03 março 2026

henry deluy / hoje o mar está longe de ti


 

 

Hoje o mar está longe de ti.
Para sempre. – E desta colina.
Para sempre a um metro dos teus olhos.
 
                         *
 
O espanto poderia ser uma intimidade.
Longa vida, meu pai, junto do teu viver.
 
 
 
henry deluy
primeiras sequências
trad. colectiva mateus, set. out. de 2000
quetzal editores
2002




 

02 março 2026

pedro loureiro / incrível como resiste a escória

 


 

 
Incrível como resiste a escória
como cresce e se multiplica no breu
imune a sulfatos e humanismo
mantém-se inerte, encoberta,
disfarçando seu odor
através de mutações morfológicas
para reaparecer de novo
leve e perfumado
como peras tenras
uma outra face
de um mesmo prisma
decompondo e dispersando
a mesma luz enferma
em suas falsas cores
 
 
 
pedro loureiro
astigmatismo ou redenção
ilustrações inma serrano & josé louro
editora urutau
2019







01 março 2026

ibn al-a´lam ash-shantamari / a morte, dona de quem sente

  
a morte, dona de quem sente,
está entre ti e tudo quanto almejas
não a esqueças da alva ao sol poente
e que nos olhos da memória a vejas.
 
seja ela o bálsamo do teu olhar
nos momentos em que tu medites,
quando a alma de ti se afastar
e no derradeiro estertor te agites
 
 
 
ibn al-a´lam ash-shantamari
o meu coração é árabe - a poesia luso-árabe
tradução de adalberto alves
assírio & alvim
1999
 



 

28 fevereiro 2026

al berto / doze moradas de silêncio

  
7
 
tingir a ponta dos dedos e do sexo
na tinta permanente dos corpos… desejar-te
de olhos fechados sentado num jardim público
 
de vez em quando
sublinhar determinadas palavras que se confundem ao mel
escutar atentamente o latejar fogoso da terra… sentir
os escaravelhos enrolarem excrementos verdes
junto ao rumor imperceptível das casas desabitadas
 
ler apressadamente um jornal ou uma carta esquecida
escrever um bilhete postal:
 
                Cheguei bem. escrevo-te um dia destes
 
recolher folhas secas delgadas hastes quebradas
pedaços de musgo para uma insuspeita colecção
minúsculos lamentos escondidos pelos bichos
no jardim… perseguir um cão sem rumo que te recorda
 
 
 
al berto
doze moradas de silêncio 1978/1979
o medo
assírio & alvim
1997
 




27 fevereiro 2026

daniel faria / a criança fecha os olhos no muro

  
 
A criança fecha os olhos no muro
Conta o tempo que os amigos demoram
A transformar-se
 
Fecha os olhos no interior dos números
Olha para dentro e em redor e encontra-se
A si mesma
A criança pergunta se há-de ir ter consigo
 
Ela quer encontrar os amigos, ela quer
Que lhe respondam. Ela calcula a voz alta
A altura do muro, a progressão do silêncio
 
 
 
daniel faria
poesia
das inúmeras águas
quasi
2003




 

26 fevereiro 2026

fiama hasse pais brandão / ermo

  
 
Esta onda recua deixando-me
presa ao mar pelo cheiro das marés.
Sentir como um elemento natural
se junta a outro numa só imagem.
Correr pelo declive atrás dos pequenos rolos
de espuma infantil e subir
como que empurrada pela leveza.
Ter surpresa e terror
e ontologicamente transformá-los um dia
numa erma visão, essência do verso.
 
 
fiama hasse pais brandão
eremitério
obra breve, poesia reunida
assírio & alvim
2017



25 fevereiro 2026

fernando alves dos santos / irmão

  
De Espanha me chama meu irmão,
chamamento andaluz
que vem de Leão.
 
A voz aranha do meu quintal
se enleia esbelta
no frágil pardal.
 
Baixelas de prata da solidão
das margens do rio onde sou delta
e sou irmão.
 
 
 
fernando alves dos santos
diário flagrante [poesia]
edição perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
2005
 



24 fevereiro 2026

henrique risques pereira / o tempo passa rápido

  
 
O tempo passa rápido entre as coisas não esquecidas
e tudo volta ao sonho que está ao meu lado
sombra maligna que se espalha por galáxias distantes
estranhos espaços
cores esvoaçantes
tudo impreciso
suspenso
sem memória
sem vida.
 
 
 
henrique risques pereira
transparência do tempo
(poesia)
edição de perfecto e. cuadrado
quasi
2003




23 fevereiro 2026

fátima maldonado / nocturno

  
 
Quando ao adormecer
partimos à procura
da face dos antigos
amores sufocados
renascem provisórios,
como se vai à pesca
levando numa caixa a isca torturada
ou na boca a faca se transporta
antes de mergulhar à procura das ostras,
entre as pálpebras sustemos,
sem sombra de recuo
a fé de destrinçar por entre moribundos
os limos dos desejos, as folgas da tensão,
as faces dos amados.
É sempre em quartos baixos
de vidros sobre as portas
ao fundo de corredores
que se inclina a face por entre os nossos braços
e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,
os ternos nomes libertos dos esquifes,
os lázaros no fim sempre ressuscitados
a cabeça ao fazer o gesto do encontro
acorda o corpo vivo que se sente enganado
e vai para a cozinha remoendo ameaças
deitar da cafeteira o jorro reluzente.
 
 
 
fátima maldonado
os presságios
os encontros
editorial presença
1983
 




22 fevereiro 2026

álvaro de campos / quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?

  
 
Quando nos iremos, ah quando iremos de aqui?
Quando, do meio destes amigos que não conheço,
Do meio destas maneiras de compreender que não compreendo,
Do meio destas vontades involuntariamente
Tão contrárias à minha, tão contrárias a mim?!
 
Ah, navio que partes, que tens por fim partir,
Navio com velas, navio com máquina, navio com remos,
Navio com qualquer coisa com que nos afastemos,
Navio de qualquer modo deixando atrás esta costa,
Esta, a sempre esta costa, esta sempre esta gente,
Só válida à emoção através da saudade futura,
Da saudade, esquecimento que se lembra,
Da saudade, engano que se deslembra da realidade,
Da saudade, remota sensação do incerto
Vago misterioso antepassado que fomos,
Renovação da vida antenatal, [...]
Absurdamente surgindo, estática e constelada
Do vácuo dinâmico do mundo.
 
Que eu sou daqueles que sofrem sem sofrimento,
Que têm realidade na alma,
Que não são mitos, são a realidade
Que não têm alegria do corpo ou da alma, daqueles
Que vivem pedindo esmola com a vontade de perdê-la...
Eu quero partir, como quem exemplarmente parte.
Para que hei-de estar onde estou se é só onde estou?
Para que hei-de ser sempre eu se eu não posso ser quem sou,
Mas isto tudo é como uma realidade longínqua
Daqueles que não partiram ou daqueles
Cujo lar é nenhum e de memória
Quando, navio [...], deixaremos o lar que não temos?
 
Navio, navio, vem!
Ó lugre, corveta, barca, vapor de carga, paquete,
Navio carvoeiro, veleiro de mastro, carregado de madeira,
Navio de passageiros de todas as nações diversas,
Navio todos os navios,
Navio possibilidade de ir em todos navios
Indefinidamente, incoerentemente,
À busca de nada, À busca de não buscar,
À busca só de partir.
À busca só de não ser
À primeira morte possível ainda em vida —
O afastamento, a distância, a separar-nos de nós.
 
Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada...
Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
Do fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
Do olhar velado divino.
 
Navio quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem.
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!
 
28-10-1924
 
 
 
álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993




21 fevereiro 2026

joão miguel aragão / semente

  
 
Seja o verso
a luz que visita
algum desvão mais obscuro.
Seja, sob a pólvora, o pássaro
que segue o périplo do pólen,
na trincheira cava e descobre
a semente
que já a lama cobre.
 
 
 
joão miguel aragão
pacto
poética edições
2025




20 fevereiro 2026

izidro alves / identificação

  
 
As lágrimas
Foram o que de mais puro
Trouxe da infância
 
E a fisga
Para atirar ao céu
O mais obsceno.
 
 
 
izidro alves
cédula do mundo
labirinto
2025




19 fevereiro 2026

josé carlos barros / a música

  
 
De algumas músicas que há muitos anos
sobre todas as coisas verdadeiramente nos tocaram
dizemos mais tarde que «envelheceram mal»
como se elas tivessem mudado na sua estrutura
e nós permanecêssemos jovens.
 
 
 
josé carlos barros
o uso dos venenos
língua morta
2018
 




18 fevereiro 2026

josé tolentino mendonça / coisas da tristeza

  
Uma palavra uma casa e esse rastro
ardendo lentamente a solidão
Oh quem pudesse ainda reconhecer
a doce mãe do soldado
nas dispersas sombras das vigias
 
Colhesse a rapariga lilases como outrora
as crianças demandassem os terraços
ao peregrino assomo do pastor
e o seu canto acordasse trémulas luzes
quando recolhe o dia
 
Mas o vento é um invasor impiedoso
destrona as divindades do bosque
 
 
 
josé tolentino mendonça
longe não sabia
presença
1997




 

17 fevereiro 2026

sebastião da gama / caravela perdida

 



 

 
Não sabe já, perdida caravela,
não sabe a minha voz o que demanda.
(Será talvez seu rumo andar perdida…)
Ainda bem, que assim não chega nunca:
a virgem ansiedade da partida
lhe anima a toda  a hora a vela panda.
 
Chegar? Pra quê, se era descer as velas
e era baixar o ferro, era parar?...
Antes errar, inciente de que lado
ficam agora as águas percorridas
e de que lado o Mar por navegar.
 
Caravela perdida, minha voz,
eia!, retumba o ar de teus acentos!
Pinta com tua cor todos os ventos!
Rompe!, vibra!, estremece! – Ah minha voz!,
e não quebres o ritmo, e não intentes
perguntar por que cantas, porque cantas.
 
 
 
sebastião da gama
cabo da boa esperança
ed. ática
1959
 



16 fevereiro 2026

adolfo casais monteiro / mas a vida continua

  
 
Amo a carícia das coisas
sem antegosto de inferno
nem sonhos de paraíso.
Amo o que dás, vida eterna!
Amo o que existe, sem remorso.
Se sofro, vida, bem sei
que não mentia o teu sorriso:
puseram grades nas fontes
– mas a vida continua!
 
 
 
adolfo casais monteiro
noite aberta aos quatro ventos (1943 e 1959)
poesias completas
imprensa nacional-casa da moeda
1993




 

15 fevereiro 2026

robin blaser / senta-te confortavelmente

 



 

 
senta-te confortavelmente
aqui junto a este lume de rosas
e escuta o canário da tua mente
agora depois
salta para o céu
quando rodar por aqui
mas refreia-o na tendêmcia
para morder coisas bravias,
agara-te bem ao frenesim
e cavalga-lhe os sussurros
bem, não esperavas que fosse tudo simpatia
no caminho para a casa do perigo,
pois não?
 
                                                29 de Janeiro de 2004
 
 
 
robin blaser
pullll lllllll
poesia contemporânea do canadá
trad. john havelda, isabel patim & manuel portela
antígona
2010
 
 
 
 


14 fevereiro 2026

marcos foz / enublado dizes

  
[…]
 
& fulmina-nos o que vem de fora
simples estados pontilham
o valado na curvatura dos crânios
exibem um rasto movediço alegram
nos enfim em trajo despreocupado;
alheios estão às nossas falhas aos
destroços da caravela do prometido
anseio engarrafado fora do
alcance da decomposição natural
neste mundo de bicos garras ciladas
mais justo afinal que o esfarelar
da prosa e o esgotamento em verso;
o quê quem pontas celestes por
resolver no relatório do não-suicidado:
as lanças darão floresta, um estandarte
o sol, e o céu – acampamento, inspirado
fôlego imprevisto – de empréstimo
em empréstimo, de fevereiro a fevereiro,
nozes espalhadas fazendo obséquio
longe do texto junto à corrente do reanimado
por entre pequenas mazelas empele amorenada
as falanges esforçadas no quebrar –
desanuviado gostaria de ser,
neste exacto ponto, não pela estaca;
pelo segredo da vida – estão a ver?
 
[…]
 
 
 
marcos foz
enublado dizes
edição do autor
2024
 




13 fevereiro 2026

eduarda chiote / o rapaz das rosas

  
 
1.
 
O poeta surgira das alvas rosas
pois, nelas, uma ardência
gelada
concentrava o purificado odor do ramo
calcinado – São para si: disse.
– Não faço anos, retorqui, surpreendida.
“Bem sei; mas as que lhe ofereço
não têm a volatilidade
da sua exaustão delicada.
São intemporais
e intocáveis”. Reparei que vestia uma túnica larga
por onde o magro corpo, íntimo e casto descia
até aos pés descalços de mistério e de baixa
entropia: pois e apenas
imaculado e híbrido, bondoso
me sorria; de modo que lhe perguntei
porque me escolheste: - Acaso para louvar até ao
fim a tua culposa santidade?
 
 
2.
 
Escuta: sou a embrionária e perene pele
da matéria primordial das
rubras rosas.
Podes tu, fogo, calcinar as faíscas
que nadam dentro
dos partos e cantos puros
da minha autenticidade
caótica? – Não me importo. Não me importo.
Acho-me em sincronia com a chuva
agreste e dura.
Serpentes engolem o seu veneno
e olhos sem pálpebras criam peixes
de mundos onde podemos ser
covardes e corajosos; simultaneamente
frágeis e fortes.
Paira, sob a solidão carente da empatia
o que persiste no
odor apiedado do dia
em que murcharam em mim todas as rosas.
Que o mundo acabe definitivamente
ou não, juro, não me importo.
Não me importo.
A ciência tenta comunicar algo que ninguém
Sabia antes; a poesia tenta
o contrário: Não há acordos entre
prosa e poesia.
 
 
3.
 
Suprema irrisão: somos macacos químicos,
íntimos de uma cultura grosseira, agreste
e assassina. Matamos deuses e Deus
por pura idiotice. Gastamos energias criativas
fornicando de cinco em cinco minutos.
Astuciosos e indiscretos, cultivamos
um apego ao sémen
idêntico aos pequenos lavores
que despontam nos botões das rubras rosas
e catamos no doce pêlo do animal
a sintonia entre o abismo da alma e o seu criminoso
requinte; de modo que me interrogo; – Quem
e o que somos neste contexto, agora?
– Ridículo, ter a “bomba operacional” passado de
moda: mil toneladas de dinamite
causarão daqui em diante adicionais catástrofes
de floridas rosas: e daí, repito, quem se
importa, interessa em saber, porque crescem as unhas
aos mortos e não desafina a eterna melodia
que da mais escura noite os mochos
forjam fabulosa e furtivamente;
a alva luz do dia e o mísero apelo ao
ao que justifica opostos.
 
 
4.
 
De novo apareceu atravessando
a preocupação da sua furtiva imagem,
mas eu reconheci-o com a precisão
de um relâmpago no vidro
da janela da casa onde vivo agora.
De um modo gentil
e quase familiar, entregou-me
um livro.
Para meu espanto, todas as páginas em branco.
Excepto a da dedicatória: “Para os que
nasceram sem identidade, mínima esperança
de entender que o inferno é capricho terreno
e paz a vingança.” Tudo me fora nesse
instante mais claro, oblíquo e resplandecente; e,
sobretudo, semelhante a si mesmo nos vestígios
de uma empatia que estoicamente suporta
o seu vazio.
 
 
5.
 
Numa perspetiva romântica
esqueço, não sei porquê, convenientemente
um espaço para construir jardins
aturdido por gigantescas flores de um apagar-lhe
as pegadas – confessou-me o rapaz – reduzindo-as a cinzas
e depois obrigadas a regenerarem-se
desadequadas e como se o Homem tivesse regressado
à fonte em chamas de “um marxismo
imaculado”, de fabulosa, extrema dor e saudade.
 
 
6.
 
A consciência começa com o olhar, talvez o de
atingir o alvo sobrenatural e invisível
do fogo fora do tempo, pela descida ao barro
dos oleiros divinos.
Benditas as mãos desfiguradas
da criança mimada e mimética, ensinada a apontar
a creditação do lugar onde o ovo deposita a
galinha.
 
 
7.
 
Conto.
Resumo.
Não vale a pena tentares,
leitor,
entender que dentro em pouco,
a imobilidade pode ficar totalmente presa
a miseráveis desinibições
de uma monotonia enjaulada e “por trás de
mundo nenhum.”
Desloca-me: o poema está
pronto.
 
 
8.
 
Esta compulsiva ganância de escrever que
inventas preciosa, esmerada e em aristocrática matriz
virginal de grande classe,
atrai a apropriação errada de grandes defesas
que ameaçam a tua infantil imprudência
e masculina menoridade.
– A quem tentas iludir ao fazeres passar
a incompetência por criatividade
inteligente? Repara: nem os rigores
das palavras te pertencem nem o talento.
E o pior de tudo é roubá-lo
a ti mesmo- – Quando começou a acção furtiva
de te enganares
a ponto de passares a não ser o oposto da verdade
que mente sempre?
Esta compulsiva ganância de escrever
pode até ser um diabólico amor pelo poder
pois quem o tem não o usa: inteligência,
ou pura estupidez de empatia?
 
 
9.
 
Era devastadora a fúria da tempestade,
marginalizando a casa isolada, ao extremo das
grades do terraço desabarem
descomunalmente; mas o rapaz entrara nela calmo.
Absoluto e paciente.
Como assassino de si mesmo.
– Só tenho um minuto minúsculo
mas queria, precisava, ver-te. E desatou a chorar.
– Podes, se quiseres, dizer-me quem és; acaso
um artista atormentado pelo que se passa em Gaza,
o abuso, a pornografia infantil e os mistérios sagrados
da desordem na luz que perdura, ainda assim, na cave
da carne?
– Sou, e apenas, aquele que consegue matar
as cabeças das cobras e o erro deslumbrante
dos espinhos das rosas
no seu incerto entendimento.
 
Aproximei-me do seu vulto.
 
Numa observação fortuita, reparei que dentro do caixão,
o rapaz chorava. Sem que uma pá removesse a terra
onde eu recentemente havia sido enterrada; eu e o
atormentado, dois desconhecidos, e talvez por isso lhe
entregara o melhor de uma competência autista
da linguagem;
de uma dor encomendada.
 
Antes de mais, os mortos falam por sinais práticos e
limpos: o caixão era modesto e parecia querer chamar
a atenção de que não vale a pena luxos
quando se decide ser cremado.
No meu cadáver
as pétalas das rosas choravam: profissionalmente pagas.
 
 
 
eduarda chiote
nervo/26 janeiro / abril 2026
colectivo de poesia
2026
 





12 fevereiro 2026

e e cummings / sê para o amor como chuva para cor

  
 
LXIII
 
sê para o amor como chuva para cor; cria
me gradualmente (ou como estes emergindo agora
montes inventam o ar)
                                         respira simplesmente cada meu como
meu tremer onde meu ainda invisível quando. Espera
 
se não sou coração, porque pelo menos bato
– pensa sempre que parti como um sol tem de ir
às vezes, para fazer uma terra alegremente parecer firme para ti:
lembra-te (como essas pérolas mais que rodeiam esta garganta)
 
uso teus mais caros medos para além da sua interrupção
 
(nem tem uma sílaba ávida turva do coração
enorme linguagem perda ou ganho de censura ou aplauso)
mas muitos pensamentos morrerão, não nascidos do sonho
enquanto asas acolhem o ano e árvores dançam (e se calhar
 
embora desejo e mundo se afundem, um poema flutuará
 
 
 
e. e. cummings
trad. ana hatherly
hífen 5 março
cadernos semestrais de poesia
tradução
1990