13 agosto 2026

josé emílio pacheco / encontro

  
 
Já me encontrei comigo numa esquina do tempo.
Preferi não me dirigir palavra,
em vingança por tudo o que a mim mesmo fiz com sanha.
E passei ao largo, e deixei-me a falar sozinho.
– com grande ressentimento, pois claro.
 
 
 
josé emílio pacheco
siglo passado (desenlace)  (1999-2000)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 



12 agosto 2026

carlos de oliveira / estrelas

  
 
O azul do céu precipitou-se na janela. Uma vertigem, com certeza. As estrelas, agora, são focos compactos de luz que a transparência variável das vidraças acumula ou dilata. Não cintilam, porém.
Chamo um astrólogo amigo:
«Então?»
«O céu parou. É o fim do mundo».
Mas outro amigo, o inventor de jogos, diz-me:
«Deixe-o falar. Incline a cabeça para o lado, altere o ângulo de visão».
Sigo o conselho: e as estrelas rebentam num grande fulgor, os revérberos embatem nos caixilhos que lembram a moldura dum desenho infantil.
 
 
carlos de oliveira
sobre o lado esquerdo
trabalho poético
livraria sá da costa editora
1982




11 agosto 2026

victor oliveira mateus / o retrato de wilde

  
 
o retrato que wilde
escondia atrás da porta
não era de nenhum jovem
que ele tivesse conhecido
nos lupanares de londres
ou nas deambulações que fizera
pelo norte de áfrica
com gide ou com bosie
 
o retrato que wilde
escondia atrás da porta
trouxera-o ele de dublim
era uma parte de si
(a consciência moral)
que ele plantara no parapeito da janela
mas veio um pássaro e comeu-a
 
o retrato não passava de um fantasma
(clone dele mesmo)
de que nem ele se apercebia
mas que encarquilhava apodrecia
exatamente como acontece connosco
quando decidimos ser nós próprios
sem atenuantes nem desculpas
 
 
 
victor oliveira mateus
uma casa no outro lado do mundo
labirinto
2021




10 agosto 2026

egito gonçalves / o anjo do relógio / chartres

  

Ainda o vi, o anjo do relógio. Era como Rilke
nos dissera: nada sabia do nosso ser,
sorria no seu pétreo resplendor, apenas
segurando a mensagem da sombra
que obedecia à convenção das horas. Asas curtas
nos ombros, demasiado curtas
para o voo, para qualquer viagem…
 
Na segunda vez já não estava. O sorriso
estatelara-se
no solo. Rilke saberia já da tempestade
que assaltaria a forte catedral
para deixar o poema solitário?
Ou o anjo
tentara com as suas asas frágeis
quebrar o tempo, o cansaço das horas
negadas às estrelas?
 
                                            24.7.91
                    de E No Entanto Move-se
 
 
 
egito gonçalves
apeadeiro
revista de atitudes literárias
nr. 1 primavera 2001
quasi
2001
 


09 agosto 2026

maria f. roldão / carne de ébano

 
 
O sangue castanho do pau-ferro
sobe pelos pés baloiçando as traves.
Sustém os movimentos síncronos
dos músculos – breves estalidos de
 
caruncho, tão alegre nos túneis
abertos. Os pés da cama enchem-se
de febre – tesão no trepidar dos veios.
Líquido amniótico que atravessa
 
o estrado e as barras laterais
quase a fazer nascer, amparar,
com mãos de madeira,
o orgasmo em cima dela.
 
A cama recolhe o cansaço
                    e embala-o.
 
 
 
maria f. roldão
a cadeira de mogno
edição do autor
2025
 




08 agosto 2026

paulo campos dos reis / as chávenas do meu tio agora são minhas

  

A minha mãe não as queria usar
porque são muito lindas
e podiam estragar-se na máquina
de lavar a loiça.
 
Fiquei com as chávenas do meu tio
mas lavo-as à mão com cautela.
 
A minha mãe deu-mas e não a quis decepcionar.
 
Com o uso imoderado, entretanto
porque são muito lindas
parti-as todas.
 
As chávenas do meu tio que
a minha mãe me deu.
 
Guardei os cacos num papel dobrado.
 
 
 
paulo campos dos reis
habilitações literárias
volta d´mar
2022
 



07 agosto 2026

emily dickinson / sem saber

  
 
Sem saber quando virá a Aurora,
Abro todas as Portas,
Ou terá Asas, como se fosse Pássaro,
Ou, como Praia, Vagas –
 
 
emily dickinson
duzentos poemas
trad. ana luísa amaral
relógio d´água
2014
 





06 agosto 2026

allen ginsberg / um asfódelo

 



 

 
Ó meu caro doce e rosado
                inalcançável desejo
… que triste, não há maneira
                de mudar o doido
asfódelo cultivado, a
                realidade visível…
 
e as pétalas espantosas
                da pele – o quanto me inspira
estar assim deitado na sala que vive
                de visitas é brio e nu
e sonhando, na ausência
                da electricidade…
vezes sem conta a comer a raiz baixa
                do asfódelo,
destino de cinza…
 
                rolando em ímpeto de geração
no sofá às flores
                como numa margem de Arden –
minha rosa hoje à noite tão só
                a prenda da minha própria nudez.
 
 
                                                        Outono, 1953
 
 
 
allen ginsberg
uivo e outros poemas
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2014



05 agosto 2026

antónio gancho / segunda

  
 
Por sobre a noite uma voz me preenche
e assim se dirige uma voz por sobre a noite
uma ausente luz desce, mexe e enche
o coração açoitado e onde o açoite
 
E é por sobre a noite que uma voz assim
e que assim dirigida se me a mim, se me a mim
e assim por sobre ausente uma desce e enche
luz que preenche o coração em açoite
 
E assim o poema e assim finalizado
e por sobre a noite ai uma luz a mim
e onde o açoite o coração açoitado
e é por sobre a noite que uma voz assim
 
 
 
antónio gancho
o ar da manhã (1960 - 1967)
o ar da manhã
assírio & alvim
1995




04 agosto 2026

eugénio de andrade / eu começara a ganhar raízes

  
 
Eu começara a ganhar raízes pelas barreiras. Ia aprendendo a conhecer os répteis pelo rumor. Quando o sol apertava, uma cobra azul, não, verde, não, azul, aproximava-se, os olhos cor de basalto. Ficava por ali a olhar-me, eu a olhá-la. Fascinados. Um dia não sei que me deu, corri atrás dela, entrou num buraco de silvas, ainda lhe acertei com a pedra, por momentos a cauda agitou-se crispada em convulsões, depois desapareceu, talvez lhe tivesse quebrado a espinha, nunca mais a vi. Era azul. Verde. Um braço de sol.
 
 
 
eugénio de andrade
limiar dos pássaros
limiar
1976
 


03 agosto 2026

federico garcia lorca / norma e paraíso dos negros





 
 
Odeiam a sombra do pássaro
na preia-mar da branca face
e o conflito de luz e vento
no salão da neve fria.
 
Odeiam a flecha sem corpo,
o lenço exacto da despedida,
a agulha que mantém pressão e rosa
no rubor gramíneo do sorriso.
 
Amam o azul deserto,
as vacilantes expressões bovinas,
a mentirosa luz dos pólos,
a dança curva das águas na margem.
 
Com a ciência do tronco e do ancinho
enchem o barro de nervos luminosos
e patinam lúbricos por águas e areais
provando o frescor amargo à sua saliva milenária.
 
É no azul crepitante,
azul sem nenhum verme nem pegada adormecida,
onde os ovos de avestruz são para sempre
e vagueiam intactas as chuvas bailarinas.
 
É no azul sem história,
azul de uma noite sem temor de dia,
azul onde a nudez do vento vai partindo
os camelos sonâmbulos das nuvens vazias.
 
É ali que os torsos sonham sob a gula da erva.
Ali os corais embebem o desespero da tinta,
os que dormem apagam o perfil sob a madeixa dos seus caracóis
e fica o espaço da dança sobre as derradeiras cinzas.
 
 
 
federico garcia lorca
nova iorque num poeta
trad. antónio moura
hiena editora
1995
 
 


02 agosto 2026

ricardo reis / prefiro rosas, meu amor, à pátria,

  
 
Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.
 
Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.
 
Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,
 
Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?
 
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
 
Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva.
 
1-6-1916
 
 
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




01 agosto 2026

cesário verde / heroísmos

  
 
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
 
Eu temo o largo mar, rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.
 
Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’ água quase assente,
 
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
 
                                                                                       Lisboa
                                          Porto, Diário da Tarde, 7 de fevereiro de 1874
 
 
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024




 

31 julho 2026

nuno guimarães / bergen-belsen

  
 
Abre-se alvorecida a chaga que nos toca
arde infindável como
se fruto acalentasse. Ou rio. Ou tocha
de cegueira.
Infindável como se
doesse à lage à superfície o corpo que lhe pesa
(linear)
morrendo.
 
 
 
nuno guimarães
o estio
entre sílabas e lavas
poesia completa
assírio & alvim
2024
 



30 julho 2026

rui diniz / lisboa

  
 
Nas sacadas das casas uma mulher
de febre degola outra mulher com
o som das persianas. A cidade cada
vez mais anoitece. Vende-se a noite.
Cais do Sodré, duas da manhã.
Nas janelas fechadas da beira do cais
uma mulher tece as desdémonas de sangue.
Há rixas mortais nas adegas.
E os copos de grossos bordos destilam
espesso vinho. Nas varandas de ferro
junto ao rio a mulher suicida-se.
Questão de um amor no corpo e
Uma doença no mar. Os barcos,
êxito haja, deflagram sua vela
rôta no mar, e abalam do
fétido porto, a caminho de voltar.
 
 
 
rui diniz
ossos de sépia
noemas
língua morta
2022




29 julho 2026

manuel de freitas / aurora(s)

  
«Era um cão com muita teoria»
– explicou-nos, junto ao aquecedor,
na certeza de que Todorov
não frequentou a travessa do Alcaide,
ao Combro. Aurora, Dona Aurora:
guardiã provisória do declínio
(cor-de-laranja), juro) das paredes
ou dos dias – não há diferença.
 
Fiz questão de tirar eu próprio
do frigorífico a segunda Sagres.
Já houve naquela rua sete auroras
– não é um verso, apenas um dado
Estatístico, vindo de quem sabe.
Algumas, com «histórias verdadeiras»,
casaram ou morreram – tanto faz.
 
O cão, sem nome, aceita o favor
da trela nesta «noite demasiado morta»
(volta a dizer Aurora). É normal,
há coisas que acontecem sob a sombra
desmentida da cidade. Piano, dessa infância
triste, a apodrecer agora numa taberna
colorida. «P’ra mim é tinto» – repetem
já sem clientes os mais pequenos altares.
 
Enquanto um tecto sobre nós, vazio,
esconjura metáforas e recusa a noite.
 
 
 
manuel de freitas
[ sic ]
assírio & alvim
2002




28 julho 2026

manuel alegre / que somos nós

  
 
Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?
 
Que somos nós senão permanecemos
no por nós transformado em espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos
 
para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais do que
 
o sol do que fazemos. Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.
 
 
manuel alegre
o canto e as armas
centelha
1974
 



27 julho 2026

joão pedro grabato dias / a arca

  
CCXCVII
 
Se o teu chefe não for o mais humilde
no falar e na acção e no aceitar
da alheia fala e do agir alheio,
retira-lhe a chefia. Se ele não
souber pedir, não saberá, no
mando, ver e encontrar quem execute
alta ou baixa função. E se baseia
em pura força impura autoridade
é porque já, poedeira, agita a asa
e prepara a postura, o bocacú.
 
 
 
joão pedro grabato dias
odes didácticas
a arca, ode didáctica na primeira pessoa, 1971
tinta da china
2021
 



26 julho 2026

fernando pessoa / no limiar que não é meu

  
 
No limiar que não é meu
Sento-me e deixo o irreflectido olhar
Encher-se, sem eu ver; de campo e céu.
Se é tarde ou cedo, deixo de notar.
Nada me diz de si qualquer coisa que eu
Possa gozar.
 
Pelos campos sem fim
Sinto correr, porque na face o sinto,
Um vago vento, estranho todo a mim.
Não sei se penso, ou em que dor consinto
Que seja minha ou desespero sem ter fim,
Ou se minto.
 
Na inútil hora
Eu, mais inútil que ela, sem sentir
Fito com um olhar que já nem chora
A Dor ou desdém, dolo ou infiel sorrir,
O absurdo céu onde nenhuma coisa mora
Para eu fruir.
 
Apenas, vaga
Não uma esperança, mas uma saudade
Do tempo em que a esperança, como vaga,
Dava na praia da minha ansiedade,
Me toma e um surdo marulhar meu ser alaga
De vacuidade.
 
Mas acordo e com vão
Olhar ainda, mas já diferente,
Por estar ausente dele o coração,
E eu outra vez, nem mesmo descontente,
Fito o céu calmo, o campo, a alegre solidão
Inconsciente.
 
Nada, só o dia
— Se é tarde ou cedo continuo a errar —,
Alheio a mim, a tudo dá a alegria
De não ter coração com que agitar
O corpo. E, quando vier a noite, tudo esfria
Mas sem chorar.
 
Isto e eu comigo
Posto no eterno aquém das coisas calmas
Que a vida externa mostra ao céu amigo —
Campos ao sol, vivas flores almas.
Isto só e não ter o coração abrigo
Nem sol as almas.
 
16-2-1920
 
 
fernando pessoa
novas poesias inéditas
ática
1993




25 julho 2026

álvaro de campos / o sono que desce sobre mim,

  
 
O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
 
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
 
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
 
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo-andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
 
Meu Deus, tanto sono!...
 
28-8-1935
 
 
 
álvaro de campos
poesias de álvaro de campos
fernando pessoa
ática
1993