04 agosto 2020

tomas tranströmer / o barco – a aldeia



Uma traineira portuguesa, azul, enrola um bocado do Atlântico.
Bem ao longe, um ponto azul, mas eu estou lá – onde seis homens
     a bordo não veem que nós somos sete.

Assisti à construção de um barco destes, parecia um alaúde enor-
     me sem cordas
na ravina de pobreza: a aldeia onde lavam e lavam sem parar, com
     fúria, paciência, melancolia.

A praia apinhada de gente. Era um comício que fora dispersado, os
     altifalantes confiscados.
Soldados levaram o Mercedes do orador por entre a multidão, apu-
     pos rufavam contra as chapas do veículo.




tomas tranströmer 
50 poemas
tradução de alexandre pastor
relógio d´água
2012





03 agosto 2020

marguerite duras / noutro dia




     Ele não voltou a aparecer no quarto.
     Nunca.
     Era inútil aguardar o seu canto, às vezes ridente,
ás vezes triste, às vezes fúnebre.
     Tornou-se de novo muito depressa o pássaro que
eu tinha conhecido nos campos.



marguerite duras
é tudo (c´est tout)
trad. joão costa
livros do brasil
1999










02 agosto 2020

saint-john perse / elogios



VII

     Um pouco de céu azulou na vertente das nossas unhas. O dia será quente onde coalha o fogo. Eis a coisa como será:
     um engelhamento nos golfos escarlates, o abismo patanhado pelos búfalos da alegria ( ó alegria só explicável pela luz! ) E o doente, no mar, dirá
     que parem o barco para que possa ser auscultado.
     E grande ócio então para todos os da popa, as arremetidas do silêncio refluindo para as nossas frontes… Um pássaro que seguia, o seu voo o arrasta por cima das cabeças, evita o mastro, passa, mostrando-nos as suas patas róseas de pombo, bravo como Cambise e doce como Assuerus… E o mais moço dos viajantes, assentando-se a três quartos na armadura: «muito vos quero falar das fontes sob o mar…» (e pedem-lhe que conte)
     – Entretanto o barco projecta uma sombra verde-azulada; plácida, clarividente, invadida por glucoses onde pastam
     em cardumes flexíveis que sinuosam
     estes peixes que deslizam como o tema ao longo do canto.

     … E eu, pleno de saúde, vejo isto, vou
     junto do doente e conto-lhe isto:
     e eis que ele me odeia.



saint-john perse
antologia poética
trad. carlos cunha e alfredo margarido
guimarães editores
1961






01 agosto 2020

josé saramago / o beijo



Hoje, não sei porquê, o vento teve um grande gesto
     de renúncia, e as árvores aceitaram a imobilidade.
No entanto (e é bem que assim seja) uma viola
     organiza obstinadamente o espaço da solidão.
Ficamos sabendo que as flores se alimentam na fértil
     humidade.
É essa a verdade da saliva.



josé saramago
provavelmente alegria
caminho
1987












31 julho 2020

paul auster / credo



As infinitas


pequenas coisas. Por uma vez respirar tão-só
na luz das infinitas


pequenas coisas
que nos rodeiam. Ou nada
pode escapar


ao encanto dessa escuridão, o olhar
descobrirá que somos apenas
o que nos fez
menos do que somos. Nada dizem. Dizer:
as nossas vidas mesmas


dependem disso.



paul auster
poemas escolhidos
tradução de rui lage
quasi
2002







30 julho 2020

rené char / férias ao vento



Nos flancos da encosta da aldeia, bivacam campos cobertos de mimosas. Na época das colheitas pode ser que, a uma certa distância, nos suceda um encontro extremamente odorífero com uma rapariga cujos braços durante o dia se afadigaram entre os frágeis ramos. Semelhante a uma lâmpada cuja auréola de claridade fosse de perfume, desaparece, de costas voltadas para o sol poente.

Seria sacrilégio dirigir-lhe a palavra.

Calcando a erva com as alparcatas, deixai que vos passe à frente. Quem sabe se não tereis a sorte de distinguir nos seus lábios a quimera da Noite?

         

rené char
furor e mistério
sós permanecem (1938-1944)
trad. margarida vale de gato
relógio d’ água
2000









29 julho 2020

manuel de freitas / prólogo



O tempo, esse pequeno escultor,
prolongou-te os gestos
até à exaustão, ao limite do escárnio,
ao inoportuno reclame daquele
que vai morrer e não morre
e fala demasiado sobre o silêncio do seu grito.

Paciência. Não poderia ter sido de outra
maneira. Há uma infância parada,
onde o cadáver de deus
nada quer dizer. Sim, tem chovido muito.
Mas que saberá destas mesmas horas
o gato negro que a tua mão já não encontra?

Deténs-te, usas palavras vãs. Despedes-te.
Sabes que foi sempre assim.


manuel de freitas
[ sic ]
assírio & alvim
2002






28 julho 2020

luís filipe parrado / teoria da narrativa familiar



Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.


luís filipe parrado
entre a carne e o osso
língua morta
2019





27 julho 2020

david lehman / passagem escura



Ele disse que sentia a falta da cidade. Queria dizer que sentia a falta dela
E o seu hábito de cravar cigarros, aparecer tarde,
Com ar de opulência. Não admirava ele não conseguir lembrar-se
Da cara dela de manhã ou do nome do país
Onde estava ou da natureza exacta da sua missão.
Receava perdê-la se a olhasse, mas
Não conseguia evitá-lo. E ela devolvia o olhar
Com os olhos maiores e mais tristes que ele já vira.
Depois ela desaparecera, engolida por uma multidão oceânica,
Uma multidão carnavalesca cheia de carteiristas e ladrões,
A distância entre os amantes continuou a estender-se
E ele continuou a chamar por ela. O oceano lançou-a
Numa costa estranha. Algumas pessoas usavam máscaras,
Tinham todos bebido vinho de mais. Estava escuro,
No bar a cassete durava sessenta minutos,
Ele já ouvira “These Foolish Things” em Francês
Sete vezes, só que desta vez outra pessoa estava com ele,
Cuja face ele nunca consegue ver. O sono para variar
Veio rapidamente. A sua ambição era grande.
Ele disse que se referia a ele. Na verdade a qualquer um.



david lehman
uma echarpe no banco da frente
trad. francisco josé craveiro de carvalho
edições eufeme
2017






26 julho 2020

mário dionísio / memória dum pintor desconhecido



47
Com o dedo escreves
no vidro molhado
uma palavra indecifrável

Às oito e meia da manhã
na cidade apressada
ninguém a pode ver

Mas quem ouve o segredo
desse arabesco de árvore
já não vai ao emprego

Fica tonto a olhar
enternecidamente
tudo e nada

mesmo sem entender


mário dionísio
poesia completa
memória dum pintor desconhecido (1965)
imprensa nacional-casa da moeda
2016




25 julho 2020

jorge melícias / debruçado sobre a benevolência dos séculos



Debruçado sobre a benevolência dos séculos
o cronista outorga mesuras e desdouros,
intende a blandícia da cautela,
a pua retraída do orgulho.
E a história é um animal acocorado
sob a lisonja do aparo.


jorge melícias
a oratória dos manso (2017)
a oratória dos mansos
porto editora
2020












24 julho 2020

roberto juarroz / os nomes não designam as coisas:




Os nomes não designam as coisas:
envolvem-nas, sufocam-nas.


Mas as coisas rasgam
as ligaduras das palavras
e voltam a estar aí, nuas,
à espera de algo mais que os nomes.

Só pode dizê-las
a sua própria voz de coisa,
a voz que nem ela nem nós sabemos,
nessa neutralidade que pouco fala,
esse mutismo enorme onde as ondas rebentam.


roberto juarroz
a árvore derrubada pelos frutos
trad. rui caeiro, duarte pereira e diogo vaz pinto
língua morta
2018






23 julho 2020

joão almeida / sina


  
tenho poucas palavras
duas para uma caixa de fósforos
uma para lavar as mãos
nenhuma para este poema


joão almeida
canto skin
língua morta
2019