21 março 2026

gastão cruz / o tempo anterior

  
 
Chego de noite A casa é como um rio
arrasta corpos em surdina vozes
que só podemos escutar na
 
água, sonhos velozes
Chego de noite Sei que está presente
esse tempo total Nada esqueci
 
mesmo que não o lembre Oh como estende
as asas sobre mim A sua cor
incerta reconheço
 
 
gastão cruz
as pedras negras
os poemas (1960-2006)
assírio & alvim
2009





20 março 2026

pedro tamen / só me separa intenso do que foge

 
 
 
Só me separa intenso do que foge
pelo meio dos fumos e das micas
a bala que me apontes e se aloje
onde resido eu, e tu te ficas:
 
nesse lugar de goma almiscarada,
e mascarada (que não é possível
de modo outro ser-se), tu, a fada
de cor e pele e carne mais doível,
 
ergues a mão de lacre no que sou
e tocas essa vara, vime e lenho
no que passar, ou passe, ou já passou
 
– e assim é que me perco e que me ganho,
pois que por ti tudo o que tenho dou,
pois que de ti o que te dou retenho.
 
 
 
pedro tamen
os quarenta e dois sonetos (1973)
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




19 março 2026

manuel cintra / tinha filhos escondidos

 
 
 
Tinha filhos escondidos
Nos olhares plantados entre os filhos
Dos outros
 
 
E se nessa época o ar fosse fértil,
Caramba,
Muito o havia de emprenhar.
 
 
 
manuel cintra
do lado de dentro
editorial presença
1981




18 março 2026

adília lopes / para escrever

 
 
 
1
 
Para escrever
é preciso
ter pouco
que fazer
 
(tirando
esta quadra
não consegui hoje
escrever mais nada)
 
 
2
 
Quando a vida
é madrasta
a arte
não basta
 
(entre pato e peru
este bicho
cruza-se comigo
no Campo Sant’ Ana
Eva não faria melhor
do que eu
ao mundo para quadro de Isabelino
nada lhe falta, Rosa Alice)
 
Para escrever
é preciso
dinheiro
 
 
 
adília lopes
dobra
poesia reunida
versos verdes (1999)
assírio & alvim
2021




17 março 2026

albano martins / o mesmo nome

 
 
 
Cabem ali
todos os indícios. De nenhuma
casa, nem mesmo
dos seus alpendres, te consideras
dono e senhor. E,
por mais que escrevas,
escreverás sempre
o mesmo nome.
 
 
 
albano martins
por ti eu daria
o mesmo nome (1996)
glaciar
2021
 




16 março 2026

cristovam pavia / improviso aos poetas

 
 
 
Ó mastigadores do mundo:
Nas vossas veias de suba,
Nos vossos olhos se transmude,
Pelos vossos lábios se exprima…
Vós o desflorais tão dentro,
Com uma angústia tão profunda!:
Parece o corpo da amada
E é terra que se ilumina.
 
 
 
cristovam pavia
poesia
dom quixote
2010
 
 


15 março 2026

fernando namora / identificação

 
 
Não sei se conhecem
a lucidez de quando
a loucura se aproxima
e a sentimos no estalar
dos ossos.
Já não demora
o fatal amplexo,
ei-lo no sue gélido pacto
com o que dentro de nós
se despede
para ser sacrificado
ao alívio de o deixar.
 
 
 
fernando namora
nome para uma casa
livraria bertrand
1984
 




14 março 2026

antónio osório / catorze de março

 
 
 
Catorze de Março, dia de teus anos.
Nascentes cachos de uva, glicínia,
vestígios da olaia, multidões de ervas.
Mondo as primeiras sobre a sepultura
e custa fazer-lhes mal, tocar-te.
Em torno pinheiros e colinas levedam
a primavera. Entre canteiros correm
dois rapazes, sua avó varre a meseta
daquele corpo ao lado do teu.
Leio: piloto. Nunca o viste. Sem bússola.
Plâncton, ambos, no mar desconhecido.
 
 
 
antónio osório
a ignorância da morte
os cavalos de tróia
editorial presença
1982
 



13 março 2026

cesare pavese / paisagem II

 
 
 
Com o céu estrelado, a colina branqueja, de terra desnudada;
poder-se-iam ver os ladrões lá no alto. Na cova do vale
os bardos estão todos na sombra. Lá em cima também os há,
mas é terra de quem não precisa, aí não vão eles:
cá em baixo, na humidade, com a desculpa de andarem às trufas,
entram nas vinhas e roubam as uvas.
 
O meu velho deu com dois engaços caídos
entre as cepas e esta noite até ferve. A vinha já é pouca:
dia e noite na humidade, só nascem folhas.
Entre as cepas, vê-se sob o céu a terra desnudada
que de dia lhe rouba o sol. Lá em cima o sol queima
do nascer até se pôr e a terra está calcinada: vê-se mesmo de noite.
Lá não nascem folhas, a força vai toda para as uvas.
 
Apoiado a um bordão, na erva milhada, o meu velho
tem tremuras na mão: se os ladrões vêm esta noite,
salta do meio dos bardos e dá-lhes cabo do canastro.
A essa gente há que dar-lhes sem piedade, como animais,
que não hão-de ir contar. De vez em quando levanta a cabeça
cheirando o ar: parece-lhe que lhe chega, no escuro,
uma ponta de cheiro a terra, trufas arrancadas.
 
Nas encostas altas, que se estendem até ao céu,
não há sombra das árvores: os cachos arrastam-se pela terra,
tanto é o peso. Não se podem esconder:
distinguem-se lá no alto as manchas das árvores,
negras e escassas. Se tivesse a vinha lá em cima,
o meu velho esperá-los-ia de casa, na cama,
de espingarda apontada. Aqui no fundo nem sequer a espingarda
serve para alguma coisa: no escuro só há folhagem.
 
 
 
cesare pavese
trabalhar cansa
trad.carlos leite
cotovia
1997
 



12 março 2026

josé emílio pacheco / aguarela

 
 
 
O ar sangra sobre a cidade,
leve pomba que o falcão trespassa.
 
Não é ainda noite e o céu
cerrado está como em tormenta. Répteis
abandonam as suas tocas
com o medo feroz às costas.
 
Mas não passarão.
 
 
 
josé emílio pacheco
desde entonces (1975-1978)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 



11 março 2026

leopoldo maría panero / saint malcolm parmi les oiseaux

 
 
 
 
                                                                    Ao álcool
 
 
 
Quem grita, vingativo, no palácio sem nome,
quem grita, quem me força a viver como seu
látego estalando todos os dias nas minhas costas,
quem senão esta
perpétua tentação para… a dor do nada,
desta morte que convida, esta
perpétua obsessão de sofrer por nada, pelo
que não tem valor, e pelo que não é
esta morte, e esta
doce dor para ninguém e para todos,
esta doce dor como um pecado.
 
 
 
leopoldo maría panero
a canção do croupier do mississípi e outros poemas
trad. jorge melícias
antígona
2019
 




10 março 2026

andrea cohen / aquilo que se

 
 
 
Aquilo que se
pode matar com
 
uma mão não
se pode – com
 
um milhar
de mãos –
 
reaver.
 
 
 
andrea cohen
serenamente sobre as lanternas
trad. francisco josé craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2024




09 março 2026

alejandra pizarnik / árbol de diana

 
 
               
6
 
ela despe-se no paraíso
da sua memória
ela desconhece o feroz destino
das suas visões
ela tem medo de não saber nomear
o que não existe
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
árbol de diana (1962)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020
 


08 março 2026

aleksander kushner / a história não nos ensina nada

  
 
A história não nos ensina nada,
Mas, como um historiador disse uma vez – e não
Há razões para não acreditarmos nele  - por não a
                                                     conhecermos,
A história castiga-nos.
Não ensina, castiga. Olhos
E mais olhos é do que precisamos, e de prestar atenção.
 
Mais que uma preceptora
Ela é uma professora primária. Tantos temas terríveis
Nos seus manuais, nas suas crónicas…
Mas nós, sabes, não somos assim tão grandes.
Somos, sim, teimosos, de acordo
Com as palavras iniciais da desgastada professora:
“Pensem, está bem. sentem-se. Não se mexam.
                                               Escrevam isto.”
No fundo da sala, sonhamos com notas satisfatórias.
 
 
 
aleksander kushner
é por isso que a alegria é mais alta
poemas russos dos séculos vinte e vinte um
versões de luís filipe parrado
contracapa
2022
 


 

07 março 2026

macky corbalán / humanos

  
 
Leio-os como páginas escritas.
Atravesso os seus órgãos opacos, a sua pele,
o susceptível fio dos nervos.
É sempre o mesmo, em cada época:
rixas, acordos e desânimo. Mas há uma coisa
que eu não entendo: essa obscura,
repentina agitação
quando recordam.
 
 
 
macky corbalán
por alguma razão
antologia de poesia argentina
selecção e tradução de hugo miguel santos
contracapa
2024


06 março 2026

lawrence ferlinghetti / que podia ela dizer

  
 
7
 
Que podia ela dizer ao ursinho maravilha
e que podia ela dizer ao seu irmão
e que podia ela dizer
                              ao tipo com os pés virados para o futuro
que podia ela dizer à mamã
depois daquela vez que se deitou tão tesa
                                                             entre as flores de rebuçado
               naquela soalheira margem de um rio
                         onde pendiam fetos no ar recortado
                                   da respiração do amante
          e os pássaros enlouqueceram
                                               e atiraram-se das árvores
  para provar ainda quentes no terreno
                                                      as sementes dispersas de esperma
 
 
 
lawrence ferlinghetti
uma coney island da mente
tradução margarida vale de gato
antígona
2024
 



05 março 2026

john ashbery / decisões loucas

  
Sempre resolvo as coisas de algum modo mas
Foste tu que descobriste para mim aquilo
De que eu gosto, lagos e pinturas.
 
De noite soltaram-se as amarras
Ao romper do dia tinham desaparecido.
Tudo o que fiz foi deixar a chaleira ferver.
A silhueta familiar
Evitou que eu pensasse nisso.
 
Ficam vestígios.
Não falta nada.
Tudo está em ordem então,
As casas claramente mais modestas,
E sempre assim por diante…
Uma vista do parque de estacionamento.
 
Algumas frequências
Ainda o não abandonaram.
Ainda podes encontrar esses prazeres algures
Em velhos estábulos. A resposta
Negativa do ouvinte não afogou
A coisa muito simples deste mundo
Que nos ensinaram a respeitar
À medida que crescíamos.
Uma vírgula no olho de Deus.
O efeito desejado.
 
 
 
john ashbery
uma onda e outros poemas
tradução colectiva / joão barrento
poetas em mateus
quetzal editores
1992





 

04 março 2026

john freeman / rua 28

  
 
Todos aqueles anos em que vivemos
nas traseiras da florista, quando era hábito acordar
cedo para me pôr à janela a ver
homens de camisolas vermelhas a empurrar
carrinhos de hidrângeas, paletes de tulipas
da Holanda, ranúnculos
rosa-velho, magotes de jacinto
amarelo, uma fúria de cor debaixo
de lâmpadas de halogéneo ainda antes
das seis. Os donos dos restaurantes com
os seus casacos de pele pretos que chegavam
antes da alvorada obrigados a assistir como
cortesãos à passagem da beleza, aguardando
que esta se aprontasse enquanto do outro lado
da rua, no parque de estacionamento, não era raro
haver alguém, nas calmas, a mijar.
 
 
 
john freeman
mapas
trad. miguel cardoso
tinta da china
2019
 


03 março 2026

henry deluy / hoje o mar está longe de ti


 

 

Hoje o mar está longe de ti.
Para sempre. – E desta colina.
Para sempre a um metro dos teus olhos.
 
                         *
 
O espanto poderia ser uma intimidade.
Longa vida, meu pai, junto do teu viver.
 
 
 
henry deluy
primeiras sequências
trad. colectiva mateus, set. out. de 2000
quetzal editores
2002




 

02 março 2026

pedro loureiro / incrível como resiste a escória

 


 

 
Incrível como resiste a escória
como cresce e se multiplica no breu
imune a sulfatos e humanismo
mantém-se inerte, encoberta,
disfarçando seu odor
através de mutações morfológicas
para reaparecer de novo
leve e perfumado
como peras tenras
uma outra face
de um mesmo prisma
decompondo e dispersando
a mesma luz enferma
em suas falsas cores
 
 
 
pedro loureiro
astigmatismo ou redenção
ilustrações inma serrano & josé louro
editora urutau
2019







01 março 2026

ibn al-a´lam ash-shantamari / a morte, dona de quem sente

  
a morte, dona de quem sente,
está entre ti e tudo quanto almejas
não a esqueças da alva ao sol poente
e que nos olhos da memória a vejas.
 
seja ela o bálsamo do teu olhar
nos momentos em que tu medites,
quando a alma de ti se afastar
e no derradeiro estertor te agites
 
 
 
ibn al-a´lam ash-shantamari
o meu coração é árabe - a poesia luso-árabe
tradução de adalberto alves
assírio & alvim
1999