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09 fevereiro 2026

jeannette lozano / a tia jeannette

  
 
Ela lia as borras do café
e dava dinheiro aos cegos.
O resplendor da janela
atravessava-lhe a escassa cabeleira
até alcançar a demi-tasse que a mão segurava.
 
«Vejo tormenta», disse um dia.
Não sei se falava de mim.
 
A minha mãe encerrava a dor nos livros. E Jeannette,
que trazia no nome a sua sina, preferia a leitura do café.
 
Todas as tardes na sua casa a fila de mentes desesperadas:
que uma viagem, que a amante, que a morte,
um encontro, qualquer coisa
que tornasse extraordinária a sua vida simples.
 
Ela, Jeannette, era a essência imperfeita do amor,
cega entre cegos velava a tormenta.
 
«Escreve tudo», disse-lhe, «escreve tudo o que vês.»
Nunca me ouviu, ausente,
sob o esfumado da lua.
 
 
 
jeannette lozano
telhados de vidro nº. 19
maio de 2014
tradução de inês dias
averno
2014
 



12 maio 2016

jeannette lozano / depois de um sonho com gesualdo



Brilhava o fundo da noite,
o horizonte inicial
numa tentativa de espalhar os cantos.

Eu procurava a colina,
a casa, os vestígios da névoa
nas folhas cortantes do cipreste.

Vi uma ponte afundar-se, a espuma,
a voz
da árvore escutei.



jeannette lozano
telhados de vidro nº. 19
maio de 2014
tradução de inês dias
averno
2014



21 outubro 2015

jeannette lozano / flor



A flor receia a morte?
Toca-a? Cheira-a?
Devolve o seu perfume
à ondulação profunda?

Vira-se para a luz.

A morte é a flor
quando se abre.



jeannette lozano
telhados de vidro nº. 19
maio de 2014
tradução de inês dias
averno
2014