03 março 2026

henry deluy / hoje o mar está longe de ti


 

 

Hoje o mar está longe de ti.
Para sempre. – E desta colina.
Para sempre a um metro dos teus olhos.
 
                         *
 
O espanto poderia ser uma intimidade.
Longa vida, meu pai, junto do teu viver.
 
 
 
henry deluy
primeiras sequências
trad. colectiva mateus, set. out. de 2000
quetzal editores
2002




 

02 março 2026

pedro loureiro / incrível como resiste a escória

 


 

 
Incrível como resiste a escória
como cresce e se multiplica no breu
imune a sulfatos e humanismo
mantém-se inerte, encoberta,
disfarçando seu odor
através de mutações morfológicas
para reaparecer de novo
leve e perfumado
como peras tenras
uma outra face
de um mesmo prisma
decompondo e dispersando
a mesma luz enferma
em suas falsas cores
 
 
 
pedro loureiro
astigmatismo ou redenção
ilustrações inma serrano & josé louro
editora urutau
2019







01 março 2026

ibn al-a´lam ash-shantamari / a morte, dona de quem sente

  
a morte, dona de quem sente,
está entre ti e tudo quanto almejas
não a esqueças da alva ao sol poente
e que nos olhos da memória a vejas.
 
seja ela o bálsamo do teu olhar
nos momentos em que tu medites,
quando a alma de ti se afastar
e no derradeiro estertor te agites
 
 
 
ibn al-a´lam ash-shantamari
o meu coração é árabe - a poesia luso-árabe
tradução de adalberto alves
assírio & alvim
1999
 



 

28 fevereiro 2026

al berto / doze moradas de silêncio

  
7
 
tingir a ponta dos dedos e do sexo
na tinta permanente dos corpos… desejar-te
de olhos fechados sentado num jardim público
 
de vez em quando
sublinhar determinadas palavras que se confundem ao mel
escutar atentamente o latejar fogoso da terra… sentir
os escaravelhos enrolarem excrementos verdes
junto ao rumor imperceptível das casas desabitadas
 
ler apressadamente um jornal ou uma carta esquecida
escrever um bilhete postal:
 
                Cheguei bem. escrevo-te um dia destes
 
recolher folhas secas delgadas hastes quebradas
pedaços de musgo para uma insuspeita colecção
minúsculos lamentos escondidos pelos bichos
no jardim… perseguir um cão sem rumo que te recorda
 
 
 
al berto
doze moradas de silêncio 1978/1979
o medo
assírio & alvim
1997
 




27 fevereiro 2026

daniel faria / a criança fecha os olhos no muro

  
 
A criança fecha os olhos no muro
Conta o tempo que os amigos demoram
A transformar-se
 
Fecha os olhos no interior dos números
Olha para dentro e em redor e encontra-se
A si mesma
A criança pergunta se há-de ir ter consigo
 
Ela quer encontrar os amigos, ela quer
Que lhe respondam. Ela calcula a voz alta
A altura do muro, a progressão do silêncio
 
 
 
daniel faria
poesia
das inúmeras águas
quasi
2003




 

26 fevereiro 2026

fiama hasse pais brandão / ermo

  
 
Esta onda recua deixando-me
presa ao mar pelo cheiro das marés.
Sentir como um elemento natural
se junta a outro numa só imagem.
Correr pelo declive atrás dos pequenos rolos
de espuma infantil e subir
como que empurrada pela leveza.
Ter surpresa e terror
e ontologicamente transformá-los um dia
numa erma visão, essência do verso.
 
 
fiama hasse pais brandão
eremitério
obra breve, poesia reunida
assírio & alvim
2017



25 fevereiro 2026

fernando alves dos santos / irmão

  
De Espanha me chama meu irmão,
chamamento andaluz
que vem de Leão.
 
A voz aranha do meu quintal
se enleia esbelta
no frágil pardal.
 
Baixelas de prata da solidão
das margens do rio onde sou delta
e sou irmão.
 
 
 
fernando alves dos santos
diário flagrante [poesia]
edição perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
2005
 



24 fevereiro 2026

henrique risques pereira / o tempo passa rápido

  
 
O tempo passa rápido entre as coisas não esquecidas
e tudo volta ao sonho que está ao meu lado
sombra maligna que se espalha por galáxias distantes
estranhos espaços
cores esvoaçantes
tudo impreciso
suspenso
sem memória
sem vida.
 
 
 
henrique risques pereira
transparência do tempo
(poesia)
edição de perfecto e. cuadrado
quasi
2003




23 fevereiro 2026

fátima maldonado / nocturno

  
 
Quando ao adormecer
partimos à procura
da face dos antigos
amores sufocados
renascem provisórios,
como se vai à pesca
levando numa caixa a isca torturada
ou na boca a faca se transporta
antes de mergulhar à procura das ostras,
entre as pálpebras sustemos,
sem sombra de recuo
a fé de destrinçar por entre moribundos
os limos dos desejos, as folgas da tensão,
as faces dos amados.
É sempre em quartos baixos
de vidros sobre as portas
ao fundo de corredores
que se inclina a face por entre os nossos braços
e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,
os ternos nomes libertos dos esquifes,
os lázaros no fim sempre ressuscitados
a cabeça ao fazer o gesto do encontro
acorda o corpo vivo que se sente enganado
e vai para a cozinha remoendo ameaças
deitar da cafeteira o jorro reluzente.
 
 
 
fátima maldonado
os presságios
os encontros
editorial presença
1983
 




22 fevereiro 2026

álvaro de campos / quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?

  
 
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
 
Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, navio com máquina, navio com remos,
Navio com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
Esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente,
Só válida à emoção através da saudade futura,
Da saudade, esquecimento que se lembra,
Da saudade, engano que se deslembra da realidade,
Da saudade, remota sensação do incerto
Vago misterioso antepassado que fomos,
Renovação da vida antenatal, [...]
Absurdamente surgindo, estática e constelada
Do vácuo dinâmico do mundo.
 
Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento,
Que têm realidade na alma,
Que não são mitos, são a realidade
Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles
Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la...
Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.
Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou?
Para que hei-de ser sempre eu se eu não posso ser quem sou,
Mas isto tudo é como uma realidade longínqua
Daqueles que não partiram ou daqueles
Cujo lar é nenhum e de memória
Quando, navio [...], deixaremos o lar que não temos?
 
Navio, navio, vem!
Ó lugre, corveta, barca, vapor de carga, paquete,
Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira,
Navio de passageiros de todas as nações diversas,
Navio todos os navios,
Navio possibilidade de ir em todos navios
Indefinidamente, incoerentemente,
À busca de nada, À busca de não buscar,
À busca só de partir.
À busca só de não ser
À primeira morte possível ainda em vida —
O afastamento, a distância, a separar-nos de nós.
 
Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada...
Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
Do fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
Do olhar velado divino.
 
Navio quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem.
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!
 
28-10-1924
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




21 fevereiro 2026

joão miguel aragão / semente

  
 
Seja o verso
a luz que visita
algum desvão mais obscuro.
Seja, sob a pólvora, o pássaro
que segue o périplo do pólen,
na trincheira cava e descobre
a semente
que já a lama cobre.
 
 
 
joão miguel aragão
pacto
poética edições
2025




20 fevereiro 2026

izidro alves / identificação

  
 
As lágrimas
Foram o que de mais puro
Trouxe da infância
 
E a fisga
Para atirar ao céu
O mais obsceno.
 
 
 
izidro alves
cédula do mundo
labirinto
2025




19 fevereiro 2026

josé carlos barros / a música

  
 
De algumas músicas que há muitos anos
sobre todas as coisas verdadeiramente nos tocaram
dizemos mais tarde que «envelheceram mal»
como se elas tivessem mudado na sua estrutura
e nós permanecêssemos jovens.
 
 
 
josé carlos barros
o uso dos venenos
língua morta
2018
 




18 fevereiro 2026

josé tolentino mendonça / coisas da tristeza

  
Uma palavra uma casa e esse rastro
ardendo lentamente a solidão
Oh quem pudesse ainda reconhecer
a doce mãe do soldado
nas dispersas sombras das vigias
 
Colhesse a rapariga lilases como outrora
as crianças demandassem os terraços
ao peregrino assomo do pastor
e o seu canto acordasse trémulas luzes
quando recolhe o dia
 
Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque
 
 
 
josé tolentino mendonça
longe não sabia
presença
1997




 

17 fevereiro 2026

sebastião da gama / caravela perdida

 



 

 
Não sabe já, perdida caravela,
não sabe a minha voz o que demanda.
(Será talvez seu rumo andar perdida…)
Ainda bem, que assim não chega nunca:
a virgem ansiedade da partida
lhe anima a toda  a hora a vela panda.
 
Chegar? Pra quê, se era descer as velas
e era baixar o ferro, era parar?...
Antes errar, inciente de que lado
ficam agora as águas percorridas
e de que lado o Mar por navegar.
 
Caravela perdida, minha voz,
eia!, retumba o ar de teus acentos!
Pinta com tua cor todos os ventos!
Rompe!, vibra!, estremece! – Ah minha voz!,
e não quebres o ritmo, e não intentes
perguntar por que cantas, porque cantas.
 
 
 
sebastião da gama
cabo da boa esperança
ed. ática
1959
 



16 fevereiro 2026

adolfo casais monteiro / mas a vida continua

  
 
Amo a carícia das coisas
sem antegosto de inferno
nem sonhos de paraíso.
Amo o que dás, vida eterna!
Amo o que existe, sem remorso.
Se sofro, vida, bem sei
que não mentia o teu sorriso:
puseram grades nas fontes
– mas a vida continua!
 
 
 
adolfo casais monteiro
noite aberta aos quatro ventos (1943 e 1959)
poesias completas
imprensa nacional-casa da moeda
1993




 

15 fevereiro 2026

robin blaser / senta-te confortavelmente

 



 

 
senta-te confortavelmente
aqui junto a este lume de rosas
e escuta o canário da tua mente
agora depois
salta para o céu
quando rodar por aqui
mas refreia-o na tendêmcia
para morder coisas bravias,
agara-te bem ao frenesim
e cavalga-lhe os sussurros
bem, não esperavas que fosse tudo simpatia
no caminho para a casa do perigo,
pois não?
 
                                                29 de Janeiro de 2004
 
 
 
robin blaser
pullll lllllll
poesia contemporânea do canadá
trad. john havelda, isabel patim & manuel portela
antígona
2010
 
 
 
 


14 fevereiro 2026

marcos foz / enublado dizes

  
[…]
 
& fulmina-nos o que vem de fora
simples estados pontilham
o valado na curvatura dos crânios
exibem um rasto movediço alegram
nos enfim em trajo despreocupado;
alheios estão às nossas falhas aos
destroços da caravela do prometido
anseio engarrafado fora do
alcance da decomposição natural
neste mundo de bicos garras ciladas
mais justo afinal que o esfarelar
da prosa e o esgotamento em verso;
o quê quem pontas celestes por
resolver no relatório do não-suicidado:
as lanças darão floresta, um estandarte
o sol, e o céu – acampamento, inspirado
fôlego imprevisto – de empréstimo
em empréstimo, de fevereiro a fevereiro,
nozes espalhadas fazendo obséquio
longe do texto junto à corrente do reanimado
por entre pequenas mazelas empele amorenada
as falanges esforçadas no quebrar –
desanuviado gostaria de ser,
neste exacto ponto, não pela estaca;
pelo segredo da vida – estão a ver?
 
[…]
 
 
 
marcos foz
enublado dizes
edição do autor
2024
 




13 fevereiro 2026

eduarda chiote / o rapaz das rosas

  
 
1.
 
O poeta surgira das alvas rosas
pois, nelas, uma ardência
gelada
concentrava o purificado odor do ramo
calcinado – São para si: disse.
– Não faço anos, retorqui, surpreendida.
“Bem sei; mas as que lhe ofereço
não têm a volatilidade
da sua exaustão delicada.
São intemporais
e intocáveis”. Reparei que vestia uma túnica larga
por onde o magro corpo, íntimo e casto descia
até aos pés descalços de mistério e de baixa
entropia: pois e apenas
imaculado e híbrido, bondoso
me sorria; de modo que lhe perguntei
porque me escolheste: - Acaso para louvar até ao
fim a tua culposa santidade?
 
 
2.
 
Escuta: sou a embrionária e perene pele
da matéria primordial das
rubras rosas.
Podes tu, fogo, calcinar as faíscas
que nadam dentro
dos partos e cantos puros
da minha autenticidade
caótica? – Não me importo. Não me importo.
Acho-me em sincronia com a chuva
agreste e dura.
Serpentes engolem o seu veneno
e olhos sem pálpebras criam peixes
de mundos onde podemos ser
covardes e corajosos; simultaneamente
frágeis e fortes.
Paira, sob a solidão carente da empatia
o que persiste no
odor apiedado do dia
em que murcharam em mim todas as rosas.
Que o mundo acabe definitivamente
ou não, juro, não me importo.
Não me importo.
A ciência tenta comunicar algo que ninguém
Sabia antes; a poesia tenta
o contrário: Não há acordos entre
prosa e poesia.
 
 
3.
 
Suprema irrisão: somos macacos químicos,
íntimos de uma cultura grosseira, agreste
e assassina. Matamos deuses e Deus
por pura idiotice. Gastamos energias criativas
fornicando de cinco em cinco minutos.
Astuciosos e indiscretos, cultivamos
um apego ao sémen
idêntico aos pequenos lavores
que despontam nos botões das rubras rosas
e catamos no doce pêlo do animal
a sintonia entre o abismo da alma e o seu criminoso
requinte; de modo que me interrogo; – Quem
e o que somos neste contexto, agora?
– Ridículo, ter a “bomba operacional” passado de
moda: mil toneladas de dinamite
causarão daqui em diante adicionais catástrofes
de floridas rosas: e daí, repito, quem se
importa, interessa em saber, porque crescem as unhas
aos mortos e não desafina a eterna melodia
que da mais escura noite os mochos
forjam fabulosa e furtivamente;
a alva luz do dia e o mísero apelo ao
ao que justifica opostos.
 
 
4.
 
De novo apareceu atravessando
a preocupação da sua furtiva imagem,
mas eu reconheci-o com a precisão
de um relâmpago no vidro
da janela da casa onde vivo agora.
De um modo gentil
e quase familiar, entregou-me
um livro.
Para meu espanto, todas as páginas em branco.
Excepto a da dedicatória: “Para os que
nasceram sem identidade, mínima esperança
de entender que o inferno é capricho terreno
e paz a vingança.” Tudo me fora nesse
instante mais claro, oblíquo e resplandecente; e,
sobretudo, semelhante a si mesmo nos vestígios
de uma empatia que estoicamente suporta
o seu vazio.
 
 
5.
 
Numa perspetiva romântica
esqueço, não sei porquê, convenientemente
um espaço para construir jardins
aturdido por gigantescas flores de um apagar-lhe
as pegadas – confessou-me o rapaz – reduzindo-as a cinzas
e depois obrigadas a regenerarem-se
desadequadas e como se o Homem tivesse regressado
à fonte em chamas de “um marxismo
imaculado”, de fabulosa, extrema dor e saudade.
 
 
6.
 
A consciência começa com o olhar, talvez o de
atingir o alvo sobrenatural e invisível
do fogo fora do tempo, pela descida ao barro
dos oleiros divinos.
Benditas as mãos desfiguradas
da criança mimada e mimética, ensinada a apontar
a creditação do lugar onde o ovo deposita a
galinha.
 
 
7.
 
Conto.
Resumo.
Não vale a pena tentares,
leitor,
entender que dentro em pouco,
a imobilidade pode ficar totalmente presa
a miseráveis desinibições
de uma monotonia enjaulada e “por trás de
mundo nenhum.”
Desloca-me: o poema está
pronto.
 
 
8.
 
Esta compulsiva ganância de escrever que
inventas preciosa, esmerada e em aristocrática matriz
virginal de grande classe,
atrai a apropriação errada de grandes defesas
que ameaçam a tua infantil imprudência
e masculina menoridade.
– A quem tentas iludir ao fazeres passar
a incompetência por criatividade
inteligente? Repara: nem os rigores
das palavras te pertencem nem o talento.
E o pior de tudo é roubá-lo
a ti mesmo- – Quando começou a acção furtiva
de te enganares
a ponto de passares a não ser o oposto da verdade
que mente sempre?
Esta compulsiva ganância de escrever
pode até ser um diabólico amor pelo poder
pois quem o tem não o usa: inteligência,
ou pura estupidez de empatia?
 
 
9.
 
Era devastadora a fúria da tempestade,
marginalizando a casa isolada, ao extremo das
grades do terraço desabarem
descomunalmente; mas o rapaz entrara nela calmo.
Absoluto e paciente.
Como assassino de si mesmo.
– Só tenho um minuto minúsculo
mas queria, precisava, ver-te. E desatou a chorar.
– Podes, se quiseres, dizer-me quem és; acaso
um artista atormentado pelo que se passa em Gaza,
o abuso, a pornografia infantil e os mistérios sagrados
da desordem na luz que perdura, ainda assim, na cave
da carne?
– Sou, e apenas, aquele que consegue matar
as cabeças das cobras e o erro deslumbrante
dos espinhos das rosas
no seu incerto entendimento.
 
Aproximei-me do seu vulto.
 
Numa observação fortuita, reparei que dentro do caixão,
o rapaz chorava. Sem que uma pá removesse a terra
onde eu recentemente havia sido enterrada; eu e o
atormentado, dois desconhecidos, e talvez por isso lhe
entregara o melhor de uma competência autista
da linguagem;
de uma dor encomendada.
 
Antes de mais, os mortos falam por sinais práticos e
limpos: o caixão era modesto e parecia querer chamar
a atenção de que não vale a pena luxos
quando se decide ser cremado.
No meu cadáver
as pétalas das rosas choravam: profissionalmente pagas.
 
 
 
eduarda chiote
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de poesia
2026
 





12 fevereiro 2026

e e cummings / sê para o amor como chuva para cor

  
 
LXIII
 
sê para o amor como chuva para cor; cria
me gradualmente (ou como estes emergindo agora
montes inventam o ar)
                                         respira simplesmente cada meu como
meu tremer onde meu ainda invisível quando. Espera
 
se não sou coração, porque pelo menos bato
– pensa sempre que parti como um sol tem de ir
às vezes, para fazer uma terra alegremente parecer firme para ti:
lembra-te (como essas pérolas mais que rodeiam esta garganta)
 
uso teus mais caros medos para além da sua interrupção
 
(nem tem uma sílaba ávida turva do coração
enorme linguagem perda ou ganho de censura ou aplauso)
mas muitos pensamentos morrerão, não nascidos do sonho
enquanto asas acolhem o ano e árvores dançam (e se calhar
 
embora desejo e mundo se afundem, um poema flutuará
 
 
 
e. e. cummings
trad. ana hatherly
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990




11 fevereiro 2026

sarah kirsch / a cheia

  
Espelhos negros paisagens duplas beleza de cartas de jogar
A nuvem saúda a sua gémea, o céu um círculo.
Um tronco, cada árvore duas copas.
 
O teu corpo sou eu, tu sorris para ti.
 
 
 
sarah kirsch
trad. joão barrento
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990
 





10 fevereiro 2026

james tate / quando os nómadas chegam descendo o monte

  
 
Quando os nómadas chegam descendo o monte
nos camelos de palha
o anjo da alegria rasteja pelo imenso corredor
e os vegetais frescos na carroça abandonada
desabrocham em chamas azuis
velhos junto à fonte erguem-se
e dizem-se adeus
o brilho do sol é enxaguado na tinta mais negra
cobras dormem deitadas de costas
à volta do relógio de sol dourado
a noite enorme esconde-se nas pupilas do contador de histórias
e o vento é dividido
por uma agulha bem colocada
quando os nómadas chegam descendo o monte
com a sua linguagem invisível.
 
 
 
james tate
tradução de josé alberto oliveira
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001
 



09 fevereiro 2026

jeannette lozano / a tia jeannette

  
 
Ela lia as borras do café
e dava dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.
 
«Vejo tormenta», disse um dia.
Não sei se falava de mim.
 
A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.
 
Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.
 
Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta.
 
«Escreve tudo», disse-lhe, «escreve tudo o que vês.»
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua.
 
 
 
jeannette lozano
telhados de vidro nº. 19
maio de 2014
tradução de inês dias
averno
2014
 



08 fevereiro 2026

álvaro de campos / ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.

  
 
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha
Quero que sejam alegres à maneira deles.
Se o fossem à minha seriam tristes.
Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu.
Cada um no seu lugar e com a alegria dele
Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele.
Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter.
 
s.d.
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993





07 fevereiro 2026

diego doncel / o job dos estábulos

  
O burro do tio Satour tem gravado por cima dos olhos
um aviso espiritual: «Eu não sou o mais tolo»
E na verdade ao percorrer a cinza amarga dos campos,
ao sentir na sua alma o peso triste do planeta,
que é a medida de todas as coisas,
aprendeu o alfabeto da desolação,
um alfabeto feito de moscas e de pó.
 
Equilibrista dos pedregais, palhaço metafísico,
de tanto pensar na sua melancolia tornou-se nisto:
um castrado para o pensamento.
Como profeta de riso enigmático
as suas olheiras sujas denunciam o humor sem sentido das suas profecias,
esse andar por aí a fazer troça, com paradoxos ridículos,
daqueles que numa mansidão ignorante
não mudaram para si todo o saber.
– O excesso de inteligência – zurra às vezes satisfeito –
traz desordem ao esplendor da lua e do sol,
desmorona as montanhas, seca os rios e perturba
 a sucessão das estações.
 
Será por isso que ele, como um visionário sem salvação,
ficou lorpa e irónico, feito um tumulto
de ossos debaixo da sua pele ruiva de diabo.
A doçura fê-lo enlouquecer e deu-lhe uma infinita serenidade,
mesmo quando vai pelas ruelas a cabecear
ao sol cansado do entardecer e rumina divertido a ideia
de que o homem é um ser superior só porque faz o mal.
 
São muitos os motivos que tem para se revoltar
contra os deuses e contra os homens,
mas são mais as razões para apaziguar-se com as troças
que brilham no seu olhar escarninho e pavoroso e nas suas húmidas olheiras.
– A paz que não dura uma eternidade é um pesadelo – diz.
 
A sua alma é apenas um rascunho de alma, uma piada
dita por alguém para mover o cansaço deste enorme esqueleto.
Por isso a ironia é o disfarce de todo o seu cepticismo e de toda a sua desmemória,
a melhor arte para sobreviver entre imbecis.
 
Aí vai ele a rir-se de si mesmo por uma terra
oxidada de ervas secas, por uma terra
onde uma nuvem de insectos assola na sua neurose
a derradeira frescura da noite.
O seu riso é espectral, como o de um Job dos estábulos,
como o de um punhado de pó e de silêncio
que se divertisse por penetrar cada noite
no absurdo do mundo.
 
 
 
 
diego doncel
em nenhum paraíso
trad. joaquim manuel magalhães
averno
2007





 

06 fevereiro 2026

joaquim manuel magalhães / pelos caminhos da manhã

  
TERCEIRO
 
As sete estrelas da ursa maior
repousa nelas a cabeça crucificada.
No baixo céu do norte aonde gira
o orbe que faz de céu à terra
abre-se a grade para este escuro.
 
Entre o mar e o ar sombrias algas,
o dragão, as três donzelas
e a árvore com os frutos doiro.
 
1.
 
Os ruídos dormindo sobre a água
a luz vindo até o dia abrir
sobre os pássaros as casas e os olhos
numa travessia entre detritos.
O último lume da noite
a neblina das mãos
os sons cobertos dos bichos
das plantas voltando a respirar
das pedras onde a humidade seca.
Sob o signo do inimigo pode abandonar-se
este intermédio instante de que os astros fogem.
Perguntas aos homens por quem passas
pelas árvores cujos frutos vais colher
depois de vencido o seu dragão.
É uma fábula, um trabalho quimérico,
mas o abismo existe e terás de passa-lo.
A tristeza e a coragem fazem-te voltar
pelos piores terrenos desta terra
ao encontro do relâmpago mensageiro.
Tão depressa te mostra o procurado
não o decifras,
não resolves esta outra vez da tua vida.
Cego pela luz mortal duma estrela
perdendo-se para que outra nasça
o local que não vês é esses frutos.
 
 
2.
 
No lugar da escuridão procuras
a água de seda desses sóis
pequenos entre a folhagem vigiada,
vagueias como se norte e sul
fossem a mesma estrada.
Sobre ela caminha uma serpente.
Tinhas vencido a outra que no berço
tentara devorar-te, a do desejo
no teu corpo quase sem alma ainda.
Estende-te um dente luminoso
pronto a arrancar-te o rosto,
vai ensinar-te a morte, mestre menor
dos reinos dos sentidos. Esmaga-la
nos braços, ela foge, regressa,
espalha as escamas na poeira.
Feres-lhe os cerros com os paus agudos,
atira-te venenos aos rins ao baço,
tenta cativar essas correntes.
Se a ergueres no ar, se a cortares da terra
que lhe dá as seivas e as seduções,
as mudanças e as aparências,
esmagas-lhe a cabeça aos vários ventos,
passa o portal que o seu cuspe cerra,
atinges as outras perdições.
 
Os pólos opostos do espírito, os deuses da porta,
comparecem nas marítimas furnas do crepúsculo.
A mais escura linguagem compreende o mundo.
A lebre foge nas infindáveis lezírias
seguida pelo cão condutor dos espíritos.
Uma gota de sangue acende clarões na água,
cai ferida uma ave perseguida por condores
e ao enganoso inimigo do que vem
é consumido pelo fogo dos vulcões ocultos,
suas cinzas levadas para o limiar dos gelos.
Enganado, enlouquecido, perseguido
essa lebre é o coração do homem,
essa ave fulminada nos despenhadeiros.
 
As conhecidas coisas da razão
e as pela razão desconhecidas
vais pelos pequenos charcos da chuva
pensando ver o mar e o vento nos arbustos,
na matéria confundido, numa busca sem sentido.
As revelações pequenas, as meditações
os enganos do frágil pensamento
aos ritmos do dia vão lançando
nas superfícies do mundo encantamento.
Eu sei que é tenebroso o que é claro,
que de muito longe vêm evidências
e os ecos dos pássaros são sinais
onde a terra adormece, o sol repousa,
os regatos devoram as imundícies,
as cabras conduzem a humidade tensa das flores.
Mas nas tenções do mestre encontrarás
o brilho que desaparece
para que surja outro fulgor.
 
 
3.
 
O fogo tenta devagar subir na árvore.
A casa move-se. Vêem-se os seixos do rio.
Ouvem-se as lagartixas sobre os muros.
Vão tão alto os pássaros que são luz.
As ruínas da terra cobrem-se de musgo.
Nas manchas da resina correm chamas.
A pele coberta pelos poderes do sol,
o cabelo aberto pelos ácidos do mar,
a boca enegrecida pelas algas,
o outro jovem ensina-te no corpo
como o corpo diminui a sujeição.
As unhas dos seus dedos onde a carne
está pronta a tocar-te,
a conduzir a tua força mais secreta
pelos canais das pernas, pelos braços
a levar-te pela relva negra das lagoas,
pelos côncavos onde amam os escondidos.
Nessas cisternas de acabada água
cobrindo as vozes que nem vós ouvis
perdidos um no outro como no sangue o sangue,
a árvore sagrada é o seu corpo?
um dos frutos sua boca de pele plúmbea,
o outro seu dorso vergado de carícias,
o terceiro o lancinante vértice perdendo-se
do ar e da terra no mais líquido dos fogos?
A esse altar amarrado ouvias as lições
da confusão e do esquecimento.
Mas a lança interior dos outros mestres,
do que vinha nos relâmpagos, nos tornados,
nas cadeias dos homens construindo
a perecível história de que nasce o futuro,
redisseram-te como os frutos vogam
noutro ar mais alto, noutras mais ígneas raízes.
E partisse deixando as cicatrizes
que saberes secavam.
 
 
4.
 
Os cães devoram os vestígios.
Esta ceia de cinzas leva-nos
ao oceano dos números, das derrotas
onde as sombras de deus nos denuncia
o pavoroso fogo do amor. Nesse brazido
os uivos dos animais feridos,
as asas arrancadas, as guelras abertas,
as gargantas rasgadas por metais
sobem ao encontro dos fantasmas,
descem às lamas, aos estrumes,
a boca devora os excrementos,
alimenta a selva doméstica
de cactos, fungos e venenos.
Os cães regressam, escavam
túneis onde a carne repousa.
 
Pelo visco das lágrimas corriam
os abutres lacerando o fígado,
correntes ao granito esmagando os ossos:
salvaste do castigo ao que trouxera
aos homens o sinal da mudança
e viste-o no deserto que lutara
contra ocultações, opressões, terrores
em armas contra a morte encarcerado.
E paraste-o nos campos cultivados
para ajudar colheitas,
no centro das habitações dos homens
nos mecanismos corruptores
para transformar o pão diário e a coragem.
 
Um homem com um arco mata um lobo,
a seu lado um corvo vai voando.
O rei negro no seu trono negro
esmaga com os pés o ventre rubro
dum jovem deitado sobre um grão de areia.
Dá um som imenso pela névoa do mar,
as palmas das mãos dançam na água
entre as ferozes plantas e os limos.
As separações dos desígnios e do mundo
estão conciliadas. As duas colunas da desgraça
caem num imenso planalto
de chuvas de vinhas de flores.
As justas balanças não oscilam.
Os órgãos dançam esquecidos
num corpo solar que retriunfa.
 
5.
 
As mãos deles traziam-te as maçãs.
As primeiras estrelas aparecendo
enquanto o sol se põe,
os animais cobertos do último calor,
as plantas bebendo o primeiro escuro
vêm com eles entregar-te os frutos.
Os olhos apavorados do repouso tocam-te na testa.
A aranha voltou, o suco negro dos fungos.
De repente toda a árvore floriu, tão branca
entre a chuva, os distantes detritos, os trovões.
Eram esses o caminho.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
pelos caminhos da manhã
arcádia
1977
 



05 fevereiro 2026

maurice blanchot / sou egoísta?

  
 
Sou egoísta? Só alguns me imputam sentimentos, não sinto pena de ninguém, raramente desejo agradar, raramente desejo que me agradem. E eu, quase insensível ao que me diz respeito, sofro somente por eles, de tal forma que o seu menor desconforto se torna para mim uma dor sem fim. Todavia, se for necessário sacrifico-os deliberadamente, privo-os de qualquer sentimento de felicidade (chego a matá-los).
 
 
maurice blanchot
a loucura do dia
trad. ricardo ribeiro
sr teste edições
2021


04 fevereiro 2026

joão melo / o que fazer diante do fim



 

 
Quando o fim assomar
à tua frente
como um monstro
de sete cabeças, catorze línguas
e milhões de braços pavorosos
 
quando o fim ameaçar
levar-te na sua bocarra
escancarada e sem fundo
 
quando o fim te convencer
que o outro lado do espelho
é menos assustador do que aquilo que vês
 
– Resiste!
 
Não temos outro mundo
Para tornar mais humano…
 
 
 
joão melo
diário do medo
editora urutau
2021
 



 

03 fevereiro 2026

joão narciso / estes ventos negros


 

11.
 
Adormeceste.
 
A maré subiu.
 
O teu barco navegou à bolina.
 
Naufragaste.
 
Ao saíres dos sonhos, sentiste o arrepio de uma memória
falsa. A memória que o sonho te deixou.
 
Abraçavas a tua irmã. Ela teria uns quatro anos; tu eras
o velho que és hoje e estavas de joelhos, apoiado numa
perna.
 
A menina não percebia quem tu eras; sabias perfeitamente
a quem pertenciam aqueles caracóis que te faziam
comichão no queixo, aquele calor que reconhecias dos
anos que fugiam de ti e saíam de mansinho enquanto
os abraçavas. Sentiste uma alegria que há muito não
pairava nos teus sonhos. Disseste-lhe qualquer coisa
não sabes bem o quê.
 
Quando a largaste, a tua irmã era outra, então adulta,
então consciente da verdade, pronta para regressar a casa.
 
Começas a acordar. Tens saudades da tua irmã.
 
O mundo devia ser mais pequeno do que é.
 
Os mecanismos do tempo realinham-se.
 
As rodas dentadas beliscam-te o sono.
 
Abres os olhos.
 
Estás acordado.
 
 
 
joão narciso
estes ventos negros
edições caixa alta
2021
 



 

02 fevereiro 2026

billy collins / o aprendiz

  
 
O meu livro e ensinamentos poéticos,
comprado numa banca ao ar livre junto ao rio,
 
apresenta muitas regras
sobre o que escrever e não escrever.
 
Mais do que duas pessoas num poema
é uma multidão, é uma.
 
Falar na roupa que sem vestida
quando se escreve, é outra.
 
Fugir de palavras como vórtice,
aveludado e cigarra.
 
Quando não souber como acabar,
ponha umas galinhas castanhas à chuva.
 
Nunca admita que faz correcções.
E mantenha sempre o poema numa só estação.
 
Procuro tê-las presentes
mas, nestes últimos dias de verão,
 
sempre que ergo os olhos da minha página
e vejo uma mancha seca de folhas amarelas,
 
penso nos ventos gélidos
que em breve golpearão o meu casaco.
 
 
 
billy collins
a aranha irlandesa & outros poemas,
trad. francisco José craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2023





01 fevereiro 2026

bernardo soares / a loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia...

  
A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.
 
Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los.
Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto numa manhã de rosas, com Março nas nuvens brancas e o sorriso das virgens nas quintas afastadas. Tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse então [...] e o som da água acompanhe tudo isto como um entardecer ao pé de margens, e o rio, sem sentido salvo correr, eterno, para marés longínquas. O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano. Assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.
 
(Meu destino é a decadência.)
 
Meu destino foi outrora em vales fundos. O som de águas que nunca sentiram sangue rega o modo dos meus sonhos. O copado das árvores que esquece a vida era verde sempre nos nossos esquecimentos. A Lua era fluida como água entre pedras. O amor nunca veio àquele vale e por isso tudo ali era feliz. Nem sonho, nem amor, nem deuses em templo, passando entre a brisa e a hora [...]
s.d.
 
 
 
fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
presença
1990



31 janeiro 2026

mary oliver / à excepção do corpo



 

 
À excepção do corpo
de alguém que amas,
incluindo todas as suas expressões
em privado e em público,
 
as árvores, penso,
são as mais belas
formas sobre a Terra.
 
Ainda que, admitamos,
se isto fosse um concurso,
as árvores acabariam num
muitíssimo distante segundo lugar.
 
 
 
mary oliver
felicidade
tradução luís matos
flâneur
2021
 




 

30 janeiro 2026

alejandro simón partal / apenas o que é justo

 



Peço aos dias que abandonem
a sua acuidade sensível
e retomem o árduo labor diário.
 
Que se orientem a partir do que está certo:
 
 
um sol nascente
                e um sol poente;
 
uma neve branca
                e uma água cristalina a seguir.
 
 
 
alejandro simón partal
tradução regina guimarães
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de poesia
2026



29 janeiro 2026

josé mário silva / castelo do bode

  
 
Naquele verão fomos uma espécie de tribo.
À tarde, quando o sol ardia, a barragem era
o mundo inteiro feito de água, havia uma
jangada que avançava, lenta, por entre os
limos e nós éramos náufragos. Naquele verão
fizemos equipas e gincanas, bebi 12 colheres
de óleo de fígado de bacalhau – umas atrás
das outras – e apaixonei-me secretamente
por uma monitora que lia romances de
espionagem e passava tardes na esplanada a
beber ginger ale. Naquele verão as raparigas
ficaram belas e enigmáticas, assim de repente.
Dormiam nas tendas delas e nós, nas nossas,
adivinhávamos histórias para os sons da noite.
Naquele verão as coisas ficaram mais nítidas
E aprendemos que a adolescência é um território
confuso, um país a atravessas sem mapa de estradas.
 
 
 
josé mário silva
apeadeiro
revista de atitudes literárias
nr. 1 primavera 2001
quasi
2001
 


28 janeiro 2026

gemma gorga / livro dos minutos

  
 
12
 
Quando o despertador toca, quem primeiro abre os olhos são as palavras, uns olhos intensos através dos quais Deus nos espia. Depois abrem-se portas interiores, corredores estreitos por onde a luz matinal avança como um rio de água fresca. A ordem é ligeiramente mutável: agora não saberia precisar se se abrem primeiro as pétalas ou os sinos, se se abre primeiro o meu amor por ti ou o teu amor por mim, a doce sincronia do despertar a dois. Tudo o que é vivo acaba por se abrir, como um pressentimento: as laranjas sobre o mármore, a cor sobre a matéria, a borboleta sobre o perfil, a rosa sobre o pescoço, o corpo sobre o corpo. Para quê falar do futuro? O amor não é uma linha recta traçada a lápis sobre o calendário: nem ir, nem chegar, nem avançar. Simplesmente abrirmo-nos em círculos delicados, tu a padra, eu a água.
 
 
 
gemma gorga
livro dos minutos (2006)
o anjo da chuva
trad. miguel filipe mochila
do lado esquerdo
2021





 

27 janeiro 2026

eli ríos / evaporar + arrepio

 



 

 
No sorriso louco das baleias
habitam os poemas escritos
com aqueles lápis musicais
enquanto eu sonhava a minha morte
sob as rodas do comboio e o sapo cuspia versos.
Apaguei as pistas e barulhei-as nas estrofes mas
o colchão absorveu todas as gostas das tuas veias.
Escuto as sereias da GNR no outro lado dos portões
e sei que já está tudo em fora: deixo-me esvaecer entre as
linhas
sendo consciente que a poética ganhou o jogo.
                                                                   Derrida sorri:
“Nunca seremos capazes de fugir da poesia.
                                                   Nem sequer os sujeitos.”
 

 
eli ríos
se calhar não é o tempo o que importa
editora urutau
2019
 



26 janeiro 2026

daniel jonas / lenha

  
 
A geada que crepita da janela,
o lenho, tempo
sobre o tampo:
a chaleira imperturbável e fria.
 
Se te separares da mãe que te envolve
vestirás o manto de neve
e deixarás a casa com o teu machado
tão afiado como um tordo
 
rumo a um sacrifício hebreu.
Expiarás in extremis no lenho
o musculoso braço da degola,
já longe o fumo do holocausto
no casebre, fumo sobre o charco.
 
Apenas os teus dentes, blocos de gelo,
loucos percutem,
ameias sobre ameias,
muralha fruste contra o frio.
 
Infliges a lenha.
O silêncio atordoa.
Toda a minúcia do que vês:
ligustro, roseira brava, alfazema,
não achou ainda caminho
para o poema.
 
Apenas, vinte centímetros de cinzento,
o migrante gregário,
o boémio sedoso
com as bagas dos seus olhos
rolando para os mirtilos de Minsk
 
se aproxima
no aprumo oleoso.
 
Os ouvidos zunem.
 
A cada assobio do teu gume
um tordo cai
silenciado:
à volta do patíbulo truncado
um massacre de pássaros.
 
O teu machado mais afiado
do que este vento
ou este gelo
a inteira a natureza.
 
 
 
daniel jonas
bisonte
assírio & alvim
2016





25 janeiro 2026

vasco graça moura / cedros. mateus 97

  
 
à meia-noite os cedros quando o céu
é de um azul-negro ilimitado são
mais escuros do que a noite
na sua transparência. escuto os
 
sons distantes, algum cão que ladra, um
altifalante a quilómetros daqui, o pio
de uma ave nocturna não sei onde.
à meia-noite os cedros são a imóvel sentinela.
 
as fachadas são barrocas nas suas cantarias,
uma ou duas janelas estão iluminadas,
há os passos do guarda sobre o saibro,
as rãs no lago calaram-se e o rumor
 
é agora apenas o de uma água imaginária.
 
 
 
vasco graça moura
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998




 

24 janeiro 2026

ana luísa amaral / entre o inferno e os anjos

  
 
Se o amor se vestisse
de sentidos vernáculos e plenos:
um palco vicentino
a acomodar coragens de falar
 
A língua transitória
– caminho a meio entre o inferno
 
e os anjos, e ao fundo
dessa porta, em baixa-esquerda:
a glória
de escolher o adereço certo
 
A pluma mais brilhante,
a capa de veludo mais macio,
e a fivela
(que, vista assim de perto, era só isso),
ali: um quase diadema
 
O palco vicentino agora
em cor,
o que antes só amor
agora livre,
 
e de um ponto
vernáculo
no tempo,
 
vestir-me outra vez luz,
e olhando os teus olhos
outra vez,
morrer junto à coluna de papel,
num solilóquio que marcasse o fim
do século em viragem
 
e em coragem de espelho ou de punhal,
oferecer-te só isso:
o som, a fúria,
mesmo sabendo-os só sentidos
vãos
 
 
 
ana luísa amaral
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




23 janeiro 2026

eduardo pitta / dois poemas

 


 

1
 
Os elefantes da rua 79
 
A pé de Union Square para Central Park West
hesitas quanto à natureza do travo que trazes
agarrado à língua.
É o frio a arder na boca sempre vulnerável
ou só o bitterness
 
do Chilled Pineapple-Moscato Zabaglione?
Até que, de repente, os elefantes
olham para ti com irreprimível garbo
e nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.
 
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada, perplexa do décor manuelino
que a rodeava, também não sabia.
Mas foi naquele átrio que tudo começou.
Trinta anos, trinta
anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto. Mudou o quê? Os calções de cáqui
com ravina e mar ao fundo.
Agora, blindado em caxemira, atravessas o parque
entre fiapos de neve e a coreografia dos batedores.
 
A tarde cai, mas o rodopio de tanto olho fulgurante
provoca um clarão.
Muito jovens, ignorantes de simetrias,
não sabem ainda que um dia irão cruzar-se com o flash
de uma cena assim.
 
( – para que se repita uma cena – cf. Borges)
 
 
2
 
O divã e a caçada sexual
 
O dr. Cukrowicz não queria acreditar na sinuosa
réplica da senhora Venable,
que misturava príncipes da Renascença e merceeiros
enriquecidos
para explicar a diferença do filho.
 
Sebastian não teve tempo. outros, como ele,
descobriram um dia que a luta dos negros freedom fighters
era parecida com a sua
e trocaram as voltas à simbologia da mamã.
Eles sabem que a rua é um campo de batalha
 
seja na Bowery ou nos socalcos da Ponta
Vermelha.
A senhora Venable é que nunca percebeu.
Não gostava de caça e associou sempre febre
a quarteirões pouco recomendáveis.
 
(– dr. Cukrowvicz e a senhora Venable – cf. Tennessee Williams)
 
 
 
eduardo pitta
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 





22 janeiro 2026

helga moreira / tarde sem fim

  
Abrem-se portas, fecham-se medos,
pela noite fora virão os pesadelos;
rasga-se o brilho suspenso nos caminhos,
rasgam-se entradas e saídas,
estende-se
o sol por onde
ainda é visível
um ponto de luz, pássaros
cinzentos, ninhos e o meu espanto,
o meu espanto por tudo isto demorar assim;
um corredor de bancos corridos,
tardes sem fim, um rio,
escadas de cantaria,
 
os jogos no recreio, uma tília,
um aparo, um tinteiro, um quadro e giz
 
Virão depois
as frases rasuradas, os calendários,
os encontros na penumbra,
um sopro,
o tempo vivo, o tempo morto
– uma figura em estátua e jardim –
o sorriso aos tombos
um som
 
 
novembro 1997
 
 
 
helga moreira
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998 




21 janeiro 2026

josé emílo-nelson / no fim da infância

  
 
I
 
Ela, a pequena infância, andará ainda aí sentada com um velho
nas nádegas e
o crucifixo saltando no pescoço com a negra mão de talismã
buscando o brinquedo na vitrina
já contemplado.
Ela, a infância, bordando com dedal
botões de rosa em vez do cardo da minha lapela.
Ela deixada ao acaso
Na borda do velho tanque de água
que a rã tomba.
Ela permanece correndo pelo peão sonoro
e pelo cão metálico como a alma
das mães a quem Cristo deu a mantilha para assoar o ranho da placenta.
 
 
II
 
Nunca me esperei ver numa corda atada por dentro do canto de um melro. Sonhei-me, bati
no homem de idade que lhe guardava o voo. Fez pena, agarrava os ossos, porque já mal os
seus olhos cegos me seguiam a bater. É assim. Porquê, interrogou-se. É tão evidente.
 
 
III
 
Lasciatemi morire
 
Lou, je parle une langue morte, maintenat que je ne parle plus.
 
Henri Michaux
 
Nenhuma palavra obedeceu,
trazia comigo um ramo seco, a voz
manchada pelo cipreste a uma janela,
a que acolheu a cor da pele, que teve e tem
a cera de uma
morta cedo de mais.
 
Eu ouvia-me dizer (e tu a mim?),
Posso dizer agora? (Lasciatemi morire, diz Monteverdi.)
 
 
 
josé emílio-nelson
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998 



20 janeiro 2026

paulo da costa domingos / não desceu à terra?...

  
 
Santa Catarina, o melhor lugar
para os irmãos correrem
de um lado para o outro com bilhas de gás
ameaçadores: mau vinho pior poesia.
 
Ou refulgiam imagens do topo azul da baía, células
a desorganizarem-se ao vento sul.
Foi há tanto tempo, foi no princípio
do bando; entrava-se e saía-se numa correria
 
por portas a respirarem
sobre os ombros de miúdos
ainda sem idade para aqueles preparos: esperma
nas fissuras do corpo, nas comissuras dos lábios.
 
Carne um bocado brutalizada
que algum poema coroa
a bem da Literatura… Porque no princípio
era o bando, o Verbo do terror
 
com iguanas a estraçalhar o gira-discos, apavorantes.
Havia quem preferisse dormir
apesar do ruído dos livros,
a cabeça pousada no extintor
 
à espera de uma maré silábica, salina
… nessa altura ainda não sabíamos
quão injuriosa pode a Cultura ser: é o fim
do século.
 
Afinal, que temos nós aqui? – De um lado
o morto – já não tuge (aparentemente) - , o esquife
a flutuar descrevendo arcos de circunferência, lambendo
os ícones tristonhos da Basílica, seis homens-lastro
 
com ele vão pelo ar (mas não querem!), unhas enclavinhadas
nos retorcidos da talha. –
Do outro: memórias drásticas, saudade. Sem aviso,
pedra de arremesso, cedem os vitrais
 
a uma vontade caleidoscópica estilhaçando consigo
os pequenos equilíbrios impressos ao nível do nervo,
onde mais se nota a diferença entre aquilo que nos chega
(notícias) e o conhecimento… o plaino
 
Afiado da falta. E a verificação de uma hipótese
maldita: a Eternidade passa bem sem nós.
Corria-se então: com ferocidade direito a objectivas fotográficas,
direito a gavetas cheias de cabras que tilintavam
 
à mínima espreitadela, desconstruindo a ressaca democrática
da ordem. Lá fora, mora o inimigo! Era só
sair a acirrá-lo, regressar a casa, ver
os estragos pela televisão.
 
Dias torcidos a ferro, alguns com a suavidade
do tweed, ou em lamúrias de sangue
mal drogado nas veias, e depois o tal regresso
ao noticiário, ao mito, à museologia.
 
Posso neste palco afinal
lembrar dessa Santa Catarina intimidades:
o quebra-mar que cede, um petroleiro
que explode, poemas jacentes
 
domando o mal, o sangue difuso
em telefonemas sussurrados. Deslizes
mínimos corrigidos nas últimas provas, e
de novo sempre sempre os segredos roubados
 
ao mundo canalha. É a festa
a celebrar o trabalho sujo que alguém fez
por nós. Cordas da roupa enroladas nas pernas
para que os tropeços da inspiração
 
dêem fruto: uma guerra e peras
com episódios escolhidos contra a ideia
latente da arca de cânfora…
ou da bilha do gás. Exaltação, peculiares
 
divindades, vinde sobre os poetas derramar
a terrível agenda das benesses, não sejais
unhas de fome!
 
 
 
paulo da costa domingos
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




19 janeiro 2026

josé viale moutinho / quinteto de memórias nos meus olhos míopes

  
 
1
 
esta tarde de sábado é a pior das tardes de sábado.
acabei de escrever um outro nome no reverso da terra.
o teu nome, e o pó das palavras escorrega, lentamente
escorrega, na ampulheta. doem-me estes olhos de tanto
os fixar nos jornais antigos. é a letra miúda, oca, negra,
onde tudo se diz, arma e se disfarça, que fode quase tudo:
as asas deste anjo que sou são de paus, papel e cera velha,
os braços e as pernas como canas da índia mal descoberta,
as grilhetas de um fraco metal transformado na escória
apanhada a eito nas escombreiras da serra de santa justa.
 
 
2
 
eis a ilha mal desenhada, eis o penedo do sul com a espada
cravada por um rei perdido em lendas de guerras africanas:
a tempestade turva a limpidez das águas próximas, as nuvens,
as negras nuvens que pairam sobre mim, em março, como hoje,
acabam por afastar-se, e agora o penetro no jardim proibido,
onde estão todas as fontes da cidade, sem água, sem mágoa,
silenciosas cúmplices dos jovens amantes entre os arbustos.
afinal, que me importa a ilha, esta ilha, as suas líricas gaivotas:
é que o ogre lá está devorando os pequenos ogres e o resto,
mesmo esse teu nome e os teus manuscritos abandonados.
 
 
3
 
caminhando, solitário caminhar o meu, olhando o rio, os muros
que se erguem do lado de cá do rosto, mal anoto a primavera,
a estação dos derradeiros comboios. sábado? sábado? disse
sábado? revolvo-me no sofá, escondido da luz coada da tarde.
é uma tarde de merda, já disse, em que deveria estar diante
de um espelho, e de um velasquez, os dedos do pianista
mal tocando as teclas: as variações goldberg são um tributo
de bach para que o silêncio seja mais harmonioso. harmonioso?
aproximas as tuas mãos das minhas, este sábado é a entrada
de um velho museu de história natural,, pálido e com algum pó.
 
 
4
 
as minhas fontes, na verdade, não são versos nem multidões,
nem fantasmas, nem música, proscrito dos mares e do areal;
elas afundam-se numa tarde de sábado, submergem na água
de lavar a louça da semana. e ainda na verdade, esse homem
que atravessa a sala e penetra na parede do quarto de dormir
não é fernando pessoa, quem diria? trata-se de jão roiz
castelo branco: partem tão tristes os tristes. infelizmente
nasci com a pátria bem doente e um amargo sorriso afivelado:
poe, penha, pessanha, guillevic, éluard, machado, e uns versos
perdidos dos seus poetas, talvez demasiadas prosas sem teatro.
 
 
5
 
abro as mãos diante do espelho do quarto de banho: abro
a boca e mostro as línguas a mim mesmo, tenho bolhas
de medo e riscos de nascenças nas mãos, mais manchas de
veneno nas línguas. o espelho embacia-se, a água da torneira
é acastanhada, o telefone toca e é engano, mas de novo
digo que esta tarde de sábado é uma merda de olhos postos
em mim. de um bolso da camisa tiro o papelinho do mapa
das fontes da ilha onde nasci, de outro um belo cd-rom
com as raízes de quem sou, a crónica genealógica deste sangue
perdido, deste pó conduzido entre os vasos da ampulheta.
 
 
                                                                 Porto, 19 de Março de 1996
 
 
 
josé viale moutinho
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998