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20 outubro 2026

eva gerlach / dos seus mínimos vestidos

 


 

 
Dos seus mínimos vestidos vejo-a levitar
muito por cima do horizonte.
Prende as árvores como se fossem molas de roupa,
as terras e os prados caem com a corda
em finas dobras nos meus olhos.
 
Enquanto imóvel a vejo desaparecer,
por entre nuvens recolho os secos
campos nos meus braços, para os separar.
 
 
 
eva  gerlach
alguns poemas
trad. colectiva
poetas em Mateus
quetzal editores
1994
 




24 maio 2010

eva gerlach / erosão








Atrás da colina havia uma espécie de vale.
Eu estava deitada, escondida até
me encontrarem. Nas copas
dos carvalhos uma inclinação
esboçou-se, os pássaros
não gostaram e levantaram voo.
Azul, o vislumbre de um desenho
desordenadamente tecido sob as asas
abriu-se, passaram tão
baixo – por cima de mim houve
um que gritou encontrei-te.








eva gerlach
alguns poemas
trad. colectiva
poetas em Mateus
quetzal editores
1994








23 junho 2007

o limiar e as janelas fechadas







O que é certo é que gostei de ti.
O resto não: se exististe,
e se assim foi, qual a cor dos olhos, ora verdes
ora cinzentos, deles levantou-se uma vez
um bando de andorinhas. Quais. As rápidas,
as que não andam, as que se amam no ar.
Como foi. Ficaste doente
ou coisa assim, levaram-te, muito se passou,
acho que ia ter outro filho e esqueci-me de ti
até ouvir-te, esta noite, a horas impossíveis,
vem comigo, é tempo. Larga tudo e sai,
espero por ti ao pé da cancela.
Mas cheguei lá e o trinco
estava solto, batia ao vento
contra o poste, fechei-o, voltei para trás,
a pensar em ti, que estiveste lá,
sabe-o Deus, que abriste a cancela,
que gostei de ti e também
que a porta não encaixava bem.










eva gerlach
alguns poemas
trad. colectiva
poetas em Mateus
quetzal editores
1994