03 junho 2026

herberto helder / de tal maneira no tempo

 


 

 
de tal maneira no tempo se é que se enganam de tal maneira
sempre se enganam em qualquer coisa enganam-se
no tempo que pouco têm para morrer –
de tal maneira se enganam nas palavras que se enganam
na cabeça que têm
que a têm pouca –
e por isso quando metem os dedos na matéria
vê-se que a matéria não estava madura ainda –
que pressa é essa? é a de já lhes fugir janeiro e estarem ainda
em setembro ou outubro –
de que lhes valem as flores da época se trocam
rosas por margaridas silvestres?
de tal maneira os aromas nas narinas dos búfalos
e as borboletas de prata pousam
apenas em nomes vagos não em corolas ferozes
nas primaveras com grandes espaços entre palavras –
mas que procuram eles? nomes?
apenas nomes entre tantos desastres?
eu não sei, eu tremo de dor apenas
perante os nomes não vistos e aspirados tanto que apeteça
morrer por um nome ou dois ou três
juntos, exactos, repetidos,
como exactamente em pleno transe louco
entre as flores dos nomes como:
dicionário folha atrás de folha,
e mesmo assim é como uma espécie de medo,
com um tremor no fundo da nossa idade
que vamos ver onde estão as pessoas que fugiram
da nossa vida, e quando foi que lhes tocámos,
ou na camisa ou no cabelo ou ao acaso nos dedos,
e que nomes eram os nomes deles entre
todos os nomes da terra,
e quando foi: se foi na descoberta
ou nos fins dos meses ou
a meio de uma tarefa leve como pentear-se,
ou ressuscitar em plena luz pela
primeira vez
ou pela última vez, logo antes de sair das trevas
para as grandes danças entre o ar e a água,
sai agora: e corta o cordão,
e entre sangue, os olhos fechados, abre a boca toda,
e respira muito quase até cair bêbedo ou louco
pela voz: o nome e sobretudo nome a nome
cada coisa em torno até que o alcance
a ciência dos nomes todos,
coisa a coisa da terra afinal tão pequena
que mesmo ele a domina,
no domínio dos nomes,
e então suspende tudo com medo que ali acabe com um
                                                                     só nome
o múltiplo mundo matricial,
o mundo das mães loucas
 
 
 
herberto helder
poemas canhotos
porto editora
2015



02 junho 2026

antónio osório / na pele

  
 
Sou o teu guia,
tu o meu.
 
Por grutas, astúcias,
viagens ancestrais.
 
Nada de quem amou ignoras.
Sabes
e eu seu dar-te
na pele
o prazer do sol.
 
 
antónio osório
casa das sementes, poesia escolhida
a teia dupla
assírio & alvim
2006
 


01 junho 2026

henri michaux / a minha vida

  
 
Partes sem mim, minha vida.
Giras.
E eu ainda à espera de dar um passo.
Levas a guerra para outra parte.
Abandonas-me assim.
Eu nunca te segui.
 
Não percebo bem as tuas ofertas.
O poucochinho que eu quero, tu nunca me trazes.
Por causa disso que me falta, aspiro a tanto.
A tantas coisas, quase ao infinito…
Por causa desse pouco que falta, que tu nunca trazes.
 
1932
 
 
 
henri michaux
a noite revolta (1935)
antologia
trad. margarida vale de gato
relógio d´água
1999
 




31 maio 2026

daniel faria / outra explicação do homem

  
 
Sem sede nem repouso
Perdido no andar nos lembra
A amplitude
 
De pés juntos desce à água
E nem o gume da corrente poderá
Desatar-lhe os tornozelos
 
E ao descer nos lembra
O torvelinho
 
 
 
daniel faria
poesia
últimas explicações
quasi
2003




 

30 maio 2026

claudio rodríguez / ouve

  
 
Ouve: em qualquer corrente, em qualquer onda,
algo me impele para ti, pois sabe
que tu me ressuscitas, como a ave
ressuscita o ramo em que se imola.
 
E tu já nunca estás sozinha, olha,
que embora longe todo eu te abrace,
encosta o ouvido, deixa que to lave
como um búzio o meu coração: toda
 
a minha terra hás-de ouvir, não a maresia,
terra feita do espaço mais aberto.
E a sua voz, a minha, que eu quisera
 
meter-te alma adentro noite e dia,
clara como o teu nome, a descoberto
como este mar de amor meu que te espera.
 
[1953]
 
 
 
claudio rodríguez
sem epitáfio
trad.miguel filipe mochila
língua morta
2019
 




29 maio 2026

roberto juarroz / há que cair e não se pode escolher onde

  
 
Há que cair e não se pode escolher onde.
Mas há uma certa forma que o vento toma nos cabelos,
certa pausa no golpe,
certa esquina no braço
que podemos dobrar enquanto caímos.
 
É tão-só o limite de um signo,
a ponta que não se pensa de um pensamento.
Mas basta para evitar o fundo avaro de umas mãos
e a miséria azul de um Deus deserto.
 
Trata-se de dobrar um pouco mais uma vírgula
Num texto que não podemos corrigir.
 
 
 
roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018




28 maio 2026

roger wolfe / à espera

  
 
Observo o trânsito
que passa
no bar em que espero
não recordo quem.
Duas mulheres
tagarelam
à beirinha do passeio.
Não seria mau
que acontecesse de uma vez alguma coisa.
Que se pusessem a atravessar a rua,
por exemplo,
e um camião as convertesse em carne picada.
Travessuras da mente.
Digo eu.
É melhor deixar o trânsito
sossegado. Pedir outro café.
 
 
 
roger wolfe
fazer o trabalho sujo
tradução de luís pedroso
língua morta
2020
 




27 maio 2026

adam zagajewski / lá onde a respiração

  
 
Está só em cena
e não tem nenhum instrumento.
 
Coloca as mãos sobre o peito,
lá, onde nasce a respiração
e onde se extingue.
 
Não são as mãos a cantarem
nem o peito.
 
Canta o que está calado.
 
 
 
adam zagajewski
sombras de sombras
trad. marco bruno
tinta-da-china
2017




26 maio 2026

adonis / espelho do carrasco

  
 
– Dizes tu que és poeta?
 
De onde vens? Sinto a tua pele
      lisa e doce.
 
Carrasco, ouves-me?
Presenteei-te com a sua cabeça
Leva-a e traz-me a pele
Que esteja intacta
A pele é para mim o mais desejável
O mais caro, o mais belo
 
A tua pele ser-me-á tapete
Será do mais fino veludo
 
Disseste que és poeta?
 
 
 
adonis
arco-íris do instante
antologia poética
tradução de nuno júdice
dom quixote
2016
 




25 maio 2026

ángél gonzález / outras vezes

  
 
Queria estar noutro sítio,
melhor, noutra pele,
e averiguar se dali a vida,
pelas janelas de outros olhos,
se vê assim grotesca em certas tardes.
 
Gostava muito de conhecer
o efeito abrasivo do tempo noutras vísceras,
confirmar se o passado
impregna os tecidos com o mesmo sumo amargo,
se todas as lembranças em todas as memórias
libertam este cheiro
a fruta murcha e a jasmim podre.
 
Desejaria fitar-me
com as duras pupilas de quem mais me odeia,
para que assim o desprezo
destruísse os despojos
de tudo o que o esquecimento não há-de enterrar.
 
 
ángél gonzález
para que eu me chame ángel gonzález
uma antologia
selecção e tradução de miguel filipe mochila
língua morta
2018





 

24 maio 2026

anna akhmatova / no quadragésimo ano

  
 
3.
 
SOMBRA
 

                                                   Que sabe certa mulher
                                                           Sobre a hora da morte?
 
                                                                     O. Mandelshtam


 
Sempre mais elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura – tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me, mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti – bela de 1913 –
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar… Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
 
9 de Agosto de 1940. De noite.
 
 
 
anna akhmatova
poemas
trad. joaquim manuel magalhães e
vadim dmitriev
relógio d´água
2003






 

23 maio 2026

e e cummings / xix poemas

  
 
[xv]
 
quando as serpentes regatearem o direito a colear
e o sol fizer greve para ganhar o salário mínimo –
quando os espinhos olharem as suas rosas alarmados
e os arco-íris estiverem seguros contra a velhice
 
quando um tordo não puder cantar nenhuma lua nova
se todas as corujas não tiverem aprovado a sua voz
– e qualquer onda assinar sobre a linha ponteada
Senão um oceano é obrigado a fechar
 
quando o carvalho pedir licença à bétula
para criar uma bolota – os vales acusarem as suas
montanhas de terem altitude – e março
denunciar abril por sabotagem
 
então acreditaremos nessa incrível
humanidade inanimal(e não antes)
 
 
 
e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & alvim
1998



 

22 maio 2026

catarina santiago costa / sou uma daquelas crianças

 
Sou uma daquelas crianças
que receberam carvão no sapatinho.
Mas, se servir para assar pimentos e sardinhas,
nem tudo está perdido.
 
O que é um livro se não um pássaro
morto nas minhas mãos,
o lápis um galho retorcido e caquético,
o papel uma mortalha seca
carente de unguentos –
ao meu toque, tudo encarquilha.
 
“Tenho o coração cheio de poemas”
escreves-me, brilhando do outro lado da rua.
Por isso, perdurará em ti sempre
essa primavera de abelhas e joaninhas.
 
Embriagada de ti,
lembras-te esse tempo
em que os sinos eram
mais reais do que audíveis.
Na minha mente, anunciavam
amiudadas boas-novas.
 
A vida era um domingo sem fim
no bairro da Estrela.
Ia-se à missa para trocar beijinhos com o vizinho
do lado,
o rapaz mais tímido da paróquia,
que importava se não era baptizada.
 
 
 
catarina santiago costa
nervo/27 maio/agosto 2026
colectivo de poesia
2026