31 dezembro 2025

david mourão-ferreira / baptismo

  
 
Vamos abrir a noite               Vamos abrir a noite
com música de «jazz»           Percorrê-la depois
 
num barco de borracha               Celebrar o segredo
Enforcar a memória               Descobrir de repente
 
uma lha que nasce dentro do teu vestido
 
Chamar-lhe Madrugada               Adormecer contigo
 
 
 
david mourão-ferreira
poezz
jazz  na poesia em língua portuguesa
josé duarte e ricardo antónio alves
almedina
2004




30 dezembro 2025

josé miguel silva / centro comercial

  
                                                        Para o Carlos Bessa
 
 
Irrompem no elevador. São quatro,
fogem de um, fecham-lhe a porta,
riem-se juntos. O outro, eixo moído,
embate na vida, força a entrada,
acaba no chão: eu não sei o caminho
de casa! De nada lhe serve chamar
as Erínias, largam a trote os netos
de Zeus, o vinho da força responde
por eles, esconde de todos a destruição.
 
E eu, o que faço? Não faço nada.
Um pouco mais velho, um pouco
mais sonso, tal como vós,
escolho o caminho da loja seguinte.
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014




29 dezembro 2025

manuel antónio pina / nenhuma coisa

  

Estou sempre a falar de mim ou não. O meu trabalho
é destruir aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.
 
Desta maneira (e doutras –
a carne é triste, hélas!, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?
 
Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)
 
 
 
manuel antónio pina
ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma é apenas um pouco tarde (1969)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012




 

28 dezembro 2025

álvaro de campos / hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,

  
 
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim,
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau —
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos
Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá nocturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida.
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade.
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel,
A tua imortalidade presumida era o não teres vida.
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente,
Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina!
 
9-3-1930



álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993

27 dezembro 2025

miguel serras pereira / pássaro de fogo

  
Se um dia à morte me levar a neve
meu pássaro de fogo sem adeus
a vida é longa a morte breve
Queria-te nua até seres deus
 
deus rapariga deus sem credo
sem joelhos postos a seus pés
Onde te vejo estás e faz-se cedo
e é onde eu estaria só que tu me vês
 
 
 
miguel serras pereira
á tona do vazio & reprise
cinquenta anos de poesia de miguel serras pereira 1969-2019
corça (1982)
barricada de livros
2022




 

26 dezembro 2025

pedro tamen / a água

  
7.
 
Do coração dos frutos um Sopro diz às mãos
o caminho das ondas, acende a luz
ao Anjo. O meio dos perfumes enche as rosas
de tintas de silêncio, e a secura
dos lábios estendida agora já não mais
ardente vai ficar, sem uma qualquer culpa
oculta e desculpável. Um gesto
é necessário. Mais nada, e será feita
a central companhia nesse leito de paz.
 
 
 
pedro tamen
o sangue, a água e o vinho
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




25 dezembro 2025

nuno júdice / se, numa noite de natal, a prostituta

  
 
vagueia, no passeio da avenida deserta,
procurando o encontro que não se dá,
e fixa os olhos na luz de uma lâmpada incerta
como se a manhã estivesse ali, agora e já,
 
que mais pode fazer quem por ela passa,
fingindo que não a vê ou a sua presença esquece,
do que apagar a névoa que a sua passagem traça
no espírito que por instantes estremece
 
– a não ser que a sua imagem insista, ainda,
quando o sol tudo tiver finalmente apagado;
que a noite não seja só uma memória finda
 
no canto sombrio de um desencontro adiado;
e que os seus passos não se ouçam, por dentro,
numa inquietação de quem não encontra o centro.
 
 
 
nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997




 

24 dezembro 2025

jorge luís borges / joão I: 14

  
 
Referem as histórias orientais
A daquele rei do tempo, que, sujeito
A tédio e esplendor, saiu, secreto,
Sozinho, para chegar aos arrabais
E se perder na multidão das gentes
De rudes mãos e de obscuros nomes;
Hoje, como aquele Emir dos Crentes,
Harun, Deus quer andar por entre os homens
E nasce de uma mãe, tal como nascem
As linhagens que em poeira se desfazem
E ser-lhe-á entregue o mundo inteiro,
Ar, água, pão, manhãs, a pedra, o lírio;
Depois, porém, o sangue do martírio
E os cravos, o escárnio e o madeiro.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1952-1972 vol. II
o outro, o mesmo (1964)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




23 dezembro 2025

jack gilbert / prometido

  
Ouves-te a caminhar pela neve.
Ouves a ausência dos pássaros.
Uma quietude tão completa, que ouves
o sussurrar dentro de ti. Sozinho,
manhã após manhã, e mais nada
à noite. Dizem que nascemos sós,
para vivermos e morrermos sós. Mas estão errados.
Ficamos sós pelo tempo, por sorte,
ou por infortúnio. Quando, para o libertar,
acerto no cepo congelado na pilha de lenha,
emite um som de perfeita desumanidade,
que, puro, atravessa o vale,
como um corvo a grasnar inesperadamente
no recanto mais sombrio do crepúsculo que me
desperta a meio de uma vida. O preto
e branco de mim entrosados com esta indiferente
paisagem de Inverno. Penso na lua
a surgir num instante para encontrar o branco
entre os pinheiros sem cor.
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




22 dezembro 2025

jacques brel / os velhos

  
 
Os velhos já não falam ou então por vezes apenas com um
                               olhar tremido
Até ricos são pobres já não têm ilusões e só lhes resta um
                               coração para dois
Em suas casas cheira a tomilho a limpo a lavanda a palavras
                               antigas
Mesmo vivendo em Paris vive-se sempre na província quando
                               se vive demais
Será de tanto terem rido que as suas vozes encarquilham
                               quando falam de ontem
E de tanto terem chorado que lágrimas esquecidas lhes
                               orvalham as pálpebras
E se tremem um pouco será por verem envelhecer o relógio de
                               prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e diz por vós
                               espero
 
Os velhos já não sonham os seus livros entorpecem os seus
                               pianos não tocam
O gatinho morreu o moscatel dos domingos já os não faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos são todos rugas o seu
                               mundo é tão pequeno
Da cama para a janela depois da cama para a poltrona por fim
                               da cama para a cama
E se ainda vêm à rua de braço dado envoltos num manto hirto
É para acompanhar pelo sol o enterro de um mais velho o
                               enterro de uma mais feia
E enquanto dura um soluço esquecer por uma hora o relógio
                               de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e por eles
                               espera
Os velhos não morrem adormecem um dia e dormem demais
Dão a mão um ao outro receiam perder-se e todavia perdem-se
E o outro para ali fica o melhor ou o pior o meigo ou o severo
Pouco importa porque aquele que fica acorda num inferno
Vê-lo-emos por vezes à chuva e à mágoa
Atravessar o presente pedindo perdão por não estar já mais
                               além
E uma última vez fugir de nós o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e lhe diz por
                               ti espero
Que ronrona na sal que ora diz sim ora diz não e que por fim
                               nos espera
 
 
 
jacques brel
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997




 

21 dezembro 2025

ricardo reis / o que sentimos, não o que é sentido,

  
 
O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
                Nossa caveira breve.
 
8-7-1930
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




20 dezembro 2025

bertolt brecht / da violência

  
 
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976




19 dezembro 2025

manuel de freitas / coliseu dos recreios, 2004



 

 
Desconhecerei – para sempre? –
essa arte de tornar presente
a mais pura e inesperada ausência.
Não sei explicar melhor.
 
Horas depois, na penumbra
de um bar fechado, alguém
me obrigou a escrever o seguinte:
«os nossos filósofos e historiadores
(raiz quadrada) são os
nossos compositores e intérpretes».
 
Talvez seja isso – a pior manhã
que nos encontrou vivos,
a morte que não se diz
 
quando apenas o cavaquinho sabe
que nenhuma voz regressa.
 
 
 
manuel de freitas
cretcheu futebol clube
assírio & alvim
2006




 

18 dezembro 2025

antónio franco alexandre / duende

  
 
6.

Por sorte andas bem longe, lá por fora,
já me esqueci de ti completamente.
É mais fácil assim, saber-te ausente,
corre mais fina a vida junto à morte.
Na caixa do correio só encontro
cartas de beis imperadores, promessas
de palácios talhados em sal-gema,
ouros, tesouros, e outras coisas vagas;
férias, talvez, no sultanato opaco
onde me aguarda um paraíso intacto
de virgens falsas e reais eunucos.
Entre os meus dedos fica o lugar oco
onde tão certo deixo este postal
ilustrado do teu esquecimento.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002
 


17 dezembro 2025

ana hatherly / 463 tisanas

  
28
 
A civilização consiste em aprendermos a fazer naturalmente tudo o que não é natural. É daí que vem a ideia de angelismo porque o animal em nós consente tudo. Só de vez em quando é que sentimos uma estranha melancolia e sacudindo uma mosca dizemos apetecia-me tanto ir para o campo.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006




 

16 dezembro 2025

carlos poças falcão / olhar cada coisa

  
 
Olhar cada coisa, sondar-lhe as naturezas
abissais. É um trabalho de metamorfoses
com o tempo a tombar pelos eixos da matéria
no seu modo oculto, a sua crepitação
elementar. Haver sinais despercebidos
nesse tombo interior que tudo desarruma,
as pequenas unhas que desgastam, as áridas
luzes sem sentido. E as bifurcações, as ondas
propagadas como numa lavra, uma química
lustral. Ver os objectos nessa despedida
por si dentro, a maneira imóvel de caírem
arrastando as manchas, as sombras, as palavras.
 
 
 
carlos poças falcão
três ritos
arte nenhuma
poesia 1987-2012
opera omnia
2012




15 dezembro 2025

josé agustin goytisolo / autobiografia

  
Quando era pequeno
estava sempre triste,
e o meu pai dizia,
olhando-me e meneando
a cabeça: meu filho
não serves para nada.
 
Fui depois para a escola
com pão, até logos,
mas acompanhado
pela tristeza. O professor
grasnou: menininho
não serves para nada.
 
Veio, então, a guerra,
a morte – vi-a –
a quando acabou
e toda a gente a esqueceu,
continuei, triste, a ouvir:
não serves para nada.
 
E quando me puseram
as largas calças,
a tristeza de imediato
tratou de mudá-las.
Meus amigos disseram:
não serves para nada.
 
Na rua, nas aulas,
odiando e aprendendo
a injustiça e as suas leis,
perseguia-me sempre
a triste cantilena:
não serves para nada.
 
De tristeza em tristeza
fui caindo pelos degraus
da vida. E um dia
a miúda que eu amo
disse-me, de modo alegre:
não serves para nada.
 
Vivo agora com ela,
limpo e bem penteado.
Temos uma filha,
a quem, por vezes, digo,
também com alegria:
não serves para nada.



josé agustin goytisolo
iluminação do eu
antologia de poesia hispano-americana
tradução de daniel ferreira
contracapa
2021




 

14 dezembro 2025

alberto caeiro / acordo de noite subitamente

  
XLIV
 
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas volto-me, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...
E esta sensação é curiosa porque só para mim é que ele enche a noite
Com a sua pequenez...
 
7-5-1914
 
 
 
alberto caeiro
o guardador de rebanhos
poemas completos de alberto caeiro, fernando pessoa
presença
1994




13 dezembro 2025

júlio pomar / TRATAdoDITOeFEITO

  
XLI
 
 
     Não acredito que haja quem não tenha avistado uma vez que
                                                                                         fosse o avesso
do mundo.
Mas com receio
de se enganar ou de vir a ser
perseguido, quem aí esteve não sabe como
dizê-lo ou o que contar sem perigo.
E se acaso algo viram, atentaram depois
no que lhes foi possível discernir
do avesso do mundo?
 
Nas escolas são as crianças proibidas de
falar nisso umas às outras
e as professoras explicam-lhes que é para bem delas, para lhes
guardar a candura, é falso, é para
não se meterem em trabalhos e não correrem o risco
de pôr lado a lado afirmações opostas
tão verdadeiras umas como outras
porque ajustá-las entre si nunca deu resultado nem trouxe a paz
às famílias. Como explicar isto a quem vive na crença de que é preciso
escolher, trinchar, riscar do quadro o que está mesmo a ver que não é
preto nem branco, cru ou cozido, duro ou mole?
Assim as constituições regem os países, se escrevem as leis e
regulamentam os jogos,
se anunciam os modelos de vida, os exemplos
morais os feitos
heroicos os bravos
suicidas.
 
 
júlio pomar
poema TRATAdoDITOeFEITO
dom quixote
2004
 




12 dezembro 2025

joão pedro grabato dias / estou agora só no fim da avenida

  
 
Estou agora só no fim da avenida. Minha casa é aqui.
Sacudo a ligeira vertigem que me acode sempre que chego
Como um intruso que teme acordar a prata dos espelhos
e receia vê-la ondular, enrugar, nas pálpebras do fogo
paro, num fugaz pestanejo em que acendo um cigarro
e passo a ombreira para o visgo da solidão controlada.
 
Que fiz da minha raiva? Esgotei-a? onde estão, quais os culpados?
Onde esqueci (em que desvão, em que lavabo?) o alforge de enganos?
Todos vamos na culpa, como diria o Ioannes. Todos.
O nosso minúsculo e secreto maquinismo de masoquismo
ritmava o ofegar do sádico menor em cada esquina de tédio
todos álvaro de campos com imenso dó de si próprio
todos ceguinhos do acordéon do fado automático
uns mais e outros um pouco menos gozando a música do látego
cada um adiando, cada qual consentindo, todos indo na culpa…
 
 
 
joão pedro grabato dias
odes didácticas
uma meditação, 21 laurentinas e dois fabulários falhados, 1971
tinta da china
2021
 


11 dezembro 2025

luís miguel nava / o poema

  
 
É um arbusto, armados
ainda nele os últimos relâmpagos,
o poema.
 
A pedra cai no ventre
da água – a fruta poderosa, as páginas
onde a brancura se estilhaça, o lenço
como um relâmpago.
 
Os cães brilham ao alto
– são eles o arbusto
de imagens onde a força miúda
como um leão íris
a atravessa o poema encarcerado em sua própria imagem.
 
A pedra, digo, cai no ventre
da água como um punho
 
– agora está no fundo desta imagem.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002




 

10 dezembro 2025

eugénio de andrade / a mão no ombro

  
 
 
Como se tu alumiasses
ainda
cada degrau, cada palavra,
e a noite não fosse
a única porta estranhamente
branca,
eu subia sem conhecer o ombro
onde apoiava a mão.

 
 
eugénio de andrade
rente ao dizer
poesia
fundação eugénio de andrade
2000





 

09 dezembro 2025

joão miguel fernandes jorge / eugénio de andrade ao descer belmonte

  
 
Os olhos, verde claro, envolviam a água e a vila.
Erguiam a linha da manhã,
levantam a âncora
na madrugada marítima e as velas
não deixam sombra na baía da serra – os olhos
a um tempo insolentes, divertidos e duros
arco num verde de carícia, ao longo
do mastro; no ar translúcido de quem desce de
Belmonte para o plaino de Caria. Os olhos
sobrepunham a um rumor de fundo – os remadores
ergueram a direitura do tronco, viram o verde
incessante, murmúrio contido de surpresa, grito
de saudação – quebrar da vaga.
À partida da serra, à entrada da barra
prendia-se um coração exposto ao vento
movia rostos vazios
 
por detrás ficara a cidade. Nas ruas e praças
o rapazio fazia-se à vela, navegava por entre o
cume dos montes: um grupo de homens atravessa na
Cordoaria, o que restou do jardim – onde ficou
Belmonte? – com uma expressão de
destroço fala grosseiramente. Era
por demais manhã, os remadores estendiam o braço e
retesavam o remo
apontaram o barco na direcção do mar.
 
Nas casas, as mulheres passam o vinho pela vela,
                                       pano de serapilheira.
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
invisíveis correntes
relógio d´água
2004




08 dezembro 2025

joaquim manuel magalhães / prosa


 

UM
 
Devemos ir pelos versos muitas vezes, fixá-los fora dos modos usuais aos actores cobertos de adereços, representar nas palavras as fugidias imagens, os vazios dos sons adormecem nas fogueiras, a mudante linguagem vem como as aranhas pelos revoltos mercados dos homens, tudo seco, a seiva entre a areia e das flores. Antes de os destinos estarem nomeados, o corpo escuro e o claro dos astros dançam a tua mão, muda, muda, ludibria a negra encantação, as estrelas vês como flutuam no pão diário, no sal esmagado das comidas, no dinheiro com que compras coisas? Estende-te com elas sobre a cama, pousa num peito a brilhante boca, estão à espera que digas o destino até te despedires. Transformados na terra leva-nos o ar pelas maiores derivas para tornarmos esquecidos a um novo corpo de suplícios e não sabemos onde. As fogueiras acesas no largo de teatro devem aquecer no escuro o teu corpo vigilante. As sombras das árvores dançam-te à roda e nas mãos estendidas passa o fumo. O teu corpo está sozinho, desconhece quem o imagina de roupas grossas, a barba por fazer avermelhada por um fogo. Podiam defender-te o peito do frio de janeiro, acertar-te o cinto com os braços, viria ver-te um gato pelo muro, as névoas da boca subiriam com o fumo no areão molhado do orvalhos. Tens esta casa para repousar, jogar, deixar a roupa suja. Com as palavras destes versos atraio os planetas ao teu curso, os corpos benfazejos que não vês e vais sentindo enquanto representas. Esta qualidade que tenta aproximar-se dos desígnios arrasta sobre o corpo rios, lagos, aves de verão, vegetações. Vêm os mortos sobre o mar que são os vivos do futuro escutar-te. Não deixes que parta o fogo ou se avizinhe. Transformam este texto numa víbora para te morder.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
antónio palolo
na regra do jogo
1978
 



 

07 dezembro 2025

ruy belo / na noite de madrid

  
 
                                     para o João Miguel Fernandes Jorge

 
 
Na noite de Madrid eu vi um homem morto
Jazia ali como uma afronta para os vivos
que voltavam dos bares com música nos olhos
com estrelas na testa e festa nos ouvidos
e passavam de táxi a boa velocidade
Há quanto tempo o homem jazeria ali
à superfície escura do asfalto
já meio devolvido à terra nossa mãe?
Não o cobria o manto dos heróis
nenhum clarim tocara em sua honra
Como o confortaria a santa madre igreja?
Tombara apenas imolado ao dia-a-dia
Pagara com a vida a paz da consciência
de toda uma cidade que dormia
E ele crescia alastrava na estrada
e assumia inesperadas proporções
quando há bem pouco ainda se reduzia ao dia
Quem seria? Quem fora?
Que jornal conteria a imensidão do nome
de quem como um insulto ali jazia?
Que pensamentos próximos tivera?
E o que levaria ele nos bolsos?
Donde viria? Sorriria? Onde ia?
Fora criança? Sonharia ser feliz?
Mudaria de vida na manhã seguinte?
Brincara alguma vez naquela mesma rua?
Fora criança ali onde profundamente o vi?
Teria soluções para problemas que tivesse?
Seria porventura um bom chefe de família?
Disporia da consideração da vizinhança?
Era bom funcionário? Homem de futuro?
Mas já naquele momento o rosto lhe cobriam
pois não conseguiria ver nem as estrelas
nem ao menos a luz dos citadinos candeeiros
Havia curiosos e polícia havia uma ambulância inútil
para quem como cama só teria a pedra fria
«Aonde vai?» - perguntou-me o homem do táxi
«- Eu tenho cinco mil pesetas - respondi-lhe
Leve-me pelas ruas da cidade até nascer o sol
talvez ele possa dizer-me alguma coisa
daquelas muitas coisas que gostava de saber
(o sol é hoje uma das minhas poucas soluções)
Passe longe do corpo por favor»
Lembrei-me de leituras soterradas
de súbito subiram-me à memória cenas esquecidas
Samaritano eu? Mais um levita
que calmo procurava a promessa do dia
Inquietação ou pena? Sombra de metafísica?
Política? Moral? Lição? Comportamento?
Queria alguma coisa? Não sabia
Posso-vos garantir que não sabia
Só sabia que olhava e nenhum mar havia
 
 
                            Póvoa de Varzim, à vista do mar, 10 horas da manhã
                                                                do dia 29 de Dezembro de 1971

 
 
ruy belo
dispersos
todos os poemas III
assírio & alvim
2004




06 dezembro 2025

álvaro de campos / sim, está tudo certo.

  
 
Sim, está tudo certo.
Está tudo perfeitamente certo.
O pior é que está tudo errado.
Bem sei que esta casa é pintada de cinzento
Bem sei qual é o número desta casa —
Não sei, mas poderei saber, como está avaliada
Nessas oficinas de impostos que existem para isto —
Bem sei, bem sei...
Mas o pior é que há almas lá dentro
E a Tesouraria de Finanças não conseguiu livrar
A vizinha do lado de lhe morrer o filho.
A Repartição de não sei quê não pode evitar
Que o marido da vizinha do andar mais acima lhe fugisse com a cunhada...
Mas, está claro, está tudo certo...
E, excepto estar errado, é assim mesmo: está certo...
 
5-3-1935
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




05 dezembro 2025

vasco graça moura / a sombria beleza do tema

  
 
«a sombria beleza do tema
da estação e da morte» diz o Kundera algures.
nesta imagem desenha-se um olival perdido
de surdas tonalidades, atrás do cais de onde
 
se despenhou alguém, alguma forma
aflita e trágica, vinda do fundo súbito de uma
paisagem tão modesta, sob as vozes
de quem chega a quem parte, ou simplesmente foi ali para olhar
outros seres de passagem, outros rasos destinos sem anjo para o
     remorso.
há flores, dirás, algumas flores diurnas, confiantes,
que outras mãos hão-de dispor na jarra, relembrada
junto à parede branca, mas essas são um ténue
 
sopro de acaso, ou um fulgor antecipando outra nudez.
quando a luz já se tornou mais húmida e quase musical,
e através da folhagem a harpa do desgaste estremeceu,
e passaram as horas e passaram
 
pesadas, contadas, divididas, já não dói
a beleza de alguém que vai partir, a sombria beleza
da sua ocultação intransmissível, uma brisa leve misturar-se-á
ao cheiro de óleo, aos acenos afectuosos, aos
 
ruídos do tema da estação. é tudo. à noite o olival
será uma massa negra de clareiras adiadas,
atrás do cais sem ninguém e sem tempo, como sempre acontece
nas pequenas estações de uma província da alma.
 
 
 
vasco graça moura
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001
 



04 dezembro 2025

benjamin péret / mistério do meu nascimento

  
E quando eu lhe respondi 19
ele respondeu-me 19
22 se tens tempo para ser rico
30 e 40 para a comédia em três tempos
50 para a porcaria do teu aniversário
100 para as comodidades da primavera
Quanto ao resto sou pálido e hipnótico
mas trate da sua calçada caro doutor
e deixe à água clara a hipótese de se tornar água suja
 
 
 
benjamin péret
sol de bolso
uma antologia de poemas
trad. regina guimarães
contracapa
2023




 

03 dezembro 2025

arthur rimbaud / um sonho para o inverno

  
 
                                                          Para ***Ela.
 


Este Inverno partiremos num pequeno vagão rosa
          Com almofadas azuis.
Que acolhedor. Espera-nos um ninho de beijos loucos
          Em cada recanto macio.
 
Fecharás os olhos para não veres pela janela
          As carrancas das sombras da noite,
Essas monstruosidades enraivecidas, chusma
          De demónios negros e de lobos negros.
 
Depois, sentirás a bochecha arranhada…
Um beijo ao d eleve, como uma aranha tonta,
          Descer-te-á pelo pescoço…
 
Então dir-me-ás: «Procura!», inclinando a cabeça:
–  E levaremos muito tempo à procura do insecto
       - Que tanto viaja…
 
 
Na carruagem, 7 de Outubro de 70

 
 
jean-arthur rimbaud
poesia
obra completa
trad. miguel serras pereira e joão moita
relógio d´água
2018




 

02 dezembro 2025

domingos da mota / soneto da pouquidão


 
 
São poucos os que lutam contra o medo
sem medo de perder seja o que for,
que ousam libertar-se do enredo
desse modo maligno de temor
que sofreia a coragem ante o susto
e que a tantos concita mais pavor
e os deixa tolhidos, dado o custo
da luta contra o medo sem temor.
São poucos os que lutam e a escassez
aumenta com tamanha pouquidão
que faz acumular, por sua vez
o medo, com razão ou sem razão
naqueles que se escondem dia a dia
por detrás do receio ou da apatia.
 
 
 
domingos da mota
tempestade seca
associação dos jornalistas e
homens de letras do porto
2025



 

01 dezembro 2025

herberto helder / comunicação académica

  
 
                    A minha posição é esta: toda as coisas que pare-
                    cem possuir uma identidade individual são apenas
                    ilhas, projecções de um continente submarino, e
                    não possuem contornos reais.
 
                                                                  Charles Fort
 
 
 
Gato dormindo debaixo de um pimenteiro: gato amarelo folhas verdíssimas pimentos vermelhos: sono redondo: sombras pequenas de pimentos vermelhos no sono do gato: folhas sombrias dentro do amarelo: pimentos dormindo num gato vermelho: verdes redondos no sono do pimenteiro: o amarelo: da cabeça do gato nascem pimentos verdíssimos de sono: sono vermelho: sombras amarelas no gato redondo de sono verdíssimo debaixo de um pimenteiro amarelo: a sombra do gato dando folhas redondas sonhando amarelo sobre dormindo os pimentos: água: secura sombria do gato vermelho: o sonho da água dorme no pimenteiro: a sombra da cal das paredes secas dorme no gato de água amarela: a cal dá pimentos que sonham nas folhas do gato: o sono da cal dá sombras redondas no gato enrolado no vermelho: a água é uma sombra o gato é uma folha o sono é um pimenteiro: a cal é o verdíssimo do sono seco dando sombra no amarelo: pimenteiro redondo: pimentos de cal enrolados no sonho do silêncio amarelo: o silêncio dá gatos que sonham pimentos que dão sono na cal que dá sombra nas folhas que dão água na secura do tempo vermelho: o tempo enrola-se debaixo da cabeça do pimenteiro que se enrola no gato de cal do sono amarelo: o sono de dentro dos pimentos debaixo do redondo verdíssimo enrolado no sonho: e dorme o pimenteiro com as sombras do gato redondo enrolando-se nas folhas: silêncio de sonho sono de tempo: tudo amarelo: noite do pimenteiro sono da cal folhas do gato sonho das sombras do verdíssimo vermelho: secura da noite: noite do gato na noite da cal com a noite das folhas dentro da noite do verdíssimo debaixo da noite do sonho diante da noite do pimenteiro após a noite da água conforme a noite debaixo com a noite enrolada contra a noite do amarelo desde a noite das sombras consoante a noite redonda para a noite de dentro durante a noite do vermelho detrás da noite dos tempos debaixo da noite sem à frente do com da noite conforme a noite conforme: a noite dos tempos: um gato de dentro desaparecendo num pimenteiro: pimenteiro desaparecendo: a cal morrendo no sonho das folhas pequenas: o silêncio de tudo no mundo inteiro:
 
 
   etceteramente vosso inteiro:
 
                                             herberto herder:
 
                                                                     em janeiro
 
   mil novecentos e sessenta e três
 
                                                                                                                                                                                                                                 1963
 

 
herberto helder
poesia toda
comunicação acadérmica
assírio & alvim
1996





30 novembro 2025

vergílio ferreira / todas as épocas…

  
 
303 – Todas as épocas têm uma palavra que resume e centraliza o que nela mais significa. Nós não temos nenhuma a não ser em negativo. Talvez «desagregação». Porque tudo o que é visível e sensível só diz não a tudo. O nosso vocabulário reduziu-se porque muitos vocábulos deixaram de servir. Amor, decoro, honestidade, honradez, seriedade, fidelidade, recato, decência. Opostamente, os vocábulos mais obscenos deixaram de ferir os ouvidos mais delicados. E não apenas os que se soltam em situações agressivas, mas mesmo em conversas normais e até em títulos de livros como um romance. O que é curioso é que nesses restos de reserva ou pudicícia não se dizem em voz alta esses títulos expostos numa livraria. Assim, se alguém os quer comprar não os pede pelo nome mas por outras formas de o referir como por exemplo apontando-os com o dedo ou apresentando-os simplesmente nas livrarias para o pagamento. Sempre existiram os palavrões, mas não expostos à publicidade e sim lidos com recato. Mas hoje vale tudo porque nada vale nada. incluindo a própria vida que tosos os dias se assassina numa vulgar bulha de facas. E não são precisas razões, que dão trabalho a descobrir ou seja a inventar. Basta faca.
 
 
 
vergílio ferreira
escrever
edição de helder godinho
bertrand editora
2001




29 novembro 2025

virgínia woolf / saumur, frio e chuva

  
 
(1931)
Sábado, 18 de Abril
 
 
Saumur, frio e chuva, embora com vislumbres de luz. o Loire – vasto, sem um único barco. Muito vazia a França. O hotel era melhor, a água mais quente. As mulheres disseram que estavam a usar vestidos de algodão – tempo incerto. Vimos a grande igreja redonda junto ao rio. Um mercado. Partimos; esquecendo-nos da mudança da hora. Manhã péssima. Fomos a Fontevrault. Vimos a velha igreja despida do velho convento. Não tire o chapéu, disse o homem. Não está consagrada. Os túmulos dos Plantagenetas: como Edith Sitwell: direitos, estreitados lado a lado: repintados, azul e vermelho. Agora todo este grande convento, onde as filles de France foram educadas, é uma prisão. Sinos da prisão tocando para o jantar. Fontes onde as raparigas se lavavam para o jantar. O frio deve ter sido pior nesse tempo. as abadesas faziam-se retratar em frescos – rostos gordos, sensuais, de grandes narizes.
 
Prosseguimos à chuva pelo país: estradas estreitas e amarelas: velhas sentadas nos campos debaixo de guarda-chuvas junto das ovelhas. Bíblico. Parado no tempo. almoço em Thouars: a comida ainda não é melhor do que a comida nas estalagens de Inglaterra, diz o L.
 
 
 
virgínia woolf
diários
trad. jorge vaz de carvalho
relógio d´água
2018
 


28 novembro 2025

roland barthes / na calma dos teus braços amantes

  
 
ABRAÇO. O gesto do abraço apaixonado parece preencher, num momento, para o sujeito, o sonho da união com o ser amado.
 
1
Fora do acasalamento (para o diabo, então, com o Imaginário), há este outro abraço, que é um enlace imóvel: estamos encantados, enfeitiçados: estamos no sono, sem dormir; estamos na voluptuosidade infantil do adormecimento: é o momento das histórias contadas, o momento da voz, que me vem fixar, siderar, é o retorno à mãe («na calma dos teus braços amantes», diz uma poesia musicada por Duparc). Neste incesto reconduzido, tudo então fica suspenso: o tempo, a lei, o proibido: nada se esgota, nada se quer: todos os desejos estão abolidos pois parecem definitivamente realizados.
 
2
Porém, no meio deste abraço infantil, o genital acaba fatalmente por surgir; destrói a sensualidade difusa do abraço incestuoso; a lógica do desejo põe-se em movimento, regressa ao querer-para-si, o adulto sobrepõe-se à criança. Sou, então, simultaneamente dois sujeitos: quero a maternidade e a genitalidade. (O apaixonado poderia definir-se: uma criança que se revolta: assim era o jovem Eros.)
 
3
Momento de afirmação: durante um certo tempo, na verdade terminado, perturbado, algo se conseguiu: fiquei realizado (abolidos todos os meus desejos pela plenitude da sua satisfação). A plenitude existe e não deixarei de a fazer regressar: por entre todos os meandros da história de amor, teimarei em querer encontrar, renovar, a contradição – a contracção – de dois abraços.
 
 
 
roland barthes
fragmentos de um discurso amoroso
trad. isabel pascoal
edições 70
2017
 



27 novembro 2025

agustina bessa-luís / massas

  
 
Disciplinar os povos é sempre a ilusão frenética dos grandes revolucionários. Falham continuamente. Não se dominam as energias sociais do mundo senão na medida em que elas tendem a uma rotina que, por sua vez, deixe tranquila a «espontaneidade negativa» do homem. Quer dizer que o estadista exerce influência nas massas, mas não as revela. Pode ser motor duma acção e formular um pensamento que se vai divulgando até se estiolar no exercício comum. Mas fica sempre ineficaz quanto à interpretação da chamada massa passiva que, na realidade, está organizada no sentido inverso do fatalismo.
 
 
 
agustina bessa-luís
dicionário imperfeito
guimarães editores
2008



26 novembro 2025

cesare pavese / uma obra não resolve nada

  
18 de Agosto 1947
 
Uma obra não resolve nada, assim como o trabalho de uma geração inteira não resolve nada. Os filhos – o amanhã – recomeçam sempre e ignoram alegremente os pais, o já feito. É mais aceitável o ódio, a revolta contra o passado do que esta beata ignorância. O que havia de bom nas épocas antigas era a sua constituição graças à qual se olhava sempre para o passado. Este o segredo da sua inesgotável plenitude. Porque a riqueza de uma obra – de uma geração – é sempre determinada pela quantidade de passado que contém.
 
 
 
cesare pavese
o ofício de viver - diário (1935-1950)
trad. alfredo amorim
relógio d´água
2004



25 novembro 2025

albert camus / a arte de kafka

  
Toda a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler. Os seus desfechos – ou as suas ausências de desfecho – sugerem explicações mas que não transparecem claramente e que exigem que a história seja lida sob um novo ângulo para adquirirem fundamento. Há por vezes uma dupla ou uma tríplice possibilidade de interpretação, de onde a necessidade de duas ou três leituras. Mas faríamos mal em tudo querer interpretar, na obra de Kafka, até ao pormenor. Um símbolo é sempre no geral e o artista dá-lhe uma tradução à letra. Só o movimento é restituído. E para o resto, temos de deixar ao acaso a sua parte, que é grande em todo o criador.
 
 
 
albert camus
primeiros cadernos
caderno n.º 4 janeiro 1942 / setembro 1945
trad. não disponível (antónio quadros?)
livros do brasil
1973





24 novembro 2025

franz kafka / diários



 

 
1910, 15 de dezembro
 
 
Simplesmente não acredito nas consequências da minha presente situação que dura quase há um ano; a minha situação é demasiado séria para tal. Nem sequer sei se posso dizer que esta situação é nova. A minha opinião, porém, é a seguinte: esta situação é nova, vivi situações semelhantes, mas nenhuma igual. É como se eu fosse de pedra, sou a própria laje do meu túmulo, não há lugar para a dúvida nem para a crença, para o amor ou para a repugnância, para a coragem ou para o medo, em particular ou em geral, só viver uma vaga esperança, mas não é melhor do que a inscrição tumular. Quase não há palavras que eu escreva que estejam de harmonia com as outras, oiço o esfregar de lata das consoantes umas contra as outras, e o acompanhamento cantado das vogais, semelhante ao canto dos negros nos circos. As minhas dúvidas dispõem-se em círculo à volta de cada palavra, vejo-as primeiro, antes de ver a palavra, mas quê! Não vejo palavra nenhuma, invento-a. mas isso não seria a maior infelicidade, só que eu tinha de inventar palavras que fossem capazes de soprar o odor do cadáver numa direcção que não viesse dar à minha cara e à do leitor. Quando me sento à secretária, não me sinto melhor do que a pessoa que caiu no meio do trânsito na Place de L´Opera e que parte as duas pernas. Os carros, apesar do barulho, continuam a andar silenciosamente, vindos de todos os lados e indo para todos os lados, mas a dor daquela pessoa organiza melhor as coisas do que os polícias; ela fecha-lhe os olhos e despovoa a praça e as ruas, sem que os carros tenham de se desviar. O grande movimento magoa-a, porque é um empecilho no meio do trânsito, mas o vazio não lhe é menos penoso, porque liberta a sua dor real.
 
 
 
franz kafka
diários (1910-1923)
trad. maria adélia silva melo
difel
1986
 



 

23 novembro 2025

álvaro de campos / penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,

  
 
Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.
 
Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.
 
Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.
 
s.d.
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




22 novembro 2025

jacques prévert / menina de aço

  
 
 
Menina de aço, eu não amava ninguém
Neste mundo a não ser aquele que eu amava
O meu amante o meu amante aquele que me atraía
Agora tudo mudou foi ele que deixou de me amar?
O meu amante que deixou de me atrair? Ou fui eu?
Não sei e depois isso que importa?
Agora estou deitada na palha húmida do amor
Sozinha com todos os outros sozinha e desesperada
Mulher de lata mulher enferrujada
Oh meu amante meu amante morto ou vivo
Quero que te recordes de antigamente
Meu amante que me amava e que eu amava.
 
 
 
jacques prévert
palavras
trad. manuela torres
sextante editora
2007






21 novembro 2025

e e cummings / xiv poemas

  
[xiv]
 
toda a ignorância escorrega para o saber
e de novo se arrasta para a ignorância:
mas o inverno não é para sempre,mesmo a neve
derrete;e se a primavera estragar o jogo,que fazer?
 
toda a história é um desporto de inverno ou três:
que fossem cinco,eu seguiria insistindo que toda
a história é demasiado pequena até mesmo para mim;
para mim e para ti,excessivamente demasiado pequena.
 
Mergulha(estridente mito colectivo)na tua tumba
tão-só para trabalhar a escala até à hiperestridência
por cada magda e marta diogo e david
–amanhã é o nosso endereço permanente
 
e aí mal nos hão-de achar(se acharem,
mudaremos ainda mais para diante:para agora
 
 
 
e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998




20 novembro 2025

francis ponge / o objecto é a poética

  


 
A relação do homem com o objecto não é de todo apenas de posse ou de uso. Não, seria demasiado simples. É muito pior.
Os objectos estão fora da alma, é certo; contudo, eles são também os fusíveis do nosso juízo.
Trata-se de uma relação no acusativo.
 
 
 
francis ponge
nouveau recueil
alguns poemas
tradução de manuel gusmão
livros cotovia
1996




19 novembro 2025

paul éluard / e, através da ponte dos sentidos

  
 
 
E, através da ponte dos sentidos, pouco a pouco a solidariedade. Um amigo, uma amiga, e o mundo recomeça, retoma corpo a matéria informe. Uma linha recta passa através dos peitos. Os homens reúnem-se de novo e o infeliz volta a prender-se aos seus sorrisos, com um sorriso talvez um pouco menos amável que o dos tempos idos, mas mais justo, melhor. Recuperou-se no imaginar o que poderiam ser os seus irmãos se destruíssem a solidão em que viviam. Ouviu bramir o canto que se elevava da multidão compacta. E não mais voltou a sentir vergonha.
 
Os que o amavam eram inúmeros. Iam beber às fontes, trabalhavam contra o esforço que se perde na sombra. A dor fora sobrepujada, a árvore saía da terra, os seus frutos iam amadurecer, todos seriam com eles alimentados.
 
Que tinham então a ver com isto os fabricantes da moral? Um homem fora restituído aos seus semelhantes, um legítimo irmão.
 
 
 
paul éluard
poemas políticos
trad. carlos grifo
editorial presença
1971



18 novembro 2025

luis cartañá / a contra-senha

  
 
 
     Cheguei do fundo da pedra:
precocemente do centro da rosa:
toquei as mãos e a artéria.
Ando ainda com a pele dos mármores
sombrios do deserto inocente. Oponho-me,
oponho-me ao relâmpago da água
e do mandato: ordeno, troco,
louvo a penugem como espada de enxofre
ou perfeição. Ordeno
ainda os horizontes.
                              Minha voz não é débil
nem o nascimento se cheguei e pus sobre uma pedra
o coração como destino
e como canto a palavra amor e sem resposta, espero.
E como uma chuva de martelos,
de homem demasiado homem, de pancadas demasiado pancadas,
ou de paixão sem limites lancei minha funda ao vento:
quero mais terra, mais terra e repartir unhas e chicotes
e repartir palavra e boca: Como um último respirar do homem
que viveu sem história na pegada e criou.
Criou a magnitude do homem lá do fundo da matéria única,
uma nova matéria, forças a rasgar o último recanto do vento
e a ordenar o eco
da última terra ou gratidão
que reste em minhas sandálias.
 
     Caminhei até aqui,
cheguei precocemente do fundo da pedra
com a boca doce ou a palavra dividida. Ordeno
ainda os horizontes.
 
 
 
luis cartañá
rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução josé bento
assírio & alvim
2001



 

17 novembro 2025

luis buñuel / pássaro de angústia

  
 
Um plesiossauro adormecido entre os meus olhos
enquanto a música ardia num candeeiro
e a paisagem tomava uma paixão Tristão e Isolda
 
o teu corpo ajustava-se ao meu
como a mão se ajusta ao que quer esconder.
escorchada
mostravas-me os teus tendões de madeira
e os pequenos ramos de luxúria
que podiam tecer-se com as tuas veias
 
nos nossos peitos trémulos como folhas de jardim
ouvia-se um galope de bisontes no cio
 
todas as falas de amor se assemelham
todas têm acordes delirantes
e o peito esmagado
por músicas de séculos de memórias.
vêm depois o coração e o vento
o vento dobador de sons em pontas
doces como sangue
de uivos feitos carne
 
que ímpetos que esperas de mares rasgados
convertidos em níquel
ou em canto ecuménico daquilo que podia ter disso
     tragédia
nascerão     juntos os pássaros das nossas bocas
enquanto a morte nos penetra pelos pés?
 
tensa como uma ponte de beijos de pedra soou
     a uma
as duas voaram de mãos cruzadas
as três ouviam-se mais distantes que a morte
as quatro já tremiam de auroras
as cinco desenhavam a compasso o grande circuito
     transmissor do dia
 
às seis ouviram-se as cabrinhas dos alpes
levadas por monges ao altar
 
 
 
luis buñuel
poemas
trad. de mário cesariny
arcadia
1977





 

16 novembro 2025

álvaro de campos / o futuro

  
 
Sei que me espera qualquer coisa
Mas não sei que coisa me espera.
 
Como um quarto escuro
Que eu temo quando creio que nada temo
Mas só o temo, por ele, temo em vão.
Não é uma presença; é um frio e um medo.
O mistério da morte a mim o liga.
 
Ao [...] fim do meu poema.
 
s.d.
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




15 novembro 2025

ulla hahn / de corpo inteiro

  
 
Da fossa dos teus anos te tirei do lameiro
e mergulhei-te nas águas do meu verão
lambi-te as mãos cabelo corpo inteiro
jurei ser minha e tua até mais não.
 
Tu deste-me a volta. Gravaste a fogo brando
a tua marca na minha pele fina.
Renunciei a mim. E eis senão quando
me começo a afastar da minha sina
 
e de mim própria. A princípio ainda a recordação
um belo resto chamando por mim.
Mas nessa altura estava já dentro de ti
de mim escondida. Bem me escondeste então.
 
Perdi-me toda em ti, de mim nem cheiro:
e então cuspiste-me de corpo inteiro.
 
 
 
ulla hahn
trad. joão barrento
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990