Santa Catarina,
o melhor lugar
para os irmãos
correrem
de um lado para
o outro com bilhas de gás
ameaçadores:
mau vinho pior poesia.
Ou refulgiam
imagens do topo azul da baía, células
a desorganizarem-se
ao vento sul.
Foi há tanto
tempo, foi no princípio
do bando;
entrava-se e saía-se numa correria
por portas a
respirarem
sobre os ombros
de miúdos
ainda sem idade
para aqueles preparos: esperma
nas fissuras do
corpo, nas comissuras dos lábios.
Carne um bocado
brutalizada
que algum poema
coroa
a bem da Literatura…
Porque no princípio
era o bando, o
Verbo do terror
com iguanas a
estraçalhar o gira-discos, apavorantes.
Havia quem
preferisse dormir
apesar do ruído
dos livros,
a cabeça
pousada no extintor
à espera de uma
maré silábica, salina
… nessa altura
ainda não sabíamos
quão injuriosa
pode a Cultura ser: é o fim
do século.
Afinal, que
temos nós aqui? – De um lado
o morto – já não
tuge (aparentemente) - , o esquife
a flutuar
descrevendo arcos de circunferência, lambendo
os ícones
tristonhos da Basílica, seis homens-lastro
com ele vão
pelo ar (mas não querem!), unhas enclavinhadas
nos retorcidos
da talha. –
Do outro:
memórias drásticas, saudade. Sem aviso,
pedra de
arremesso, cedem os vitrais
a uma vontade
caleidoscópica estilhaçando consigo
os pequenos
equilíbrios impressos ao nível do nervo,
onde mais se
nota a diferença entre aquilo que nos chega
(notícias) e o
conhecimento… o plaino
Afiado da
falta. E a verificação de uma hipótese
maldita: a
Eternidade passa bem sem nós.
Corria-se
então: com ferocidade direito a objectivas fotográficas,
direito a
gavetas cheias de cabras que tilintavam
à mínima
espreitadela, desconstruindo a ressaca democrática
da ordem. Lá fora,
mora o inimigo! Era só
sair a
acirrá-lo, regressar a casa, ver
os estragos
pela televisão.
Dias torcidos a
ferro, alguns com a suavidade
do tweed, ou em
lamúrias de sangue
mal drogado nas
veias, e depois o tal regresso
ao noticiário,
ao mito, à museologia.
Posso neste
palco afinal
lembrar dessa
Santa Catarina intimidades:
o quebra-mar
que cede, um petroleiro
que explode,
poemas jacentes
domando o mal,
o sangue difuso
em telefonemas
sussurrados. Deslizes
mínimos
corrigidos nas últimas provas, e
de novo sempre
sempre os segredos roubados
ao mundo
canalha. É a festa
a celebrar o
trabalho sujo que alguém fez
por nós. Cordas
da roupa enroladas nas pernas
para que os
tropeços da inspiração
dêem fruto: uma
guerra e peras
com episódios
escolhidos contra a ideia
latente da arca
de cânfora…
ou da bilha do
gás. Exaltação, peculiares
divindades,
vinde sobre os poetas derramar
a terrível
agenda das benesses, não sejais
unhas de fome!
paulo da costa domingos
hífen 11 maio 1998
o sítio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998