13 outubro 2026

antónio franco alexandre / duende

  
 
7.

Choro por ti, interminavelmente.
Sem poesia alguma, será que assim fico
mais feminino, diz? Na aula de boxe
hei-de esmagar um crânio, e levantá-lo
num plinto de cristal sobre esta cama
onde esqueci o clube a que pertenço.
Que farei eu, se me acontece
amor sem corpo ao corpo atravessado
e, contra tudo, quero o que não sou?
Também tu és criança, mulher, homem,
bicho tardio que me consome o rosto,
misturado comigo é quando existes.
Já de olhos secos me vesti de tudo,
até quando quiseres que seja nada.
 
 
 
antónio franco alexandre
duende
assírio & alvim
2002





 

12 outubro 2026

maria gabriela llansol / onde vais, drama-poesia?

  
XXXV
 
     Corre pela rua,
a mochila a bater-lhe nas pernas,
corre, como todos os humanos, pelas suas próprias lágrimas;
 
levanto-me, opressa. O texto ajuda-me. Entro em casa, subo
as escadas, vou ao seu quarto. Está sem alguém e sem uma pa-
lavra. Fecho a porta e desço. A rapariga que temia a impostu-
ra desce a meu lado,
as escadas duram o tempo que demora a contar-me a história
deles.
 
     Ele aproximou-se e disse-lhe:
posso ver?
à sua vontade!
Ele inclinou-se, abriu-a e olhou a nascente de todo o conflito.
 
     Ela disse-lhe:
já viu tudo?
já.
então feche.
     Ele fechou, levantou-se e pediu-lhe:
se não me der um beijo, julgarei que está ofendida.
não, não estou; mas você mirou-se na sua morte e os beijos
nos mortos são só piedade. Feche os olhos; não os quero
ver!
     Ele fechou os olhos. E ela, tomando a coragem de o fazer
voltar à vida, deu-lhe um forte par de bofetadas. Atónito, pôs-
-se a correr por entre as suas lágrimas.
 
     Acabadas as escadas, abriu-se a porta do jardim.
 
 
 
maria gabriela llansol
onde vais drama-poesia?
relógio d´água
2000




 

11 outubro 2026

natália correia / o livro dos amantes

  
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna.
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
 
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
 
 
 
natália correia
poemas
antologia poética
dom quixote
2018




10 outubro 2026

maria do rosário pedreira / este foi o nosso último abraço

  
 
Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
 
 
 
maria do rosário pedreira
o canto do vento nos ciprestes
gótica
2001




 

09 outubro 2026

louise glück / o poder de circe

  
 
Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.
 
Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.
 
Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,
 
sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.
 
Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi
 
que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,
 
previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas
 
que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém
 
vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
 
podia ter-te aprisionado.
 
 
 
louise glück
rosa do mundo, 2001 poemas para o futuro
tradução de José alberto oliveira
assírio & alvim
2001




08 outubro 2026

jorge luís borges / o cúmplice

  
 
Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
a cifra (1981)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




07 outubro 2026

gottfried benn / vinde cá

  
 
Vinde cá, juntos falemos,
pois quem fala não morreu,
as labaredas já temos
para a fome que nos deu.
 
«Azuis», «vermelhos», digamos,
vinde cá, digo-vos eu,
vemos, ouvimos, ‘spiamos,
pois quem fala não morreu.
 
Só na tua solidão,
no ermo pardo que tiveres,
estás só, não há bustos, não
há diálogo nem mulheres,
 
e já quase escolhos toca,
e é bem fraco, o barco teu –
vinde cá, abri a boca,
pois quem fala não morreu.
 
 
 
gottfried benn
50 poemas
tradução vasco graça moura
relógio d’água
1998




06 outubro 2026

joão miguel fernandes jorge / um dia resta uma paisagem

  
 
Um dia resta uma paisagem
 
sobre as dunas a asa da ave
 
sobre as ondas o remo do barco
 
a viagem do sol
a água azul sonora.
 
 
 
joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019





05 outubro 2026

fiama hasse pais brandão / no equinócio

 



 

Descendo, recomeça a olhar-se o sol
com as pálpebras
no equinócio, e pensa-se:
este lugar é firme tem colunas
de árvores
– muda-se o nome:
não é declive é o nível
todo liso do horizonte.
 
Muda-se o passo; o ócio
de quantas pedras estáveis tem a estrada,
de o monte
estar coberto de luz própria.
 
Agora tem-se próximo
o mínimo ser vivo:
o insecto descoberto sob a pedra
na humidade. Vê-se o caos:
a pedra muda-se, mostra
a sua face frígida,
a terra aí é secura
e tem inúmeros vermes desfazendo-a.
 
 
 
fiama hasse pais brandão
o texto de João zorro
o ar os tectos
editorial inova
1974





04 outubro 2026

Isabel de sá / prova de amor

  
 
Atingido por uma motivação avassaladora o poeta persegue o ofício. Surpreender-se com um olhar, uma palavra, escrever o poema que será a prova de amor sem cair no ridículo, não conseguir cortar o fio do imaginário.
 
Por que não resiste o poeta à beleza, eis a interrogação primeira
 
 
 
isabel de sá
semente em solo adverso (poesia reunida)
em nome do corpo (1985)
officium lectionis edições
2022
 



03 outubro 2026

ana luísa amaral / biografia (curtíssima)

  
 
Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!
 
Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas
 
(mas hoje penso
que, se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)
 
Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:
 
pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão
 
Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?
 
O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:
 
vestidos por tirar,
camadas por cumprir:
 
e mais:
imperfeição
 
 
 
ana luísa amaral
vozes
dom quixote
2011
 




02 outubro 2026

konstandinos kavafis / passagem


 

 

As coisas que, aluno, assustado imaginou, estão escancaradas,
reveladas diante de si. E anda por aí, e faz noitadas,
e deixa-se arrastar. E pois é (para a nossa arte) conveniente,
o seu sangue, jovem e quente,
a volúpia deita-se com ele. Seu corpo baixa a cerviz
por embriaguez erótica sem lei; e os jovens
membros a ela cedem.
                                                      E um simples rapaz desta maneira
Torna-se digno do nosso olhar, pela altaneira
Esfera da Poesia também ele passa momentaneamente –
o estético rapaz com o seu sangue jovem e quente.
 
 
 
konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994 


 



01 outubro 2026

ana hatherly / 463 tisanas

  
 
338
 
Aos domingos de manhã encontro-me com aquele que mais admiro neste momento. É um encontro fortuito sabiamente planeado. Ele vê-me sempre primeiro. Avança para mim e fala com animação. É tão elegante, tão chique. Fico emocionada. Oh desejo, que queres de mim? pergunto a mim mesma tristemente alegre.
 
 
ana hatherly
463 tisanas
quimera
2006



 

30 setembro 2026

alejandra pizarnik / os trabalhos e as noites

  
               
para reconhecer na sede o meu emblema
para significar o único sonho
para não me sustentar nunca outra vez no amor
 
fui toda oferenda
um puro errar
de loba no bosque
na noite dos corpos
 
para dizer a palavra inocente
 
 
 
alejandra pizarnick
antologia poética
los trabajos y las noches (1965)
tradução fernando pinto do amaral
tinta da china
2020
 



29 setembro 2026

antónio osório / mãe

  
Mãe que amavas como Florença,
a tua língua, ciprestes,
oliveiras, brancos bois;
Mãe que eras a ponte velha,
estrume jacente na campina,
o cemitério com laranjeiras
sobre o Arno
onde me levaste ao pé do teu Pai:
desterrada aqui continuas.
 
 
 
antónio osório
a ignorância da morte
ponte velha
editorial presença
1982
 




28 setembro 2026

artur do cruzeiro seixas / canto

  
Canto
canto como um desesperado!
O que julgas tu que faz mil milhões de reflexos
na superfície exausta do Tejo?
Por certo um desacordo
que atinge no coração o sol
os peixes
a tua visão impressionista.
A árvore não dá saborosos frutos
apenas porque te ama
e a tempestade
desespera-se da sua impotência.
O amor é uma ilusão
uma excepção ou um excesso?
Oh tu homem civilizado julgas-te vivo
quando és apenas uma perpétua imitação
um vil ressuscitado de mortas civilizações.
O sonho é o que te resta
mas o seu peso é excessivo
para a imensa fragilidade das palavras
que são afinal a tua coluna vertebral.
 
Todo o espaço é compacto
e tu homem
és o oco
o vazio.
 
Áfricas, 70
 
 
 
cruzeiro seixas
viagem sem regresso
tiragem limitada
2001
 




27 setembro 2026

ricardo reis / aguardo, equânime, o que não conheço

  
 
Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.
 
13-12-1933
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




26 setembro 2026

bernardo soares / nenhum problema tem solução

  
Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o sentimento, os problemas da inteligência, e fazêmo-lo ou por cansaço de pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.
 
Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão, nunca a podemos resolver.
 
Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.
 
18-7-1916
 
 
fernando pessoa
livro do desassossego por bernardo soares. vol.I
presença
1990
 


25 setembro 2026

pedro homem de mello / povo

  
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
 
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!
 
Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!
 
Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!
 
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!
 
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seio...
Mas a tua vida, não!
 
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!
 
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
 
 
pedro homem de mello
miserere (1948)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983





24 setembro 2026

antónio pedro / devagar

  
X
 
Sei lá das coisas que eu não fiz, apenas
Nunca tive remorso de as fazer…
Não tenho mágoas nem penas,
Tenho apenas
Muita pena
De não ter
Esses remorsos e penas
Que me vinham de viver:
 
Morto-vivo que ando apenas
Sem coragem p’ra morrer.
 
 
 
antónio pedro
devagar 1929
poesia (1926-1929)
edições cosmorama
2016