21 outubro 2026

margaret atwood / suite do plasticeno

  
 
5. apontamentos editoriais

 
Um apontamento poderia ser (disse ela)
para recuar um pouco
da exortação do desespero
 
Em vez disso (disse ela)
tentar providenciar
uma experiência com
 
compreensão do humano
o humano (disse ela) impacto
o jacto humano
 
depois deixar as pessoas
deixar as pessoas virem
deixar as pessoas virem a ter as suas próprias
 
conclusões.
Ter as suas próprias conclusões.
Disse ela:
 
Há algum perigo nisso.
 
 
 
margaret atwood
afectuosamente
trad. joão luis barreto guimarães
bertrand editora
2021




20 outubro 2026

eva gerlach / dos seus mínimos vestidos

 


 

 
Dos seus mínimos vestidos vejo-a levitar
muito por cima do horizonte.
Prende as árvores como se fossem molas de roupa,
as terras e os prados caem com a corda
em finas dobras nos meus olhos.
 
Enquanto imóvel a vejo desaparecer,
por entre nuvens recolho os secos
campos nos meus braços, para os separar.
 
 
 
eva  gerlach
alguns poemas
trad. colectiva
poetas em Mateus
quetzal editores
1994
 




19 outubro 2026

fernando pinto do amaral / sete degraus para a escada de jacob

  
 
3
 
«Tudo consigo arrasta o ano breve»
em doces labaredas. Cada dia
uma talvez-infância recuperando
as ilusões dos deuses, o enigma
de sermos sem fonteiras. Sonolentos,
abrimos cem caminhos, cremos nosso
o verde ainda húmido nas folhas,
o rápido cenário que nos leva
em troca de palavras, hesitantes
irmãos de toda a sombra, repetindo
o mais secreto nome. Quem engana
o vento pelas ruas?, quem semeia
segredos rente às horas vegetais
enquanto a chuva próxima dissolve
a cor de cada rosto? Vai ser noite
pra muita gente igual, um só momento
de responder ao céu. Como sabemos,
a terra fala em gritos inesperados
e o coração foge, não adianta:
as memórias apagam-se, ninguém
capaz de renascer-me. Ao som dos cães
volteiam os morcegos – como eu,
são náufragos de luzes invisíveis
cercando a madrugada, o seu desejo,
a sua amarga sede, o puro álcool
de tão cruel beleza! assim voltamos
ao fogo de mil sóis, assim revemos
o tempo e seus inúmeros perfis,
invulneráveis olhos sem sentidos
e a máquina das vozes orquestrando
felizes brownianos movimentos
de todo o quase-nada respirando
connosco, sem razão. As bocas ardem
na íntima loucura de sentirem
mover-se o labirinto, mas o fumo
dissipa as vãs auréolas, anuncia
a mão que escreve, o sangue, a boca anónima
guiando-nos a vida: «um pobre rio
que negro mar com altas ondas bebe.»
 
 
 
fernando pinto do amaral
sete degraus para escada de jacob
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000



18 outubro 2026

sebastião belfort cerqueira / vento

  
 
Já ninguém ouve o vento
Mas se ouvisse
O que é que nos salvava
Se um só vento forte
Se o mesmo vento norte
Varresse o vale de vida
E nos mentisse?
 
 
 
sebastião belfort cerqueira
está um dia lindo
edições sempre-em-pé
2021
 


17 outubro 2026

josé carlos barros / as primeiras coisas

  
 
Em seu redor tudo era como se começasse
sempre. Chegava habitando um ar onde
as abelhas pela tarde entravam já
exaustas do seu exame de pólen, e abria
as mãos até que a noite adormecesse
nas suas margens fatigadas. Quem aprendeu
com a madrugada a subir os degraus do
mundo, talvez uma ou outra vez com ela
e seu comum de amor ousasse repetir as
duas ou três sílabas da alegria frágil
dos vidoeiros, o pólen ainda luzindo
nos lábios, à beira do rio. Mas eu
falava era dos seus olhos, das suas pálpebras
inexperientes em respirar com a água.
 
 
 
josé carlos barros
estação
on y va
2020
 



16 outubro 2026

joaquim manuel magalhães / desciam pela rua de asfalto esburacado

  
 
Desciam pela rua de asfalto esburacado
e passeios com faltas de ladrilhos
os pés chapinhavam nas lamaças
com sapatilhas para a cabotagem.
 
Subiam com a falta de botões
as camisas puídas e às manchas
mal presas nas gangas desbotadas.
 
O mesmo aro cromado nas orelhas,
uma roda de arame enferrujado
no pulso saindo duma camisola
bordada, à moda, com uns alfinetes.
 
Bem que vinham de mal comer,
que não tinham aonde ir dançar
e queriam foder tudo. E foram.
 
 
 
joaquim manuel magalhães
6x14 aos da educação
os dias, pequenos charcos
editorial presença
1981




 

15 outubro 2026

joão habitualmente / metropolitano

  
 
na paragem do metro
à mesma hora
ao mesmo bocejo
os mesmos corpos
a mesma gente
a mesma viagem
a mesma janela para os sítios repetidos
pirilampos no túnel
destino retilíneo
metro a metro
 
onde não passam as estações
 
 
joão habitualmente
um dia tudo isto será meu
(uma antologia)
porto editora
2019




14 outubro 2026

josé miguel silva / enfim


 

Essa cara cor de beco sem saída,
sorriso de apagar quarenta velas,
o nariz em agonia – não te canses.
A justiça, o remoinho da beleza,
a liberdade são paixões impopulares,
desaprovadas pela gorda humanidade.
 
Já sabias. Não te queixes. Colhe as favas,
as medonhas, do momento. Podes sempre
cozinhá-las com temperos escolhidos.
Sabe a pouco? Paciência. Satisfaz-te
com a fomes e compreende: o proveito
do banquete é estudar os comensais.
 
 
 
josé miguel silva
erros individuais
relógio d´água
2010





 

13 outubro 2026

antónio franco alexandre / duende

  
 
7.

Choro por ti, interminavelmente.
Sem poesia alguma, será que assim fico
mais feminino, diz? Na aula de boxe
hei-de esmagar um crânio, e levantá-lo
num plinto de cristal sobre esta cama
onde esqueci o clube a que pertenço.
Que farei eu, se me acontece
amor sem corpo ao corpo atravessado
e, contra tudo, quero o que não sou?
Também tu és criança, mulher, homem,
bicho tardio que me consome o rosto,
misturado comigo é quando existes.
Já de olhos secos me vesti de tudo,
até quando quiseres que seja nada.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002





 

12 outubro 2026

maria gabriela llansol / onde vais, drama-poesia?

  
XXXV
 
     Corre pela rua,
a mochila a bater-lhe nas pernas,
corre, como todos os humanos, pelas suas próprias lágrimas;
 
levanto-me, opressa. O texto ajuda-me. Entro em casa, subo
as escadas, vou ao seu quarto. Está sem alguém e sem uma pa-
lavra. Fecho a porta e desço. A rapariga que temia a impostu-
ra desce a meu lado,
as escadas duram o tempo que demora a contar-me a história
deles.
 
     Ele aproximou-se e disse-lhe:
posso ver?
à sua vontade!
Ele inclinou-se, abriu-a e olhou a nascente de todo o conflito.
 
     Ela disse-lhe:
já viu tudo?
já.
então feche.
     Ele fechou, levantou-se e pediu-lhe:
se não me der um beijo, julgarei que está ofendida.
não, não estou; mas você mirou-se na sua morte e os beijos
nos mortos são só piedade. Feche os olhos; não os quero
ver!
     Ele fechou os olhos. E ela, tomando a coragem de o fazer
voltar à vida, deu-lhe um forte par de bofetadas. Atónito, pôs-
-se a correr por entre as suas lágrimas.
 
     Acabadas as escadas, abriu-se a porta do jardim.
 
 
 
maria gabriela llansol
onde vais drama-poesia?
relógio d´água
2000




 

11 outubro 2026

natália correia / o livro dos amantes

  
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna.
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
 
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
 
 
 
natália correia
poemas
antologia poética
dom quixote
2018




10 outubro 2026

maria do rosário pedreira / este foi o nosso último abraço

  
 
Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
 
 
 
maria do rosário pedreira
o canto do vento nos ciprestes
gótica
2001




 

09 outubro 2026

louise glück / o poder de circe

  
 
Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.
 
Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.
 
Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,
 
sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.
 
Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi
 
que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,
 
previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas
 
que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém
 
vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
 
podia ter-te aprisionado.
 
 
 
louise glück
rosa do mundo, 2001 poemas para o futuro
tradução de José alberto oliveira
assírio & alvim
2001




08 outubro 2026

jorge luís borges / o cúmplice

  
 
Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a cifra (1981)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




07 outubro 2026

gottfried benn / vinde cá

  
 
Vinde cá, juntos falemos,
pois quem fala não morreu,
as labaredas já temos
para a fome que nos deu.
 
«Azuis», «vermelhos», digamos,
vinde cá, digo-vos eu,
vemos, ouvimos, ‘spiamos,
pois quem fala não morreu.
 
Só na tua solidão,
no ermo pardo que tiveres,
estás só, não há bustos, não
há diálogo nem mulheres,
 
e já quase escolhos toca,
e é bem fraco, o barco teu –
vinde cá, abri a boca,
pois quem fala não morreu.
 
 
 
gottfried benn
50 poemas
tradução vasco graça moura
relógio d’água
1998




06 outubro 2026

joão miguel fernandes jorge / um dia resta uma paisagem

  
 
Um dia resta uma paisagem
 
sobre as dunas a asa da ave
 
sobre as ondas o remo do barco
 
a viagem do sol
a água azul sonora.
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019





05 outubro 2026

fiama hasse pais brandão / no equinócio

 



 

Descendo, recomeça a olhar-se o sol
com as pálpebras
no equinócio, e pensa-se:
este lugar é firme tem colunas
de árvores
– muda-se o nome:
não é declive é o nível
todo liso do horizonte.
 
Muda-se o passo; o ócio
de quantas pedras estáveis tem a estrada,
de o monte
estar coberto de luz própria.
 
Agora tem-se próximo
o mínimo ser vivo:
o insecto descoberto sob a pedra
na humidade. Vê-se o caos:
a pedra muda-se, mostra
a sua face frígida,
a terra aí é secura
e tem inúmeros vermes desfazendo-a.
 
 
 
fiama hasse pais brandão
o texto de João zorro
o ar os tectos
editorial inova
1974





04 outubro 2026

Isabel de sá / prova de amor

  
 
Atingido por uma motivação avassaladora o poeta persegue o ofício. Surpreender-se com um olhar, uma palavra, escrever o poema que será a prova de amor sem cair no ridículo, não conseguir cortar o fio do imaginário.
 
Por que não resiste o poeta à beleza, eis a interrogação primeira
 
 
 
isabel de sá
semente em solo adverso (poesia reunida)
em nome do corpo (1985)
officium lectionis edições
2022
 



03 outubro 2026

ana luísa amaral / biografia (curtíssima)

  
 
Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!
 
Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas
 
(mas hoje penso
que, se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)
 
Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:
 
pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão
 
Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?
 
O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:
 
vestidos por tirar,
camadas por cumprir:
 
e mais:
imperfeição
 
 
 
ana luísa amaral
vozes
dom quixote
2011
 




02 outubro 2026

konstandinos kavafis / passagem


 

 

As coisas que, aluno, assustado imaginou, estão escancaradas,
reveladas diante de si. E anda por aí, e faz noitadas,
e deixa-se arrastar. E pois é (para a nossa arte) conveniente,
o seu sangue, jovem e quente,
a volúpia deita-se com ele. Seu corpo baixa a cerviz
por embriaguez erótica sem lei; e os jovens
membros a ela cedem.
                                                      E um simples rapaz desta maneira
Torna-se digno do nosso olhar, pela altaneira
Esfera da Poesia também ele passa momentaneamente –
o estético rapaz com o seu sangue jovem e quente.
 
 
 
konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994 


 



01 outubro 2026

ana hatherly / 463 tisanas

  
 
338
 
Aos domingos de manhã encontro-me com aquele que mais admiro neste momento. É um encontro fortuito sabiamente planeado. Ele vê-me sempre primeiro. Avança para mim e fala com animação. É tão elegante, tão chique. Fico emocionada. Oh desejo, que queres de mim? pergunto a mim mesma tristemente alegre.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006