19 outubro 2026

fernando pinto do amaral / sete degraus para a escada de jacob

  
 
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«Tudo consigo arrasta o ano breve»
em doces labaredas. Cada dia
uma talvez-infância recuperando
as ilusões dos deuses, o enigma
de sermos sem fonteiras. Sonolentos,
abrimos cem caminhos, cremos nosso
o verde ainda húmido nas folhas,
o rápido cenário que nos leva
em troca de palavras, hesitantes
irmãos de toda a sombra, repetindo
o mais secreto nome. Quem engana
o vento pelas ruas?, quem semeia
segredos rente às horas vegetais
enquanto a chuva próxima dissolve
a cor de cada rosto? Vai ser noite
pra muita gente igual, um só momento
de responder ao céu. Como sabemos,
a terra fala em gritos inesperados
e o coração foge, não adianta:
as memórias apagam-se, ninguém
capaz de renascer-me. Ao som dos cães
volteiam os morcegos – como eu,
são náufragos de luzes invisíveis
cercando a madrugada, o seu desejo,
a sua amarga sede, o puro álcool
de tão cruel beleza! assim voltamos
ao fogo de mil sóis, assim revemos
o tempo e seus inúmeros perfis,
invulneráveis olhos sem sentidos
e a máquina das vozes orquestrando
felizes brownianos movimentos
de todo o quase-nada respirando
connosco, sem razão. As bocas ardem
na íntima loucura de sentirem
mover-se o labirinto, mas o fumo
dissipa as vãs auréolas, anuncia
a mão que escreve, o sangue, a boca anónima
guiando-nos a vida: «um pobre rio
que negro mar com altas ondas bebe.»
 
 
 
fernando pinto do amaral
sete degraus para escada de jacob
poesia reunida 1990-2000
dom quixote
2000



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