07 maio 2026

pedro homem de mello / segredo

  
 
Tinha aqueles cabelos que ondulara
A ventania trágica do mar…
 
Em lhe eu falando, uma palavra clara
Era o bastante o ver corar.
 
Então, num gesto rápido, ancestral,
Pendia, logo, a boina para a fronte.
 
Se eu me calasse, ele voltava: – Conte…
(O Povo é todo assim em Portugal!)
 
Algumas vezes passeou comigo
Na praia, a horas mortas, no Verão.
 
Como esquecer, agora, o que nem digo
Ao meu desabitado coração?
 
 
 
pedro homem de mello
os poetas ignorados (1957)
poesias escolhidas
imprensa nacional-casa da moeda
1983



06 maio 2026

egito gonçalves / o sistema interrogativo

  
 
Por algum motivo as lágrimas descem
até à boca.
Mastiga-se o sabor, entra
no sangue o sal,
em vida se transforma, é
sulco que a dor abre, fertiliza,
aberta linha de semeadura onde
poderá surgir um bosque,
uma cidade, uma justiça…
 
É o gosto da dor
que vitaliza, acende o palpitar
no coração que sobe à superfície.
Descem até à boca
por algum motivo as lágrimas.
 
 
 
egito gonçalves
o fósforo na palha (1970)
antologia da novíssima poesia portuguesa
m. alberta menéres e e. m. melo e castro
livraria moraes editora
1971
 



05 maio 2026

vasco graça moura / sequência da baleia

  
 
I. maneiras oitocentistas
 
este é o caso flácido da baleia morta
que deu à costa perto da póvoa do varzim:
com o que o bicho sofreu ninguém se importa,
tinha morrido há muito e estava toda torta.
em todo o caso bem dava um folhetim.
 
teria sido baleia forasteira.
é fácil de supô-la todo o verão
a dar às barbatanas, hercúlea, galhofeira,
o seu ledo repuxo tomava sempre a dianteira.
podre gerava agora só focos de infecção.
 
toneladas de banha, imensas, imprevistas,
vinham sabe-se lá de que ignotas águas fundas,
sem jonas na barriga, mas provocando imundas,
repentinas tonturas nos banhistas.
 
 
 
vasco graça moura
sequência da baleia
poesia 1963/1995
quetzal editores
2007
 


04 maio 2026

luiza neto jorge / as sofridas amoras

  
As sofridas amoras
dos valados
os fogosos espinhos
que coroam os cardos
 
Saltam ao caminho
a sangrar-me a veia
do poema.
 
 
 
luiza  neto jorge
fragmentos
poesia
assírio & alvim
1993




 

03 maio 2026

luís miguel nava / através da nudez

  
 
Este garoto é fácil compará-lo a um campo de relâmpagos
encarcerando um touro. Através da nudez vêem-se os astros.
É onde o poema interioriza
a sua própria hipérbole, a paisagem.
 
Movem-se os tigres como câmaras na areia, prontos eles
também a deflagrarem. A manhã
espanca a praia, é impossível descrevê-la sem falar
dos fios deste poema
que a cosem com a paisagem.
 
 
 
luís miguel nava
películas
poesia completa (1979-1994)
publicações dom quixote
2002
 



02 maio 2026

billy collins / desenho

  
 
Pinceladas de tinta em papel de arroz –
uma ponte de madeira
arqueada sobre um rio,
 
montanhas ao longe
e em primeiro plano
uma árvore sacudida pelo vento.
 
Rodo o livro na mesa
para que a árvore
fique inclinada para a tua aldeia.
 
 
 
billy collins
a aranha irlandesa & outros poemas,
trad. francisco José craveiro de carvalho
do lado esquerdo
2023




01 maio 2026

bertolt brecht / lista das preferências de orge

  
Alegrias, as não medidas.
Peles, as não extorquidas.
 
Histórias, as ininteligíveis.
Conselhos, os inexequíveis.
 
Solteiras, as jovens.
Casadas, as que enganam os homens.
 
Orgasmos, os não síncronos.
Ódios, os recíprocos.
 
Domicílios, os permanentes.
Adeuses, os sub-ardentes.
 
Artes, as não rendáveis.
Professores, os enterráveis.
 
Prazeres, os que exprimir se podem.
Fins, os de segunda ordem.
 
Inimigos, os sensíveis.
Amigos, os incorruptiveis.
 
Cores, o rubro.
Meses, Outubro.
 
Elementos, o fogo.
Deuses, o monstro.
 
Decadentes, os louvaminheiros.
Mensagens, os mensageiros.
 
Vidas, as lúcidas.
Mortes, as súbitas.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976



30 abril 2026

jack gilbert / o vale abandonado

  
 
Sabes o que é estar sozinho por tanto tempo
que sais a meio da noite
e enfias o balde no poço
só para sentires algo lá em baixo
a puxar a outra ponta da corda?
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




29 abril 2026

paul éluard / enterrar y callar

  
 
Irmãos esta aurora é vossa
Esta aurora à flor da terra
É a vossa derradeira aurora
Deitastes-vos nela
Irmãos esta aurora é nossa
Sobre este abismo de dor
 
E de cor e de cólera
Irmãos convosco contamos
Nós queremos eternizar
Essa aurora que partilha
A vossa sepultura preta e branca
A esperança e a desesperança
 
O ódio saindo da terra
E combatendo pelo amor
O ódio na poeira
Tendo satisfeito o amor
O amor brilhando em pleno dia
Sempre vive a esperança em terra.
 
 
 
paul éluard
a cama a mesa
tradução de luís lima
barco bêbado
2021




28 abril 2026

heiner müller / vaso coronário

  
 
O médico mostra-me o filme É ESTE O SÍTIO
VEJA POR SI Tu sabes agora onde Deus mora
Cinzas o sonho de sete obras-primas
Três degraus e a esfinge mostra as suas garras
Considera-te feliz se o enfarte te apanhar de repente
Sem que um inválido mais atravesse a paisagem
Uma trovoada no cérebro chumbo nas artérias
O que tu não querias saber O TEMPO ESTÁ CONTADO
As árvores no caminho de regresso escandalosamente verdes
 
 
 
heiner müller
poemas (1949-1995)
trad. adolfo luxúria canibal
oficina noctua
2021




 

27 abril 2026

josé emílio pacheco / os direitos dos estrangeiros

  

 
A terra é plana e sustêm-na
quatro elefantes gigantes.
Os mares derramam-se nas trevas
e das ondas brotam estrelas.
 
Estive em Creta, na Núbia, em Társis, no Egipto.
Em toda a parte fui estrangeiro porque não falava o idioma
nem vestia como eles.
 
Também nós, cidadãos de Ur,
desprezamos o que é diferente.
Por algo fizemos línguas diferentes:
para que os outros nada entendam.
 
Em Ur sou como todos. Falo o meu idioma
sem vestígio algum do sotaque bárbaro.
Como o que comem os de Ur.
Cheiro às nossas especiarias e licores.
 
E, no entanto, em Ur odeiam-me
como nunca fui odiado em Társis nem na Núbia.
 
Em Ur e em toda a parte sou estrangeiro.
 
 
 
josé emílio pacheco
el silencio de la luna (1985-1996)
a árvore tocada pelo raio
antologia poética
trad. miguel filipe mochila
maldoror
2024
 




26 abril 2026

miguel-manso / campéstico, paisagens e interiores

  
40
 
escreve-se ao contrário dos dias
contra o friso comovedor das gerações
ignorado das cabriolas doutrinais
 
não se escreve e há também nisso
um aluimento qualquer
 
corpo afim precipitado para o penhasco
sombrio do mesmo esquecer
 
 
miguel-manso
persianas
tinta da china
2015
 



25 abril 2026

jorge de sena / «quem a tem…»



 

 
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
 
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.
 
Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas, embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo,
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade
 
 
 
jorge de sena
fidelidade (1958)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972