irmã era outra, então adulta,
então consciente da verdade, pronta para regressar a casa.
 
Começas a acordar. Tens saudades da tua irmã.
 
O mundo devia ser mais pequeno do que é.
 
Os mecanismos do tempo realinham-se.
 
As rodas dentadas beliscam-te o sono.
 
Abres os olhos.
 
Estás acordado.
 
 
 
joão narciso
estes ventos negros
edições caixa alta
2021