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15 dezembro 2025

josé agustin goytisolo / autobiografia

  
Quando era pequeno
estava sempre triste,
e o meu pai dizia,
olhando-me e meneando
a cabeça: meu filho
não serves para nada.
 
Fui depois para a escola
com pão, até logos,
mas acompanhado
pela tristeza. O professor
grasnou: menininho
não serves para nada.
 
Veio, então, a guerra,
a morte – vi-a –
a quando acabou
e toda a gente a esqueceu,
continuei, triste, a ouvir:
não serves para nada.
 
E quando me puseram
as largas calças,
a tristeza de imediato
tratou de mudá-las.
Meus amigos disseram:
não serves para nada.
 
Na rua, nas aulas,
odiando e aprendendo
a injustiça e as suas leis,
perseguia-me sempre
a triste cantilena:
não serves para nada.
 
De tristeza em tristeza
fui caindo pelos degraus
da vida. E um dia
a miúda que eu amo
disse-me, de modo alegre:
não serves para nada.
 
Vivo agora com ela,
limpo e bem penteado.
Temos uma filha,
a quem, por vezes, digo,
também com alegria:
não serves para nada.



josé agustin goytisolo
iluminação do eu
antologia de poesia hispano-americana
tradução de daniel ferreira
contracapa
2021




 

17 dezembro 2015

josé agustin goytisolo / onde não estivesses




Onde não estivesses, como neste recinto,
cercada pela vida,
em qualquer paradeiro, conhecido ou distante,
leria teu nome.

Quando começaste a viver para o mármore, aqui,
quando se abriu para a sombra teu corpo rasgado,
puseram uma data: dezassete de Março. E suspiraram
tranquilos e rezaram por ti. E acabaram-te.

Em redor de ti, do que foste,
em poços semelhantes e em funestas prateleiras,
outros, sal ou cinza, tornam-te imperceptível.

Olho tudo, apalpo tudo:
ferros, urnas, altares,
uma antiga vasilha, retratos carcomidos pela chuva,
nomes, citações sagradas,
anéis de latão, coroas sujas, horríveis
poesias...
Quero ser familiar com tudo isto

Mas teu nome continua aqui,
tua ausência e tua lembrança
continuam aqui.
                 Aqui!
Onde não estarias
se uma bela manhã, com música de flores,
os deuses não te tivessem esquecido.



josé agustin goytisolo
1928
antologia da poesia espanhola contemporânea
tradução de josé bento
in poemário, 17.03.2001
assírio & alvim