21 janeiro 2026

josé emílo-neloson / no fim da infância

  
 
I
 
Ela, a pequena infância, andará ainda aí sentada com um velho
nas nádegas e
o crucifixo saltando no pescoço com a negra mão de talismã
buscando o brinquedo na vitrina
já contemplado.
Ela, a infância, bordando com dedal
botões de rosa em vez do cardo da minha lapela.
Ela deixada ao acaso
Na borda do velho tanque de água
que a rã tomba.
Ela permanece correndo pelo peão sonoro
e pelo cão metálico como a alma
das mães a quem Cristo deu a mantilha para assoar o ranho da placenta.
 
 
II
 
Nunca me esperei ver numa corda atada por dentro do canto de um melro. Sonhei-me, bati
no homem de idade que lhe guardava o voo. Fez pena, agarrava os ossos, porque já mal os
seus olhos cegos me seguiam a bater. É assim. Porquê, interrogou-se. É tão evidente.
 
 
III
 
Lasciatemi morire
 
Lou, je parle une langue morte, maintenat que je ne parle plus.
 
Henri Michaux
 
Nenhuma palavra obedeceu,
trazia comigo um ramo seco, a voz
manchada pelo cipreste a uma janela,
a que acolheu a cor da pele, que teve e tem
a cera de uma
morta cedo de mais.
 
Eu ouvia-me dizer (e tu a mim?),
Posso dizer agora? (Lasciatemi morire, diz Monteverdi.)
 
 
 
josé emílio-nelson
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998 



20 janeiro 2026

paulo da costa domingos / não desceu à terra?...

  
 
Santa Catarina, o melhor lugar
para os irmãos correrem
de um lado para o outro com bilhas de gás
ameaçadores: mau vinho pior poesia.
 
Ou refulgiam imagens do topo azul da baía, células
a desorganizarem-se ao vento sul.
Foi há tanto tempo, foi no princípio
do bando; entrava-se e saía-se numa correria
 
por portas a respirarem
sobre os ombros de miúdos
ainda sem idade para aqueles preparos: esperma
nas fissuras do corpo, nas comissuras dos lábios.
 
Carne um bocado brutalizada
que algum poema coroa
a bem da Literatura… Porque no princípio
era o bando, o Verbo do terror
 
com iguanas a estraçalhar o gira-discos, apavorantes.
Havia quem preferisse dormir
apesar do ruído dos livros,
a cabeça pousada no extintor
 
à espera de uma maré silábica, salina
… nessa altura ainda não sabíamos
quão injuriosa pode a Cultura ser: é o fim
do século.
 
Afinal, que temos nós aqui? – De um lado
o morto – já não tuge (aparentemente) - , o esquife
a flutuar descrevendo arcos de circunferência, lambendo
os ícones tristonhos da Basílica, seis homens-lastro
 
com ele vão pelo ar (mas não querem!), unhas enclavinhadas
nos retorcidos da talha. –
Do outro: memórias drásticas, saudade. Sem aviso,
pedra de arremesso, cedem os vitrais
 
a uma vontade caleidoscópica estilhaçando consigo
os pequenos equilíbrios impressos ao nível do nervo,
onde mais se nota a diferença entre aquilo que nos chega
(notícias) e o conhecimento… o plaino
 
Afiado da falta. E a verificação de uma hipótese
maldita: a Eternidade passa bem sem nós.
Corria-se então: com ferocidade direito a objectivas fotográficas,
direito a gavetas cheias de cabras que tilintavam
 
à mínima espreitadela, desconstruindo a ressaca democrática
da ordem. Lá fora, mora o inimigo! Era só
sair a acirrá-lo, regressar a casa, ver
os estragos pela televisão.
 
Dias torcidos a ferro, alguns com a suavidade
do tweed, ou em lamúrias de sangue
mal drogado nas veias, e depois o tal regresso
ao noticiário, ao mito, à museologia.
 
Posso neste palco afinal
lembrar dessa Santa Catarina intimidades:
o quebra-mar que cede, um petroleiro
que explode, poemas jacentes
 
domando o mal, o sangue difuso
em telefonemas sussurrados. Deslizes
mínimos corrigidos nas últimas provas, e
de novo sempre sempre os segredos roubados
 
ao mundo canalha. É a festa
a celebrar o trabalho sujo que alguém fez
por nós. Cordas da roupa enroladas nas pernas
para que os tropeços da inspiração
 
dêem fruto: uma guerra e peras
com episódios escolhidos contra a ideia
latente da arca de cânfora…
ou da bilha do gás. Exaltação, peculiares
 
divindades, vinde sobre os poetas derramar
a terrível agenda das benesses, não sejais
unhas de fome!
 
 
 
paulo da costa domingos
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




19 janeiro 2026

josé viale moutinho / quinteto de memórias nos meus olhos míopes

  
 
1
 
esta tarde de sábado é a pior das tardes de sábado.
acabei de escrever um outro nome no reverso da terra.
o teu nome, e o pó das palavras escorrega, lentamente
escorrega, na ampulheta. doem-me estes olhos de tanto
os fixar nos jornais antigos. é a letra miúda, oca, negra,
onde tudo se diz, arma e se disfarça, que fode quase tudo:
as asas deste anjo que sou são de paus, papel e cera velha,
os braços e as pernas como canas da índia mal descoberta,
as grilhetas de um fraco metal transformado na escória
apanhada a eito nas escombreiras da serra de santa justa.
 
 
2
 
eis a ilha mal desenhada, eis o penedo do sul com a espada
cravada por um rei perdido em lendas de guerras africanas:
a tempestade turva a limpidez das águas próximas, as nuvens,
as negras nuvens que pairam sobre mim, em março, como hoje,
acabam por afastar-se, e agora o penetro no jardim proibido,
onde estão todas as fontes da cidade, sem água, sem mágoa,
silenciosas cúmplices dos jovens amantes entre os arbustos.
afinal, que me importa a ilha, esta ilha, as suas líricas gaivotas:
é que o ogre lá está devorando os pequenos ogres e o resto,
mesmo esse teu nome e os teus manuscritos abandonados.
 
 
3
 
caminhando, solitário caminhar o meu, olhando o rio, os muros
que se erguem do lado de cá do rosto, mal anoto a primavera,
a estação dos derradeiros comboios. sábado? sábado? disse
sábado? revolvo-me no sofá, escondido da luz coada da tarde.
é uma tarde de merda, já disse, em que deveria estar diante
de um espelho, e de um velasquez, os dedos do pianista
mal tocando as teclas: as variações goldberg são um tributo
de bach para que o silêncio seja mais harmonioso. harmonioso?
aproximas as tuas mãos das minhas, este sábado é a entrada
de um velho museu de história natural,, pálido e com algum pó.
 
 
4
 
as minhas fontes, na verdade, não são versos nem multidões,
nem fantasmas, nem música, proscrito dos mares e do areal;
elas afundam-se numa tarde de sábado, submergem na água
de lavar a louça da semana. e ainda na verdade, esse homem
que atravessa a sala e penetra na parede do quarto de dormir
não é fernando pessoa, quem diria? trata-se de jão roiz
castelo branco: partem tão tristes os tristes. infelizmente
nasci com a pátria bem doente e um amargo sorriso afivelado:
poe, penha, pessanha, guillevic, éluard, machado, e uns versos
perdidos dos seus poetas, talvez demasiadas prosas sem teatro.
 
 
5
 
abro as mãos diante do espelho do quarto de banho: abro
a boca e mostro as línguas a mim mesmo, tenho bolhas
de medo e riscos de nascenças nas mãos, mais manchas de
veneno nas línguas. o espelho embacia-se, a água da torneira
é acastanhada, o telefone toca e é engano, mas de novo
digo que esta tarde de sábado é uma merda de olhos postos
em mim. de um bolso da camisa tiro o papelinho do mapa
das fontes da ilha onde nasci, de outro um belo cd-rom
com as raízes de quem sou, a crónica genealógica deste sangue
perdido, deste pó conduzido entre os vasos da ampulheta.
 
 
                                                                 Porto, 19 de Março de 1996
 
 
 
josé viale moutinho
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998




 

18 janeiro 2026

carlos de oliveira / descida aos infernos

  
13
 
Simples gota
dum suor que parece
apenas ansiedade,
mas corre pelo teu rosto
na febre das montanhas,
na loucura dos rios,
dos homens, das cidades,
vim acusar os réus da superfície
à justiça
das tuas tempestades.
 
 
 
carlos de oliveira
descida aos infernos
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1982



17 janeiro 2026

charles simic / uma volta



 
E depois há a nossa Rua Principal
Que se parece com
Um lugar de filmagens abandonado
Cujo director
Ficou sem dinheiro e sem ideias,
Despedindo sem avisar
A equipa toda,
E a jovem e bonita actriz
Vestida para o seu papel
De pé com um sorriso abatido
Na montra empoeirada
Da loja para noivas de Miss Emma.
 
 
 
charles simic
o último soldado de napoleão
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2018






 

16 janeiro 2026

ingeborg bachmann / desprende-te, coração


 

 

Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos, folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.
 
Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.
 
Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens
voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.
 
De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.
 
E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho,
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.
 
 
 
ingeborg bachmann
o tempo aprazado
trad. judite berkemeier e joão barrento
assírio & alvim
1992




 

15 janeiro 2026

hans-ulrich treichel / correr na periferia

  
 
Pelo parque de estacionamento, rua
abaixo até ao rio, ao longo do milheiral,
entre pés de milho altos como um homem,
o automóvel do costume, vidros embaciados, uma
escavadora a tirar lama, ervas
em flor, vento e murmúrio de folhas, goteja
água sob o estrondo da ponte, depois ainda
asfalto, picadas no peito, céu
de chuva, o parque de estacionamento, em casa.
 
 
 
hans-ulrich treichel
como se fosse a minha vida
trad. colectiva
poetas em mateus
quetzal editores
1994




 

14 janeiro 2026

david lehman / 24 de abril (“a mesma diferença”)


 

 
Hoje ocorreu-me
que não há
diferença entre
“thank you” e “fuck you”
de forma que a partir de agora
sempre que alguém
te disser “thank you”
pensa que foi “fuck you”
Certo mas se
da próxima vez alguém
te disser “fuck you”
quererá dizer “thank you?”
Não, lamento mas não funciona assim
(sorriu com desdém)
Significa na mesma “fuck you”
todos os caminhos vão dar à Roma do “fuck you”
percebes?
Percebo mas, porra, não precisas de ser tão
indelicado sobre isso
Bem, fuck you
Não, fuck you
 
 
 
david lehman
uma echarpe no banco da frente
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2017



 

13 janeiro 2026

denise levertov / escadaria antiga

  
 
Passos como água escavam
as amplas curvas de pedra
século a século
subindo, descendo.
Quem pode dizer
se o último a trepar a escadaria
em viagem
descendente ou ascendente
está?
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021




12 janeiro 2026

maria gabriela llansol / o começo de um livro é precioso

  
247
 
A rapariga contava. Eu, que por acaso a ouvia, escrevi:
Conflito à noite, conflito de manhã, seu amor resiste.
Estranheza à noite, estranheza de manhã, seu amor
Não desiste. Não havia conflito que o extraísse. Octávia,
Que a ouvia por motivos profissionais, perguntava: Quebras
De tensão? Azia que lhe corre pelos músculos das costas?
Picadas breves no coração? Dores no peito? A tudo dizia
Que sim. Faz amor regularmente? Eu, que por acaso a
Ouvia, escrevi: Há uma espécie de informação longínqua
Que lhe enche a relação de afrontas e contradições. Há, sim,
Um além-afecto desnudo por atingir. E saí, nada havendo
Para dizer. Curioso, como a arte eficaz de Octávia me
Deixa irónica. Não me causa um riso tónico, nem as suas
Ervas (que admiro) me deixam ser franca______________
 
 
 
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
 



11 janeiro 2026

álvaro de campos / a liberdade, sim, a liberdade!

  
 
A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!
 
A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim...
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!
 
Passos todos passinhos de criança...
Sorriso da velha bondosa...
Apertar da mão do amigo [sério?]...
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!
 
Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
Da casa do campo da minha velha infância...
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?
 
17-8-1930
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




10 janeiro 2026

kahlil gibran / sombras



 

Uma raposa contemplou a sua sombra ao nascer do Sol e disse: “Hoje, quero comer um camelo ao almoço.”
 
E passou a manhã inteira à procura de camelos. Mas, ao meio-dia, olhou de novo para a sombra que projectava, e disse: “Um rato chega-me.”
 
 
kahlil gibran
o livro da vida
tradução alcinda marinho
albatroz
2018


 

09 janeiro 2026

primo levi / via cigna

  
 
Nesta cidade não há rua mais batida.
Está nevoeiro e é de noite: as sombras nos passeios
Que o clarão dos farolins atravessa
Como se a fosse diluir no nada, em grumos
De nada, são as dos nossos semelhantes.
Talvez já não exista o sol.
Talvez seja escuro para sempre: no entanto
Noutras noites sorriam as Plêiades.
Talvez seja esta a eternidade que nos aguarda:
Não o colo do pai, mas embraiagem,
Travão, embraiagem, engatar a primeira.
Talvez a eternidade sejam os semáforos.
Talvez fosse melhor consumir a vida
Numa única noite, como o fogo.
 
2 de Fevereiro, 1973
 
 
 
primo levi
a uma hora incerta
trad. rui miguel ribeiro
edições do saguão
2024
 




08 janeiro 2026

zbigniew herbert / nunca de ti

  
 
Nunca me atrevo a falar de ti
vasto céu do meu bairro
nem de vós telhados que detendes as cascatas de ar
belos telhados felpudos cabelos das nossas casas
nem de vós chaminés laboratórios de tristeza
abandonadas pela Lua pescoços esticados
nem de vós janelas abertas-fechadas
que rebentais quando morremos além-mar
 
Nem sequer consigo descrever a casa
que conhece todas as minhas fugas e regressos
apesar de pequena não sai debaixo das pálpebras fechadas
nada conseguirá devolver-me o cheiro do reposteiro verde
nem o ranger das escadas por onde levo a lamparina acesa
nem a folhagem do portão
 
Em verdade gostaria de escrever sobre o puxador do portão
                                                                           da casa
sobre o seu toque áspero e rangido amigável
e mesmo sabendo muito sobre ele
repito tão-só uma ladainha de palavras comum cruel
Cabem tantos sentimentos entre dois batimentos cardíacos
tantos objectos podem ser acolhidos entre duas mãos
 
Não vos admireis que não saibamos descrever o mundo
e que só tratemos as coisas pelos nomes com ternura
 
 
 
zbigniew herbert 
hermes, o cão e a estrela (1957)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024
 




07 janeiro 2026

rené char / folhas de hipno

  
117
 
Claude diz-me: «As mulheres são as rainhas do absurdo. Quanto mais um homem se compromete com elas, mais elas complicam esse compromisso. Desde o dia em que me tornei «partisan» nunca mais me senti infeliz nem desiludido…»
 
Nunca será tarde para ensinar a Claude que não se talha a nossa vida sem nos cortarmos.
 
 
         
rené char
furor e mistério
folhas de hipno (1943-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000





06 janeiro 2026

roberto juarroz / não se trata de falar

  
Não se trata de falar,
nem tão-pouco de calar:
trata-se de abrir algo
entre a palavra e o silêncio.
 
Talvez quando tudo tenha decorrido,
também a palavra e o silêncio,
fique essa zona aberta
como uma esperança andando para trás.
 
E talvez esse signo invertido
constitua um toque de atenção
para este mutismo ilimitado
onde palpavelmente nos afundamos.
 
 
 
roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018





05 janeiro 2026

josé emílio pacheco / o novo ano

  
 
O novo ano não bate à porta, não cumprimenta ninguém, fita-nos com a arrogância de quem nos tem nas mãos. Troça dos nossos intentos de cativá-lo. Pulverizará as boas intenções. Tem gozo no seu poder, sabe-o efémero, conhece as desgraças que sem equidade distribuirá, como sempre.
Na sua jurisdição de vida e morte, o novo ano arrasará tudo, não deixando sequer uma flor seca para o sentimentalismo da lembrança. Atropela com soberba de vencedor a nossa frágil dignidade, nós que o inventámos e que para ele erguemos um altar.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024




 

04 janeiro 2026

elio pecora / quem poderá jamais

  
 
Quem poderá jamais dar-me aquele bem
que esperava como um alimento?
O que me acontecerá agora que a uma casca vazia
assemelho o meu dia, a minha sorte?
Não vejo, não escuto, enveredo
por um longo caminho, sem mapa,
e não deixo sinais para voltar:
ao encontro da escuridão avanço, vindo da escuridão.
 
 
elio pecora
poemas escolhidos
recinto de amor (1992)
tradução de simoneta neto
quasi
2008




 

03 janeiro 2026

wallace stevens / uma velha cristã de tom altivo

 



 

 
A poesia é a ficção suprema, madame.
Tome a lei moral e faça dela uma nave
E da nave construa o céu assombrado. Assim,
A consciência é convertida em palmas,
Como cítaras de vento ansiando por hinos.
Em princípio concordamos. É claro. Mas tome
A lei oposta e faça um peristilo,
E do peristilo projecte uma mascarada
Para lá dos planetas. Assim, a nossa indecência,
Não expurgada por epitáfio, praticada por fim,
É igualmente convertida em palmas,
Meneando-se como saxofones. E palma por palma,
Madame, estamos onde começámos. Permita,
Portanto, que na cena planetária
Os seus flageladores desafectos, bem-comidos,
Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,
Orgulhosos de tais novidades do sublime,
Tais trran-tan-tan e trrum-tum-tum.
Possam, meramente possam, madame, arrancar de
                                                           si mesmos
Uma jovial algazarra entre as esferas.
Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias
Piscam quando querem. Piscam mais quando as
                                               viúvas crispam.
 
 
 
wallace stevens
ficção suprema
trad. luísa maria lucas queiroz de campos
assírrio & alvim
1991



02 janeiro 2026

rui diniz / enquanto escrevo

  
 
ENQUANTO ESCREVO   
não me deprimo:
é toda a vontade de escrever
que me resta
e às vezes
se tenho sorte
o achado de uma
imagem feliz
ou de um dito
inteligente
«enviado de algum senhor…»
desmonto do cavalo suado
e matam-me
sem razão aparente
brinquei demasiado com a vida
a infância acabou
e eu continuei a crer nas
fadas nas faldas dos bosques
e misteriosas princesas
que me esperam
em castelos silenciosos
«o mar ali era de um
azul ferrete e enchia-se
de carneiros sobrados
a alguma écloga»
no fundo não há ninguém
são inúteis as janelas
e os postigos
faz-se café para os ratos
mas o mais absurdo
são os espelhos
visto o sobretudo
de mágoa, ponho a solidão
como um chapéu
e hóspede de mim
como uma ténia
saio para
as praias da desolação.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022





01 janeiro 2026

josé gomes ferreira / porta que se rasga



 

LI
 
Porta que se rasga
nas pedras.
 
E pé ante pé
por degraus magoados
desço à Caverna
onde me encontro de súbito diante dum ser que desconheço
a falar com a minha boca
a linguagem do sabor das fontes
na Solidão do Começo.
 
Mas eu prefiro a outra,
a Solidão
insurrecta das sementes
– onde talvez um dia as flores abrirão
para o destino de bandeiras quentes.
 
 
 
josé gomes ferreira
poesia IV
encruzilhada (1949-1950)
portugália
1971