11 fevereiro 2026

sarah kirsch / a cheia

  
Espelhos negros paisagens duplas beleza de cartas de jogar
A nuvem saúda a sua gémea, o céu um círculo.
Um tronco, cada árvore duas copas.
 
O teu corpo sou eu, tu sorris para ti.
 
 
 
sarah kirsch
trad. joão barrento
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990
 





10 fevereiro 2026

james tate / quando os nómadas chegam descendo o monte

  
 
Quando os nómadas chegam descendo o monte
nos camelos de palha
o anjo da alegria rasteja pelo imenso corredor
e os vegetais frescos na carroça abandonada
desabrocham em chamas azuis
velhos junto à fonte erguem-se
e dizem-se adeus
o brilho do sol é enxaguado na tinta mais negra
cobras dormem deitadas de costas
à volta do relógio de sol dourado
a noite enorme esconde-se nas pupilas do contador de histórias
e o vento é dividido
por uma agulha bem colocada
quando os nómadas chegam descendo o monte
com a sua linguagem invisível.
 
 
 
james tate
tradução de josé alberto oliveira
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001
 



09 fevereiro 2026

jeannette lozano / a tia jeannette

  
 
Ela lia as borras do café
e dava dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.
 
«Vejo tormenta», disse um dia.
Não sei se falava de mim.
 
A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.
 
Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.
 
Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta.
 
«Escreve tudo», disse-lhe, «escreve tudo o que vês.»
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua.
 
 
 
jeannette lozano
telhados de vidro nº. 19
maio de 2014
tradução de inês dias
averno
2014
 



08 fevereiro 2026

álvaro de campos / ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.

  
 
Ah, sempre me contentou que a plebe se divertisse.
Sou-lhe alheio à alegria, mas não alheio a que a tenha
Quero que sejam alegres à maneira deles.
Se o fossem à minha seriam tristes.
Não pretendo ser como eles, nem que eles sejam como eu.
Cada um no seu lugar e com a alegria dele
Cada um no seu ponto de espírito e faltando a língua dele.
Ouço a sua alegria, amo-a, não participo não a posso ter.
 
s.d.
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993





07 fevereiro 2026

diego doncel / o job dos estábulos

  
O burro do tio Satour tem gravado por cima dos olhos
um aviso espiritual: «Eu não sou o mais tolo»
E na verdade ao percorrer a cinza amarga dos campos,
ao sentir na sua alma o peso triste do planeta,
que é a medida de todas as coisas,
aprendeu o alfabeto da desolação,
um alfabeto feito de moscas e de pó.
 
Equilibrista dos pedregais, palhaço metafísico,
de tanto pensar na sua melancolia tornou-se nisto:
um castrado para o pensamento.
Como profeta de riso enigmático
as suas olheiras sujas denunciam o humor sem sentido das suas profecias,
esse andar por aí a fazer troça, com paradoxos ridículos,
daqueles que numa mansidão ignorante
não mudaram para si todo o saber.
– O excesso de inteligência – zurra às vezes satisfeito –
traz desordem ao esplendor da lua e do sol,
desmorona as montanhas, seca os rios e perturba
 a sucessão das estações.
 
Será por isso que ele, como um visionário sem salvação,
ficou lorpa e irónico, feito um tumulto
de ossos debaixo da sua pele ruiva de diabo.
A doçura fê-lo enlouquecer e deu-lhe uma infinita serenidade,
mesmo quando vai pelas ruelas a cabecear
ao sol cansado do entardecer e rumina divertido a ideia
de que o homem é um ser superior só porque faz o mal.
 
São muitos os motivos que tem para se revoltar
contra os deuses e contra os homens,
mas são mais as razões para apaziguar-se com as troças
que brilham no seu olhar escarninho e pavoroso e nas suas húmidas olheiras.
– A paz que não dura uma eternidade é um pesadelo – diz.
 
A sua alma é apenas um rascunho de alma, uma piada
dita por alguém para mover o cansaço deste enorme esqueleto.
Por isso a ironia é o disfarce de todo o seu cepticismo e de toda a sua desmemória,
a melhor arte para sobreviver entre imbecis.
 
Aí vai ele a rir-se de si mesmo por uma terra
oxidada de ervas secas, por uma terra
onde uma nuvem de insectos assola na sua neurose
a derradeira frescura da noite.
O seu riso é espectral, como o de um Job dos estábulos,
como o de um punhado de pó e de silêncio
que se divertisse por penetrar cada noite
no absurdo do mundo.
 
 
 
 
diego doncel
em nenhum paraíso
trad. joaquim manuel magalhães
averno
2007





 

06 fevereiro 2026

joaquim manuel magalhães / pelos caminhos da manhã

  
TERCEIRO
 
As sete estrelas da ursa maior
repousa nelas a cabeça crucificada.
No baixo céu do norte aonde gira
o orbe que faz de céu à terra
abre-se a grade para este escuro.
 
Entre o mar e o ar sombrias algas,
o dragão, as três donzelas
e a árvore com os frutos doiro.
 
1.
 
Os ruídos dormindo sobre a água
a luz vindo até o dia abrir
sobre os pássaros as casas e os olhos
numa travessia entre detritos.
O último lume da noite
a neblina das mãos
os sons cobertos dos bichos
das plantas voltando a respirar
das pedras onde a humidade seca.
Sob o signo do inimigo pode abandonar-se
este intermédio instante de que os astros fogem.
Perguntas aos homens por quem passas
pelas árvores cujos frutos vais colher
depois de vencido o seu dragão.
É uma fábula, um trabalho quimérico,
mas o abismo existe e terás de passa-lo.
A tristeza e a coragem fazem-te voltar
pelos piores terrenos desta terra
ao encontro do relâmpago mensageiro.
Tão depressa te mostra o procurado
não o decifras,
não resolves esta outra vez da tua vida.
Cego pela luz mortal duma estrela
perdendo-se para que outra nasça
o local que não vês é esses frutos.
 
 
2.
 
No lugar da escuridão procuras
a água de seda desses sóis
pequenos entre a folhagem vigiada,
vagueias como se norte e sul
fossem a mesma estrada.
Sobre ela caminha uma serpente.
Tinhas vencido a outra que no berço
tentara devorar-te, a do desejo
no teu corpo quase sem alma ainda.
Estende-te um dente luminoso
pronto a arrancar-te o rosto,
vai ensinar-te a morte, mestre menor
dos reinos dos sentidos. Esmaga-la
nos braços, ela foge, regressa,
espalha as escamas na poeira.
Feres-lhe os cerros com os paus agudos,
atira-te venenos aos rins ao baço,
tenta cativar essas correntes.
Se a ergueres no ar, se a cortares da terra
que lhe dá as seivas e as seduções,
as mudanças e as aparências,
esmagas-lhe a cabeça aos vários ventos,
passa o portal que o seu cuspe cerra,
atinges as outras perdições.
 
Os pólos opostos do espírito, os deuses da porta,
comparecem nas marítimas furnas do crepúsculo.
A mais escura linguagem compreende o mundo.
A lebre foge nas infindáveis lezírias
seguida pelo cão condutor dos espíritos.
Uma gota de sangue acende clarões na água,
cai ferida uma ave perseguida por condores
e ao enganoso inimigo do que vem
é consumido pelo fogo dos vulcões ocultos,
suas cinzas levadas para o limiar dos gelos.
Enganado, enlouquecido, perseguido
essa lebre é o coração do homem,
essa ave fulminada nos despenhadeiros.
 
As conhecidas coisas da razão
e as pela razão desconhecidas
vais pelos pequenos charcos da chuva
pensando ver o mar e o vento nos arbustos,
na matéria confundido, numa busca sem sentido.
As revelações pequenas, as meditações
os enganos do frágil pensamento
aos ritmos do dia vão lançando
nas superfícies do mundo encantamento.
Eu sei que é tenebroso o que é claro,
que de muito longe vêm evidências
e os ecos dos pássaros são sinais
onde a terra adormece, o sol repousa,
os regatos devoram as imundícies,
as cabras conduzem a humidade tensa das flores.
Mas nas tenções do mestre encontrarás
o brilho que desaparece
para que surja outro fulgor.
 
 
3.
 
O fogo tenta devagar subir na árvore.
A casa move-se. Vêem-se os seixos do rio.
Ouvem-se as lagartixas sobre os muros.
Vão tão alto os pássaros que são luz.
As ruínas da terra cobrem-se de musgo.
Nas manchas da resina correm chamas.
A pele coberta pelos poderes do sol,
o cabelo aberto pelos ácidos do mar,
a boca enegrecida pelas algas,
o outro jovem ensina-te no corpo
como o corpo diminui a sujeição.
As unhas dos seus dedos onde a carne
está pronta a tocar-te,
a conduzir a tua força mais secreta
pelos canais das pernas, pelos braços
a levar-te pela relva negra das lagoas,
pelos côncavos onde amam os escondidos.
Nessas cisternas de acabada água
cobrindo as vozes que nem vós ouvis
perdidos um no outro como no sangue o sangue,
a árvore sagrada é o seu corpo?
um dos frutos sua boca de pele plúmbea,
o outro seu dorso vergado de carícias,
o terceiro o lancinante vértice perdendo-se
do ar e da terra no mais líquido dos fogos?
A esse altar amarrado ouvias as lições
da confusão e do esquecimento.
Mas a lança interior dos outros mestres,
do que vinha nos relâmpagos, nos tornados,
nas cadeias dos homens construindo
a perecível história de que nasce o futuro,
redisseram-te como os frutos vogam
noutro ar mais alto, noutras mais ígneas raízes.
E partisse deixando as cicatrizes
que saberes secavam.
 
 
4.
 
Os cães devoram os vestígios.
Esta ceia de cinzas leva-nos
ao oceano dos números, das derrotas
onde as sombras de deus nos denuncia
o pavoroso fogo do amor. Nesse brazido
os uivos dos animais feridos,
as asas arrancadas, as guelras abertas,
as gargantas rasgadas por metais
sobem ao encontro dos fantasmas,
descem às lamas, aos estrumes,
a boca devora os excrementos,
alimenta a selva doméstica
de cactos, fungos e venenos.
Os cães regressam, escavam
túneis onde a carne repousa.
 
Pelo visco das lágrimas corriam
os abutres lacerando o fígado,
correntes ao granito esmagando os ossos:
salvaste do castigo ao que trouxera
aos homens o sinal da mudança
e viste-o no deserto que lutara
contra ocultações, opressões, terrores
em armas contra a morte encarcerado.
E paraste-o nos campos cultivados
para ajudar colheitas,
no centro das habitações dos homens
nos mecanismos corruptores
para transformar o pão diário e a coragem.
 
Um homem com um arco mata um lobo,
a seu lado um corvo vai voando.
O rei negro no seu trono negro
esmaga com os pés o ventre rubro
dum jovem deitado sobre um grão de areia.
Dá um som imenso pela névoa do mar,
as palmas das mãos dançam na água
entre as ferozes plantas e os limos.
As separações dos desígnios e do mundo
estão conciliadas. As duas colunas da desgraça
caem num imenso planalto
de chuvas de vinhas de flores.
As justas balanças não oscilam.
Os órgãos dançam esquecidos
num corpo solar que retriunfa.
 
5.
 
As mãos deles traziam-te as maçãs.
As primeiras estrelas aparecendo
enquanto o sol se põe,
os animais cobertos do último calor,
as plantas bebendo o primeiro escuro
vêm com eles entregar-te os frutos.
Os olhos apavorados do repouso tocam-te na testa.
A aranha voltou, o suco negro dos fungos.
De repente toda a árvore floriu, tão branca
entre a chuva, os distantes detritos, os trovões.
Eram esses o caminho.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
pelos caminhos da manhã
arcádia
1977
 



05 fevereiro 2026

maurice blanchot / sou egoísta?

  
 
Sou egoísta? Só alguns me imputam sentimentos, não sinto pena de ninguém, raramente desejo agradar, raramente desejo que me agradem. E eu, quase insensível ao que me diz respeito, sofro somente por eles, de tal forma que o seu menor desconforto se torna para mim uma dor sem fim. Todavia, se for necessário sacrifico-os deliberadamente, privo-os de qualquer sentimento de felicidade (chego a matá-los).
 
 
maurice blanchot
a loucura do dia
trad. ricardo ribeiro
sr teste edições
2021


04 fevereiro 2026

joão melo / o que fazer diante do fim



 

 
Quando o fim assomar
à tua frente
como um monstro
de sete cabeças, catorze línguas
e milhões de braços pavorosos
 
quando o fim ameaçar
levar-te na sua bocarra
escancarada e sem fundo
 
quando o fim te convencer
que o outro lado do espelho
é menos assustador do que aquilo que vês
 
– Resiste!
 
Não temos outro mundo
Para tornar mais humano…
 
 
 
joão melo
diário do medo
editora urutau
2021
 



 

03 fevereiro 2026

joão narciso / estes ventos negros


 

11.
 
Adormeceste.
 
A maré subiu.
 
O teu barco navegou à bolina.
 
Naufragaste.
 
Ao saíres dos sonhos, sentiste o arrepio de uma memória
falsa. A memória que o sonho te deixou.
 
Abraçavas a tua irmã. Ela teria uns quatro anos; tu eras
o velho que és hoje e estavas de joelhos, apoiado numa
perna.
 
A menina não percebia quem tu eras; sabias perfeitamente
a quem pertenciam aqueles caracóis que te faziam
comichão no queixo, aquele calor que reconhecias dos
anos que fugiam de ti e saíam de mansinho enquanto
os abraçavas. Sentiste uma alegria que há muito não
pairava nos teus sonhos. Disseste-lhe qualquer coisa
não sabes bem o quê.
 
Quando a largaste, a tua irmã era outra, então adulta,
então consciente da verdade, pronta para regressar a casa.
 
Começas a acordar. Tens saudades da tua irmã.
 
O mundo devia ser mais pequeno do que é.
 
Os mecanismos do tempo realinham-se.
 
As rodas dentadas beliscam-te o sono.
 
Abres os olhos.
 
Estás acordado.
 
 
 
joão narciso
estes ventos negros
edições caixa alta
2021
 



 

02 fevereiro 2026

billy collins / o aprendiz

  
 
O meu livro e ensinamentos poéticos,
comprado numa banca ao ar livre junto ao rio,
 
apresenta muitas regras
sobre o que escrever e não escrever.
 
Mais do que duas pessoas num poema
é uma multidão, é uma.
 
Falar na roupa que sem vestida
quando se escreve, é outra.
 
Fugir de palavras como vórtice,
aveludado e cigarra.
 
Quando não souber como acabar,
ponha umas galinhas castanhas à chuva.
 
Nunca admita que faz correcções.
E mantenha sempre o poema numa só estação.
 
Procuro tê-las presentes
mas, nestes últimos dias de verão,
 
sempre que ergo os olhos da minha página
e vejo uma mancha seca de folhas amarelas,
 
penso nos ventos gélidos
que em breve golpearão o meu casaco.
 
 
 
billy collins
a aranha irlandesa & outros poemas,
trad. francisco José craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2023





01 fevereiro 2026

bernardo soares / a loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia...

  
A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.
 
Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem para ti, em amá-los.
Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei deposto numa manhã de rosas, com Março nas nuvens brancas e o sorriso das virgens nas quintas afastadas. Tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse então [...] e o som da água acompanhe tudo isto como um entardecer ao pé de margens, e o rio, sem sentido salvo correr, eterno, para marés longínquas. O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono, as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano. Assídua a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.
 
(Meu destino é a decadência.)
 
Meu destino foi outrora em vales fundos. O som de águas que nunca sentiram sangue rega o modo dos meus sonhos. O copado das árvores que esquece a vida era verde sempre nos nossos esquecimentos. A Lua era fluida como água entre pedras. O amor nunca veio àquele vale e por isso tudo ali era feliz. Nem sonho, nem amor, nem deuses em templo, passando entre a brisa e a hora [...]
s.d.
 
 
 
fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
presença
1990



31 janeiro 2026

mary oliver / à excepção do corpo



 

 
À excepção do corpo
de alguém que amas,
incluindo todas as suas expressões
em privado e em público,
 
as árvores, penso,
são as mais belas
formas sobre a Terra.
 
Ainda que, admitamos,
se isto fosse um concurso,
as árvores acabariam num
muitíssimo distante segundo lugar.
 
 
 
mary oliver
felicidade
tradução luís matos
flâneur
2021
 




 

30 janeiro 2026

alejandro simón partal / apenas o que é justo

 



Peço aos dias que abandonem
a sua acuidade sensível
e retomem o árduo labor diário.
 
Que se orientem a partir do que está certo:
 
 
um sol nascente
                e um sol poente;
 
uma neve branca
                e uma água cristalina a seguir.
 
 
 
alejandro simón partal
tradução regina guimarães
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de poesia
2026



29 janeiro 2026

josé mário silva / castelo do bode

  
 
Naquele verão fomos uma espécie de tribo.
À tarde, quando o sol ardia, a barragem era
o mundo inteiro feito de água, havia uma
jangada que avançava, lenta, por entre os
limos e nós éramos náufragos. Naquele verão
fizemos equipas e gincanas, bebi 12 colheres
de óleo de fígado de bacalhau – umas atrás
das outras – e apaixonei-me secretamente
por uma monitora que lia romances de
espionagem e passava tardes na esplanada a
beber ginger ale. Naquele verão as raparigas
ficaram belas e enigmáticas, assim de repente.
Dormiam nas tendas delas e nós, nas nossas,
adivinhávamos histórias para os sons da noite.
Naquele verão as coisas ficaram mais nítidas
E aprendemos que a adolescência é um território
confuso, um país a atravessas sem mapa de estradas.
 
 
 
josé mário silva
apeadeiro
revista de atitudes literárias
nr. 1 primavera 2001
quasi
2001
 


28 janeiro 2026

gemma gorga / livro dos minutos

  
 
12
 
Quando o despertador toca, quem primeiro abre os olhos são as palavras, uns olhos intensos através dos quais Deus nos espia. Depois abrem-se portas interiores, corredores estreitos por onde a luz matinal avança como um rio de água fresca. A ordem é ligeiramente mutável: agora não saberia precisar se se abrem primeiro as pétalas ou os sinos, se se abre primeiro o meu amor por ti ou o teu amor por mim, a doce sincronia do despertar a dois. Tudo o que é vivo acaba por se abrir, como um pressentimento: as laranjas sobre o mármore, a cor sobre a matéria, a borboleta sobre o perfil, a rosa sobre o pescoço, o corpo sobre o corpo. Para quê falar do futuro? O amor não é uma linha recta traçada a lápis sobre o calendário: nem ir, nem chegar, nem avançar. Simplesmente abrirmo-nos em círculos delicados, tu a padra, eu a água.
 
 
 
gemma gorga
livro dos minutos (2006)
o anjo da chuva
trad. miguel filipe mochila
do lado esquerdo
2021





 

27 janeiro 2026

eli ríos / evaporar + arrepio

 



 

 
No sorriso louco das baleias
habitam os poemas escritos
com aqueles lápis musicais
enquanto eu sonhava a minha morte
sob as rodas do comboio e o sapo cuspia versos.
Apaguei as pistas e barulhei-as nas estrofes mas
o colchão absorveu todas as gostas das tuas veias.
Escuto as sereias da GNR no outro lado dos portões
e sei que já está tudo em fora: deixo-me esvaecer entre as
linhas
sendo consciente que a poética ganhou o jogo.
                                                                   Derrida sorri:
“Nunca seremos capazes de fugir da poesia.
                                                   Nem sequer os sujeitos.”
 

 
eli ríos
se calhar não é o tempo o que importa
editora urutau
2019
 



26 janeiro 2026

daniel jonas / lenha

  
 
A geada que crepita da janela,
o lenho, tempo
sobre o tampo:
a chaleira imperturbável e fria.
 
Se te separares da mãe que te envolve
vestirás o manto de neve
e deixarás a casa com o teu machado
tão afiado como um tordo
 
rumo a um sacrifício hebreu.
Expiarás in extremis no lenho
o musculoso braço da degola,
já longe o fumo do holocausto
no casebre, fumo sobre o charco.
 
Apenas os teus dentes, blocos de gelo,
loucos percutem,
ameias sobre ameias,
muralha fruste contra o frio.
 
Infliges a lenha.
O silêncio atordoa.
Toda a minúcia do que vês:
ligustro, roseira brava, alfazema,
não achou ainda caminho
para o poema.
 
Apenas, vinte centímetros de cinzento,
o migrante gregário,
o boémio sedoso
com as bagas dos seus olhos
rolando para os mirtilos de Minsk
 
se aproxima
no aprumo oleoso.
 
Os ouvidos zunem.
 
A cada assobio do teu gume
um tordo cai
silenciado:
à volta do patíbulo truncado
um massacre de pássaros.
 
O teu machado mais afiado
do que este vento
ou este gelo
a inteira a natureza.
 
 
 
daniel jonas
bisonte
assírio & alvim
2016





25 janeiro 2026

vasco graça moura / cedros. mateus 97

  
 
à meia-noite os cedros quando o céu
é de um azul-negro ilimitado são
mais escuros do que a noite
na sua transparência. escuto os
 
sons distantes, algum cão que ladra, um
altifalante a quilómetros daqui, o pio
de uma ave nocturna não sei onde.
à meia-noite os cedros são a imóvel sentinela.
 
as fachadas são barrocas nas suas cantarias,
uma ou duas janelas estão iluminadas,
há os passos do guarda sobre o saibro,
as rãs no lago calaram-se e o rumor
 
é agora apenas o de uma água imaginária.
 
 
 
vasco graça moura
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998




 

24 janeiro 2026

ana luísa amaral / entre o inferno e os anjos

  
 
Se o amor se vestisse
de sentidos vernáculos e plenos:
um palco vicentino
a acomodar coragens de falar
 
A língua transitória
– caminho a meio entre o inferno
 
e os anjos, e ao fundo
dessa porta, em baixa-esquerda:
a glória
de escolher o adereço certo
 
A pluma mais brilhante,
a capa de veludo mais macio,
e a fivela
(que, vista assim de perto, era só isso),
ali: um quase diadema
 
O palco vicentino agora
em cor,
o que antes só amor
agora livre,
 
e de um ponto
vernáculo
no tempo,
 
vestir-me outra vez luz,
e olhando os teus olhos
outra vez,
morrer junto à coluna de papel,
num solilóquio que marcasse o fim
do século em viragem
 
e em coragem de espelho ou de punhal,
oferecer-te só isso:
o som, a fúria,
mesmo sabendo-os só sentidos
vãos
 
 
 
ana luísa amaral
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




23 janeiro 2026

eduardo pitta / dois poemas

 


 

1
 
Os elefantes da rua 79
 
A pé de Union Square para Central Park West
hesitas quanto à natureza do travo que trazes
agarrado à língua.
É o frio a arder na boca sempre vulnerável
ou só o bitterness
 
do Chilled Pineapple-Moscato Zabaglione?
Até que, de repente, os elefantes
olham para ti com irreprimível garbo
e nenhum deles sabe que isso acontece
para que se repita uma cena.
 
Álvaro de Castro, patrono de outra prodigiosa
manada, perplexa do décor manuelino
que a rodeava, também não sabia.
Mas foi naquele átrio que tudo começou.
Trinta anos, trinta
anos de intervalo cabem inteiros
neste confronto. Mudou o quê? Os calções de cáqui
com ravina e mar ao fundo.
Agora, blindado em caxemira, atravessas o parque
entre fiapos de neve e a coreografia dos batedores.
 
A tarde cai, mas o rodopio de tanto olho fulgurante
provoca um clarão.
Muito jovens, ignorantes de simetrias,
não sabem ainda que um dia irão cruzar-se com o flash
de uma cena assim.
 
( – para que se repita uma cena – cf. Borges)
 
 
2
 
O divã e a caçada sexual
 
O dr. Cukrowicz não queria acreditar na sinuosa
réplica da senhora Venable,
que misturava príncipes da Renascença e merceeiros
enriquecidos
para explicar a diferença do filho.
 
Sebastian não teve tempo. outros, como ele,
descobriram um dia que a luta dos negros freedom fighters
era parecida com a sua
e trocaram as voltas à simbologia da mamã.
Eles sabem que a rua é um campo de batalha
 
seja na Bowery ou nos socalcos da Ponta
Vermelha.
A senhora Venable é que nunca percebeu.
Não gostava de caça e associou sempre febre
a quarteirões pouco recomendáveis.
 
(– dr. Cukrowvicz e a senhora Venable – cf. Tennessee Williams)
 
 
 
eduardo pitta
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 





22 janeiro 2026

helga moreira / tarde sem fim

  
Abrem-se portas, fecham-se medos,
pela noite fora virão os pesadelos;
rasga-se o brilho suspenso nos caminhos,
rasgam-se entradas e saídas,
estende-se
o sol por onde
ainda é visível
um ponto de luz, pássaros
cinzentos, ninhos e o meu espanto,
o meu espanto por tudo isto demorar assim;
um corredor de bancos corridos,
tardes sem fim, um rio,
escadas de cantaria,
 
os jogos no recreio, uma tília,
um aparo, um tinteiro, um quadro e giz
 
Virão depois
as frases rasuradas, os calendários,
os encontros na penumbra,
um sopro,
o tempo vivo, o tempo morto
– uma figura em estátua e jardim –
o sorriso aos tombos
um som
 
 
novembro 1997
 
 
 
helga moreira
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998 




21 janeiro 2026

josé emílo-nelson / no fim da infância

  
 
I
 
Ela, a pequena infância, andará ainda aí sentada com um velho
nas nádegas e
o crucifixo saltando no pescoço com a negra mão de talismã
buscando o brinquedo na vitrina
já contemplado.
Ela, a infância, bordando com dedal
botões de rosa em vez do cardo da minha lapela.
Ela deixada ao acaso
Na borda do velho tanque de água
que a rã tomba.
Ela permanece correndo pelo peão sonoro
e pelo cão metálico como a alma
das mães a quem Cristo deu a mantilha para assoar o ranho da placenta.
 
 
II
 
Nunca me esperei ver numa corda atada por dentro do canto de um melro. Sonhei-me, bati
no homem de idade que lhe guardava o voo. Fez pena, agarrava os ossos, porque já mal os
seus olhos cegos me seguiam a bater. É assim. Porquê, interrogou-se. É tão evidente.
 
 
III
 
Lasciatemi morire
 
Lou, je parle une langue morte, maintenat que je ne parle plus.
 
Henri Michaux
 
Nenhuma palavra obedeceu,
trazia comigo um ramo seco, a voz
manchada pelo cipreste a uma janela,
a que acolheu a cor da pele, que teve e tem
a cera de uma
morta cedo de mais.
 
Eu ouvia-me dizer (e tu a mim?),
Posso dizer agora? (Lasciatemi morire, diz Monteverdi.)
 
 
 
josé emílio-nelson
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998 



20 janeiro 2026

paulo da costa domingos / não desceu à terra?...

  
 
Santa Catarina, o melhor lugar
para os irmãos correrem
de um lado para o outro com bilhas de gás
ameaçadores: mau vinho pior poesia.
 
Ou refulgiam imagens do topo azul da baía, células
a desorganizarem-se ao vento sul.
Foi há tanto tempo, foi no princípio
do bando; entrava-se e saía-se numa correria
 
por portas a respirarem
sobre os ombros de miúdos
ainda sem idade para aqueles preparos: esperma
nas fissuras do corpo, nas comissuras dos lábios.
 
Carne um bocado brutalizada
que algum poema coroa
a bem da Literatura… Porque no princípio
era o bando, o Verbo do terror
 
com iguanas a estraçalhar o gira-discos, apavorantes.
Havia quem preferisse dormir
apesar do ruído dos livros,
a cabeça pousada no extintor
 
à espera de uma maré silábica, salina
… nessa altura ainda não sabíamos
quão injuriosa pode a Cultura ser: é o fim
do século.
 
Afinal, que temos nós aqui? – De um lado
o morto – já não tuge (aparentemente) - , o esquife
a flutuar descrevendo arcos de circunferência, lambendo
os ícones tristonhos da Basílica, seis homens-lastro
 
com ele vão pelo ar (mas não querem!), unhas enclavinhadas
nos retorcidos da talha. –
Do outro: memórias drásticas, saudade. Sem aviso,
pedra de arremesso, cedem os vitrais
 
a uma vontade caleidoscópica estilhaçando consigo
os pequenos equilíbrios impressos ao nível do nervo,
onde mais se nota a diferença entre aquilo que nos chega
(notícias) e o conhecimento… o plaino
 
Afiado da falta. E a verificação de uma hipótese
maldita: a Eternidade passa bem sem nós.
Corria-se então: com ferocidade direito a objectivas fotográficas,
direito a gavetas cheias de cabras que tilintavam
 
à mínima espreitadela, desconstruindo a ressaca democrática
da ordem. Lá fora, mora o inimigo! Era só
sair a acirrá-lo, regressar a casa, ver
os estragos pela televisão.
 
Dias torcidos a ferro, alguns com a suavidade
do tweed, ou em lamúrias de sangue
mal drogado nas veias, e depois o tal regresso
ao noticiário, ao mito, à museologia.
 
Posso neste palco afinal
lembrar dessa Santa Catarina intimidades:
o quebra-mar que cede, um petroleiro
que explode, poemas jacentes
 
domando o mal, o sangue difuso
em telefonemas sussurrados. Deslizes
mínimos corrigidos nas últimas provas, e
de novo sempre sempre os segredos roubados
 
ao mundo canalha. É a festa
a celebrar o trabalho sujo que alguém fez
por nós. Cordas da roupa enroladas nas pernas
para que os tropeços da inspiração
 
dêem fruto: uma guerra e peras
com episódios escolhidos contra a ideia
latente da arca de cânfora…
ou da bilha do gás. Exaltação, peculiares
 
divindades, vinde sobre os poetas derramar
a terrível agenda das benesses, não sejais
unhas de fome!
 
 
 
paulo da costa domingos
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998
 




19 janeiro 2026

josé viale moutinho / quinteto de memórias nos meus olhos míopes

  
 
1
 
esta tarde de sábado é a pior das tardes de sábado.
acabei de escrever um outro nome no reverso da terra.
o teu nome, e o pó das palavras escorrega, lentamente
escorrega, na ampulheta. doem-me estes olhos de tanto
os fixar nos jornais antigos. é a letra miúda, oca, negra,
onde tudo se diz, arma e se disfarça, que fode quase tudo:
as asas deste anjo que sou são de paus, papel e cera velha,
os braços e as pernas como canas da índia mal descoberta,
as grilhetas de um fraco metal transformado na escória
apanhada a eito nas escombreiras da serra de santa justa.
 
 
2
 
eis a ilha mal desenhada, eis o penedo do sul com a espada
cravada por um rei perdido em lendas de guerras africanas:
a tempestade turva a limpidez das águas próximas, as nuvens,
as negras nuvens que pairam sobre mim, em março, como hoje,
acabam por afastar-se, e agora o penetro no jardim proibido,
onde estão todas as fontes da cidade, sem água, sem mágoa,
silenciosas cúmplices dos jovens amantes entre os arbustos.
afinal, que me importa a ilha, esta ilha, as suas líricas gaivotas:
é que o ogre lá está devorando os pequenos ogres e o resto,
mesmo esse teu nome e os teus manuscritos abandonados.
 
 
3
 
caminhando, solitário caminhar o meu, olhando o rio, os muros
que se erguem do lado de cá do rosto, mal anoto a primavera,
a estação dos derradeiros comboios. sábado? sábado? disse
sábado? revolvo-me no sofá, escondido da luz coada da tarde.
é uma tarde de merda, já disse, em que deveria estar diante
de um espelho, e de um velasquez, os dedos do pianista
mal tocando as teclas: as variações goldberg são um tributo
de bach para que o silêncio seja mais harmonioso. harmonioso?
aproximas as tuas mãos das minhas, este sábado é a entrada
de um velho museu de história natural,, pálido e com algum pó.
 
 
4
 
as minhas fontes, na verdade, não são versos nem multidões,
nem fantasmas, nem música, proscrito dos mares e do areal;
elas afundam-se numa tarde de sábado, submergem na água
de lavar a louça da semana. e ainda na verdade, esse homem
que atravessa a sala e penetra na parede do quarto de dormir
não é fernando pessoa, quem diria? trata-se de jão roiz
castelo branco: partem tão tristes os tristes. infelizmente
nasci com a pátria bem doente e um amargo sorriso afivelado:
poe, penha, pessanha, guillevic, éluard, machado, e uns versos
perdidos dos seus poetas, talvez demasiadas prosas sem teatro.
 
 
5
 
abro as mãos diante do espelho do quarto de banho: abro
a boca e mostro as línguas a mim mesmo, tenho bolhas
de medo e riscos de nascenças nas mãos, mais manchas de
veneno nas línguas. o espelho embacia-se, a água da torneira
é acastanhada, o telefone toca e é engano, mas de novo
digo que esta tarde de sábado é uma merda de olhos postos
em mim. de um bolso da camisa tiro o papelinho do mapa
das fontes da ilha onde nasci, de outro um belo cd-rom
com as raízes de quem sou, a crónica genealógica deste sangue
perdido, deste pó conduzido entre os vasos da ampulheta.
 
 
                                                                 Porto, 19 de Março de 1996
 
 
 
josé viale moutinho
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998




 

18 janeiro 2026

carlos de oliveira / descida aos infernos

  
13
 
Simples gota
dum suor que parece
apenas ansiedade,
mas corre pelo teu rosto
na febre das montanhas,
na loucura dos rios,
dos homens, das cidades,
vim acusar os réus da superfície
à justiça
das tuas tempestades.
 
 
 
carlos de oliveira
descida aos infernos
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1982



17 janeiro 2026

charles simic / uma volta



 
E depois há a nossa Rua Principal
Que se parece com
Um lugar de filmagens abandonado
Cujo director
Ficou sem dinheiro e sem ideias,
Despedindo sem avisar
A equipa toda,
E a jovem e bonita actriz
Vestida para o seu papel
De pé com um sorriso abatido
Na montra empoeirada
Da loja para noivas de Miss Emma.
 
 
 
charles simic
o último soldado de napoleão
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2018






 

16 janeiro 2026

ingeborg bachmann / desprende-te, coração


 

 

Desprende-te, coração, da árvore do tempo,
soltai-vos, folhas, dos ramos esfriados,
outrora abraçados pelo sol,
soltai-vos como lágrimas de olhos largos de longes.
 
Esvoaça ainda a madeixa dias inteiros ao vento
na fronte tisnada do deus do campo,
sob a camisa aperta o punho
já a ferida aberta.
 
Por isso resiste, quando o dorso macio das nuvens
voltar a curvar-se para ti,
não te iludas se o Himeto te encher
de novo os favos.
 
De pouco vale ao lavrador uma erva na seca,
de pouco um verão, face à nossa grande estirpe.
 
E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho,
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.
 
 
 
ingeborg bachmann
o tempo aprazado
trad. judite berkemeier e joão barrento
assírio & alvim
1992




 

15 janeiro 2026

hans-ulrich treichel / correr na periferia

  
 
Pelo parque de estacionamento, rua
abaixo até ao rio, ao longo do milheiral,
entre pés de milho altos como um homem,
o automóvel do costume, vidros embaciados, uma
escavadora a tirar lama, ervas
em flor, vento e murmúrio de folhas, goteja
água sob o estrondo da ponte, depois ainda
asfalto, picadas no peito, céu
de chuva, o parque de estacionamento, em casa.
 
 
 
hans-ulrich treichel
como se fosse a minha vida
trad. colectiva
poetas em mateus
quetzal editores
1994




 

14 janeiro 2026

david lehman / 24 de abril (“a mesma diferença”)


 

 
Hoje ocorreu-me
que não há
diferença entre
“thank you” e “fuck you”
de forma que a partir de agora
sempre que alguém
te disser “thank you”
pensa que foi “fuck you”
Certo mas se
da próxima vez alguém
te disser “fuck you”
quererá dizer “thank you?”
Não, lamento mas não funciona assim
(sorriu com desdém)
Significa na mesma “fuck you”
todos os caminhos vão dar à Roma do “fuck you”
percebes?
Percebo mas, porra, não precisas de ser tão
indelicado sobre isso
Bem, fuck you
Não, fuck you
 
 
 
david lehman
uma echarpe no banco da frente
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2017



 

13 janeiro 2026

denise levertov / escadaria antiga

  
 
Passos como água escavam
as amplas curvas de pedra
século a século
subindo, descendo.
Quem pode dizer
se o último a trepar a escadaria
em viagem
descendente ou ascendente
está?
 
 
 
denise levertov
este grande não-saber
trad. andreia c. faria e bruno m. silva
flâneur
2021




12 janeiro 2026

maria gabriela llansol / o começo de um livro é precioso

  
247
 
A rapariga contava. Eu, que por acaso a ouvia, escrevi:
Conflito à noite, conflito de manhã, seu amor resiste.
Estranheza à noite, estranheza de manhã, seu amor
Não desiste. Não havia conflito que o extraísse. Octávia,
Que a ouvia por motivos profissionais, perguntava: Quebras
De tensão? Azia que lhe corre pelos músculos das costas?
Picadas breves no coração? Dores no peito? A tudo dizia
Que sim. Faz amor regularmente? Eu, que por acaso a
Ouvia, escrevi: Há uma espécie de informação longínqua
Que lhe enche a relação de afrontas e contradições. Há, sim,
Um além-afecto desnudo por atingir. E saí, nada havendo
Para dizer. Curioso, como a arte eficaz de Octávia me
Deixa irónica. Não me causa um riso tónico, nem as suas
Ervas (que admiro) me deixam ser franca______________
 
 
 
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
 



11 janeiro 2026

álvaro de campos / a liberdade, sim, a liberdade!

  
 
A liberdade, sim, a liberdade!
A verdadeira liberdade!
Pensar sem desejos nem convicções.
Ser dono de si mesmo sem influência de romances!
Existir sem Freud nem aeroplanos,
Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!
 
A liberdade do vagar, do pensamento são, do amor às coisas naturais
A liberdade de amar a moral que é preciso dar à vida!
Como o luar quando as nuvens abrem
A grande liberdade cristã da minha infância que rezava
Estende de repente sobre a terra inteira o seu manto de prata para mim...
A liberdade, a lucidez, o raciocínio coerente,
A noção jurídica da alma dos outros como humana,
A alegria de ter estas coisas, e poder outra vez
Gozar os campos sem referência a coisa nenhuma
E beber água como se fosse todos os vinhos do mundo!
 
Passos todos passinhos de criança...
Sorriso da velha bondosa...
Apertar da mão do amigo [sério?]...
Que vida que tem sido a minha!
Quanto tempo de espera no apeadeiro!
Quanto viver pintado em impresso da vida!
 
Ah, tenho uma sede sã. Dêem-me a liberdade,
Dêem-ma no púcaro velho de ao pé do pote
Da casa do campo da minha velha infância...
Eu bebia e ele chiava,
Eu era fresco e ele era fresco,
E como eu não tinha nada que me ralasse, era livre.
Que é do púcaro e da inocência?
Que é de quem eu deveria ter sido?
E salvo este desejo de liberdade e de bem e de ar, que é de mim?
 
17-8-1930
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




10 janeiro 2026

kahlil gibran / sombras



 

Uma raposa contemplou a sua sombra ao nascer do Sol e disse: “Hoje, quero comer um camelo ao almoço.”
 
E passou a manhã inteira à procura de camelos. Mas, ao meio-dia, olhou de novo para a sombra que projectava, e disse: “Um rato chega-me.”
 
 
kahlil gibran
o livro da vida
tradução alcinda marinho
albatroz
2018


 

09 janeiro 2026

primo levi / via cigna

  
 
Nesta cidade não há rua mais batida.
Está nevoeiro e é de noite: as sombras nos passeios
Que o clarão dos farolins atravessa
Como se a fosse diluir no nada, em grumos
De nada, são as dos nossos semelhantes.
Talvez já não exista o sol.
Talvez seja escuro para sempre: no entanto
Noutras noites sorriam as Plêiades.
Talvez seja esta a eternidade que nos aguarda:
Não o colo do pai, mas embraiagem,
Travão, embraiagem, engatar a primeira.
Talvez a eternidade sejam os semáforos.
Talvez fosse melhor consumir a vida
Numa única noite, como o fogo.
 
2 de Fevereiro, 1973
 
 
 
primo levi
a uma hora incerta
trad. rui miguel ribeiro
edições do saguão
2024
 




08 janeiro 2026

zbigniew herbert / nunca de ti

  
 
Nunca me atrevo a falar de ti
vasto céu do meu bairro
nem de vós telhados que detendes as cascatas de ar
belos telhados felpudos cabelos das nossas casas
nem de vós chaminés laboratórios de tristeza
abandonadas pela Lua pescoços esticados
nem de vós janelas abertas-fechadas
que rebentais quando morremos além-mar
 
Nem sequer consigo descrever a casa
que conhece todas as minhas fugas e regressos
apesar de pequena não sai debaixo das pálpebras fechadas
nada conseguirá devolver-me o cheiro do reposteiro verde
nem o ranger das escadas por onde levo a lamparina acesa
nem a folhagem do portão
 
Em verdade gostaria de escrever sobre o puxador do portão
                                                                           da casa
sobre o seu toque áspero e rangido amigável
e mesmo sabendo muito sobre ele
repito tão-só uma ladainha de palavras comum cruel
Cabem tantos sentimentos entre dois batimentos cardíacos
tantos objectos podem ser acolhidos entre duas mãos
 
Não vos admireis que não saibamos descrever o mundo
e que só tratemos as coisas pelos nomes com ternura
 
 
 
zbigniew herbert 
hermes, o cão e a estrela (1957)
poesia quase toda
tradução de teresa fernandes swiatkiewicz
cavalo de ferro
2024
 




07 janeiro 2026

rené char / folhas de hipno

  
117
 
Claude diz-me: «As mulheres são as rainhas do absurdo. Quanto mais um homem se compromete com elas, mais elas complicam esse compromisso. Desde o dia em que me tornei «partisan» nunca mais me senti infeliz nem desiludido…»
 
Nunca será tarde para ensinar a Claude que não se talha a nossa vida sem nos cortarmos.
 
 
         
rené char
furor e mistério
folhas de hipno (1943-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000





06 janeiro 2026

roberto juarroz / não se trata de falar

  
Não se trata de falar,
nem tão-pouco de calar:
trata-se de abrir algo
entre a palavra e o silêncio.
 
Talvez quando tudo tenha decorrido,
também a palavra e o silêncio,
fique essa zona aberta
como uma esperança andando para trás.
 
E talvez esse signo invertido
constitua um toque de atenção
para este mutismo ilimitado
onde palpavelmente nos afundamos.
 
 
 
roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018





05 janeiro 2026

josé emílio pacheco / o novo ano

  
 
O novo ano não bate à porta, não cumprimenta ninguém, fita-nos com a arrogância de quem nos tem nas mãos. Troça dos nossos intentos de cativá-lo. Pulverizará as boas intenções. Tem gozo no seu poder, sabe-o efémero, conhece as desgraças que sem equidade distribuirá, como sempre.
Na sua jurisdição de vida e morte, o novo ano arrasará tudo, não deixando sequer uma flor seca para o sentimentalismo da lembrança. Atropela com soberba de vencedor a nossa frágil dignidade, nós que o inventámos e que para ele erguemos um altar.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024




 

04 janeiro 2026

elio pecora / quem poderá jamais

  
 
Quem poderá jamais dar-me aquele bem
que esperava como um alimento?
O que me acontecerá agora que a uma casca vazia
assemelho o meu dia, a minha sorte?
Não vejo, não escuto, enveredo
por um longo caminho, sem mapa,
e não deixo sinais para voltar:
ao encontro da escuridão avanço, vindo da escuridão.
 
 
elio pecora
poemas escolhidos
recinto de amor (1992)
tradução de simoneta neto
quasi
2008




 

03 janeiro 2026

wallace stevens / uma velha cristã de tom altivo

 



 

 
A poesia é a ficção suprema, madame.
Tome a lei moral e faça dela uma nave
E da nave construa o céu assombrado. Assim,
A consciência é convertida em palmas,
Como cítaras de vento ansiando por hinos.
Em princípio concordamos. É claro. Mas tome
A lei oposta e faça um peristilo,
E do peristilo projecte uma mascarada
Para lá dos planetas. Assim, a nossa indecência,
Não expurgada por epitáfio, praticada por fim,
É igualmente convertida em palmas,
Meneando-se como saxofones. E palma por palma,
Madame, estamos onde começámos. Permita,
Portanto, que na cena planetária
Os seus flageladores desafectos, bem-comidos,
Em parada, batendo nas barrigas entontecidas,
Orgulhosos de tais novidades do sublime,
Tais trran-tan-tan e trrum-tum-tum.
Possam, meramente possam, madame, arrancar de
                                                           si mesmos
Uma jovial algazarra entre as esferas.
Isto fará crispar as viúvas. Mas coisas fictícias
Piscam quando querem. Piscam mais quando as
                                               viúvas crispam.
 
 
 
wallace stevens
ficção suprema
trad. luísa maria lucas queiroz de campos
assírrio & alvim
1991



02 janeiro 2026

rui diniz / enquanto escrevo

  
 
ENQUANTO ESCREVO   
não me deprimo:
é toda a vontade de escrever
que me resta
e às vezes
se tenho sorte
o achado de uma
imagem feliz
ou de um dito
inteligente
«enviado de algum senhor…»
desmonto do cavalo suado
e matam-me
sem razão aparente
brinquei demasiado com a vida
a infância acabou
e eu continuei a crer nas
fadas nas faldas dos bosques
e misteriosas princesas
que me esperam
em castelos silenciosos
«o mar ali era de um
azul ferrete e enchia-se
de carneiros sobrados
a alguma écloga»
no fundo não há ninguém
são inúteis as janelas
e os postigos
faz-se café para os ratos
mas o mais absurdo
são os espelhos
visto o sobretudo
de mágoa, ponho a solidão
como um chapéu
e hóspede de mim
como uma ténia
saio para
as praias da desolação.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022





01 janeiro 2026

josé gomes ferreira / porta que se rasga



 

LI
 
Porta que se rasga
nas pedras.
 
E pé ante pé
por degraus magoados
desço à Caverna
onde me encontro de súbito diante dum ser que desconheço
a falar com a minha boca
a linguagem do sabor das fontes
na Solidão do Começo.
 
Mas eu prefiro a outra,
a Solidão
insurrecta das sementes
– onde talvez um dia as flores abrirão
para o destino de bandeiras quentes.
 
 
 
josé gomes ferreira
poesia IV
encruzilhada (1949-1950)
portugália
1971