12 outubro 2026

maria gabriela llansol / onde vais, drama-poesia?

  
XXXV
 
     Corre pela rua,
a mochila a bater-lhe nas pernas,
corre, como todos os humanos, pelas suas próprias lágrimas;
 
levanto-me, opressa. O texto ajuda-me. Entro em casa, subo
as escadas, vou ao seu quarto. Está sem alguém e sem uma pa-
lavra. Fecho a porta e desço. A rapariga que temia a impostu-
ra desce a meu lado,
as escadas duram o tempo que demora a contar-me a história
deles.
 
     Ele aproximou-se e disse-lhe:
posso ver?
à sua vontade!
Ele inclinou-se, abriu-a e olhou a nascente de todo o conflito.
 
     Ela disse-lhe:
já viu tudo?
já.
então feche.
     Ele fechou, levantou-se e pediu-lhe:
se não me der um beijo, julgarei que está ofendida.
não, não estou; mas você mirou-se na sua morte e os beijos
nos mortos são só piedade. Feche os olhos; não os quero
ver!
     Ele fechou os olhos. E ela, tomando a coragem de o fazer
voltar à vida, deu-lhe um forte par de bofetadas. Atónito, pôs-
-se a correr por entre as suas lágrimas.
 
     Acabadas as escadas, abriu-se a porta do jardim.
 
 
 
maria gabriela llansol
onde vais drama-poesia?
relógio d´água
2000




 

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