14 janeiro 2020

rafael mendes / ano novo



a felicidade contagia as casas
afloram bons dias, abraços
saudações aprazíveis a desconhecidos
buzinas e rojões rasgam o céu

famílias relembram histórias
tantas vezes já repetidas
mas apreciadas com esmero
como a impúbere criança

quando já alto o dia
uns repousam vencidos pela fartura
outros permanecem em silêncio
gozando dos momentos derradeiros

rápido virá o amanhã
e tudo não será como hoje

lá a corrupção e a chaga
aqui remanso e júbilo



rafael mendes
ensaio sobre o belo e o caos
editora urutau
2019






13 janeiro 2020

konstandinos kaváfis / quando se excitam



Procura guardá-las, poeta
por muito que sejam poucas as coisas que podem ser detidas.
As visões do teu erotismo.
Mete-as, meio escondidas, nas tuas frases.
Procura segurá-las, poeta,
quando se excitam na tua mente,
à noite, ou no esplendor do meio-dia.



konstandinos kavafis
os poemas
II (1916-1918)
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
2005








12 janeiro 2020

vitorino nemésio / ultra-violeta



Sonho muito.
Tiro pedaços de sangue à noite, pretérito do dia
(Eu é que fico pretérito – preterido: - a noite irá).
Esclareço assim pequenas confusões adiantadas no senso,
Na cinza científica (azoto, silício, etc.),
No preconceito serial caligrafado a néon.
Escrevo torto/morto
E de repente tenho boa letra, vivo e não rimo:
Fugiu do meu sangue o ritmo do tambor auricular,
E, à sístole que fecha, a diástole abre e levanta
A Catedral do Homo Sapiens que abençoa sem mitra
                                                                    [os ignorantes,
O Poeta de sangue, dador de sangue,
Cheio de picadas e rosas como uma pulga e um lençol,
Uma roseira brava ou um avental de menina,
Seja Rosa de Lima ou vá pela mão do Snr. Rosa.

Sangro muito.
Forço a protecção do epitélio
Destruindo o equilíbrio aos glóbulos sem núcleo,
Meras esferas admiráveis, rubras,
Levemente gordurosas,
Pã, pã, reflectindo o silêncio interior nas almofadas
E tingindo as estradas da pintura sagrada do acidente
(Cruz ao morto!).

Sangro muito.
Avermelho o branco deslumbrante até ao infra
E deliro ainda mais sobre o violeta, que queima:
Por isso há quem me chame o Pelicano esvaído,
Mas eu, o pai dos Nomes, chamo-me só Poeta,


vitorino nemésio
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987






11 janeiro 2020

federico garcia lorca / ai!


O grito deixa no vento
uma sombra de cipreste.

(Deixai-me neste campo
chorando.)

Tudo se perdeu no mundo.
Não ficou mais que o silêncio.

(Deixai-me neste campo
chorando.)

O horizonte sem luz
está mordido de fogueiras.

(Já vos disse que me deixeis
neste campo
chorando.)



federico garcia lorca
poemas
trad. de eugénio de andrade
assírio & alvim
2013






10 janeiro 2020

maria gabriela llansol / causa amante


 4 – foi a observar as beguinas migratórias que
      aprendi muito sobre o comportamento das aves;
      pelo verde, e pelo Inverno, espero o momento
      em que me seja revelado
      quantos do nome de João
      fizeram o meu nome.
      As beguinas que migram,
      não encontraram aqui nem o alimento,
      nem o modo de vida adequado.
      Não declaram morto o que está morto:
      pensam que adormeceu, e não o acordam.



maria gabriela llansol
causa amante
a regra do jogo
1984






09 janeiro 2020

jorge de sena / aprender


I
Passo a minha mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

Quero tanto saber o que tu pensas.

II
O que tu pensas, mas apenas como,
e quando e o porquê, e não
que estejas pensando ou não que a minha mão,
atenta e recurvada, passa brandamente.

Quero saber aquilo que nem sabes.

III
Aquilo que nem sabes – como saberias
o que o pensar é antes de pensar-se?

A mão que pousa e vai passar atenta.
O olhar que espera ver passar o gesto.
A tácita lembrança de volver os olhos.
A brisa que sabemos vai soprar tão mansa,
ainda antes, no fremir de pétalas ou folhas,
mas não na expectativa do arrepio prévio.

IV
Por que esperaste, ciente, a pele da minha mão?


jorge de sena
fidelidade (1958)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972







08 janeiro 2020

juan vicente piqueras / proposta de epitáfio



Em criança fui imortal. Em adolescente
rebelei-me contra o que agora sou.
Em jovem fui selvagem. Fiz sofrer
e sofri muito mais do que quis.
Pouco a pouco a morte (era semente
e parecia alheia) foi crescendo
dentro de mim, feliz, recuperando
o que era seu e eu soube de que era feita
a vida já bem tarde. Na velhice
beijava a água e abraçava o ar
como o doente abraça a esperança
ou o náufrago a espera. Nunca o mundo
foi tão belo como antes de partir.
Agora já não existe. Agora sonho
que o que já não sou volta a nascer.



juan vicente piqueras
instruções para atravessar o deserto
trad.joão duarte rodrigues
e manuel alberto valente
assírio & alvim
2019







07 janeiro 2020

joão luís barreto guimarães / a mesma chuva de sempre



Voltamos para casa tarde
(a cama: ainda
por fazer)
o lençol afeiçoado àquele
vinco da manhã e
percebo pela imagem como assentimos a pressa
como o
dia é uma partida com a meia cinzenta rota
no dedo grande do pé. Eu e
o cadeirão de madeira gastamos o
mesmo número de ombros
(hoje usou o dia inteiro a
minha camisa aos quadrados).
O fim de tarde repousa em vasilhas
junto à entrada no
canto da sala onde fomos deixando apinhoar o
monte de jornais antigos com recortes por fazer
(na nódoa que
assentimos: passasse a ser parte integrante do
padrão do sofá)
no cabelo que imolaste ao
meu lado do lençol testemunhando que ontem
ontem sim
ontem sim. A
felicidade entra em casa em sacos de hipermercado –
está de volta o estranhamento de
fugaz tranquilidade por
sabermos que o ruído que insiste sobre o telhado
não
é o céu a cair
(não são anjos a chorar)
são apenas os acordes da
mesma
chuva de sempre.



joão luís barreto guimarães
rés-do-chão (2003)
o tempo avança por sílabas
poemas escolhidos
quetzal
2019





06 janeiro 2020

mário cláudio / orvieto, 15.9.86



tiago manuel


Orvieto, 15.9.86

Na máscara de um etrusco se transformava, às vezes. Brilhava no bronze que o poente tingia, a cada instante se esfarelando. Era um grito de guerra, o estertor da posse consumada. Adiava-se por terrenos semeados, necrópoles acabadas de exumar, vindimas de mosto e sangue. Dele se contava que havia conhecido a alegria mortuária, o gesto pequeno com que ao além se transita. Bastava isso à respiração, em sua companhia viajávamos nas galerias da terra.



mário cláudio
hífen 1 out. 87/ mar. 88
cadernos semestrais de poesia
1987








05 janeiro 2020

maria teresa horta / mãe



mãe
terminou o tempo
de sorrir
desculpa-me a morte
das plantas

tatuei a tua antiga
imagem loura
em todos os pulsos
que anjos inclinam
de existires

perdi-me noite na planície
branca
sobrevivente das madrugadas
da memória

trocaram-me os dias
e as ruas de ancas
verticais
e nas minhas mãos incompletas
trouxe-te
um naufrágio de flores
cansadas
e o único jardim d´amor
que cultivei
de navios ancorados
ao espaço


maria teresa horta
espelho inicial
1960





04 janeiro 2020

natália correia / uma laranja para alberto caeiro


Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave
se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois da laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.


natália correia
o vinho e a lira
1967





02 janeiro 2020

harold pinter / ano novo nas midlands



E lá volta ela, a soprar, a hospedeira dos rapazes
Amontoados pelo chão
E canta «Ó Luz Celestial» fazendo
Oscilar a perna de pau
como um esquadro sobre a corrente.
Eis o brilho, o pó e o sangue e eu estou aqui,
Instável, exilado sempre numa cidade onde se bebe Whitbread Ale,
Ou coisa assim.
Foi onde fomos ao bar amarelo, entalado num beco de lixo,
A um passo do mercado,
E aí foi que vimos o magro e efeminado Luke, cujos pálidos
Incisivos olhos, gabardine, victoriano,
Enfraquecem a resposta na mão.
Os apertos, maneirismos, gaguejar e cerveja
Desta noite de Ano Novo; o salmo parodiado;
As mulherzinhas caranguejos negros com longos
Olhos, ceceio e garras, numa lata repleta.
Estou amarrotado no calor dos passos: os rapazes marinheiros
Cambaleantes cedo embalados até adormecerem cujo figo furão
Acalma a moeda da febre de um dia.
Ora, nesta trepidação de um bar em festa, provoco e perturbo
A abatida senhora do bar
Que faz beicinho com o cigarro que se desponta eriçado –
Polvilhados e cortados aos cubos a estas luzes das Midlands
Estão Freda alcoviteira gemente e vítrea, e o vosso atabalhoado guia,
Abençoados com erva-ambrósia – Vede
Como mãos radiosas
Soltam os genitais da cidade –
Rapazes e velhos
Com olhos de escaravelho,
As putas atrevidas com papada, o rapaz
De camisa vermelha percorrendo, em fúria, com pesados passos, a sua
      jaula.
 
                                                                                                   1950



harold pinter
várias vozes
tradução jorge silva melo e francisco frazão
quasi
2006