20 maio 2018

ricardo reis / sê dono de ti




Sê o dono de ti
Sem fechares os olhos.

 
Na dura mão aperta
Com um tacto encavado
O mundo exterior
Contra a palma sentindo
Outra cousa que a palma.

11-8-1918



poemas de ricardo reis
fernando pessoa
imprensa nacional-casa da moeda
1994






19 maio 2018

marguerite duras / textos secretos




Dizem que o tempo do pleno verão já se anun-
cia, é possível. Não sei. Que as rosas já ali estão,
no fundo do parque. Que às vezes não são vistas
por ninguém durante o tempo da sua vida e que
ficam  assim ali no seu perfume esquartejadas
durante alguns dias e que depois se deixam cair.
Nunca vistas por esta mulher solitária que
esquece. Nunca vistas por mim, morrem.



marguerite duras
textos secretos
o homem atlântico
trad. tereza coelho
quetzal
1999








18 maio 2018

nicolás guillén / dois meninos




DOIS meninos, dois ramos de um mesmo arbusto de miséria,
juntos, na noite quente, sob o mesmo portal,
dois meninos, mendigos cheios de pústulas,
comem de um mesmo prato como cães esfomeados
a comida lançada por preia-mar de banquetes.
Dois meninos: um negro, o outro branco.

Suas cabeças unidas, semeadas de piolhos;
seus pés muito juntos e descalços;
as bocas incansáveis num mesmo frenesim de mandíbulas,
e sobre a comida gordurenta, azeda,
duas mãos: uma negra, outra branca.

Que união tão sincera e tão forte!
Estão ligados pelos estômagos e pelas noites foscas,
e pelas tardes melancólicas nos passeios brilhantes,
e pelas manhãs explosivas,
quando o dia desperta com seus olhos alcoólicos.

Estão unidos como dois bons cães…
Juntos assim como dois bons cães,
um negro, o outro branco,
quando chegar a hora de marchar
irão querer marchar como dois homens bons,
um negro, o outro branco?

Dois meninos, dois ramos de um mesmo arbusto de miséria,
Comem, na noite quente, sob o mesmo portal.


nicolas guillen
antologia poética I
tradução de carlos grifo
editorial presença
1970







17 maio 2018

vladimir maiakóvski / ordem n.º 2 ao exército da arte




É a vós –
barítonos bem alimentados –
que desde Adão
até hoje
comoveis as espeluncas – a que chamam teatros –
com as árias dos Romeus, árias das Julietas.

É a vós –
artistas-pintores,  
gordos como cavalos
ornato relinchante e devorador da Rússia,
acachapados no fundo dos estúdios,
a aperfeiçoar constantemente florinhas e engodos.

É a vós –
escondidos à sombra de místicos folhetos,
arando com mil rugas vossas frontes –
pequenos futuristas,
pequenos imaginistas,
pequenos acmeistas,
embaraçados entre a teia das rimas.

É a vós –
que em mechas hirsutas tendes transformado
vossos cabelos bem penteados,
e o verniz dos sapatos em tamancos
«prolecultistas»
que remendais
o fraque desbotado de Puchkine.


É a vós –
bailarinos, tocadores de trompete,
que vos entregais abertamente,
ou calmamente pescais,
e imaginais o futuro
como uma academia imensa.
É a vós que o digo,
eu…
genial ou não genial,
que abandonei a quinquilharia da arte
e trabalhei na Rosta,
eu vo-lo digo –
antes que vos expulsem à coronhada.
Deixem-se disso!

Deixem-se disso!
esqueçam,
ponham de lado
rimas,
romances,
roseiras em flor,
e todas as outras «melrancolias»
dos arsenais das artes.

A quem interessa que
«- Ah, pobre criança!
como ele a amava
e como era infeliz…»?
Hoje
necessitamos de mestres
e não cabeludos pregadores.
Oiçam-nas!
As locomotivas gemem,
sopram pelas fendas, pelo chão:
«Dêem-nos o carvão do Don!
Serralheiros,
mecânicos, ao Depósito!»

Em cada embocadura de rio
vemos os barcos deitados,
um buraco no flanco, gritarem nas docas:
«Dêem-nos a nafta de Baku!»

Enquanto nos perdemos em querelas vãs,
buscando não sei que secreto sentido,
atravessa as coisas um enorme soluço:
«Dêem-nos formas novas!»

Já não há imbecis
para, multidão boquiaberta,
esperar que caia dos lábios do «mestre» uma palavra.
Camaradas,
inventai uma arte nova
que arranque
a República da lama.

(1922)



vladimiro maiakowski
autobiografia e poemas
trad. de carlos grifo
presença
1977









16 maio 2018

albert camus / todos traíram…




Todos traíram, aqueles que incitavam à resistência e aqueles que falavam da paz. Eles aí estão, tão dóceis e mais culpados que os outros. E jamais o indivíduo esteve tão só diante da máquina de fabricar mentiras. Ele pode ainda desprezar e lutar contra o seu desprezo. Se não tem o direito de se afastar e de desprezar, conserva o de julgar. Nada pode sair do humano, da multidão. A traição seria crer o contrário. Morre-se só. Todos vão morrer sós. Que ao menos o homem só conserve aqui o poder do seu desprezo e de escolher na pavorosa experiência o que serve para a sua própria grandeza.

Aceitar a experiência e tudo o que ela comporta. Mas jurar apenas cumprir na menos nobre das tarefas o mais nobre dos gestos. E a base da nobreza (a verdadeira, que é a do coração) é o desprezo, a coragem e a profunda indiferença.


albert camus
primeiros cadernos
caderno nr. 3 (abril 1939-fevereiro 1942)
trad. antónio quadros (?)
livros do brasil
1973






15 maio 2018

paul éluard / o cutelo vai cair




O cutelo vai cair
Sobre o pescoço condenado

Um herói privado de armas
Uma mãe morta de cansaço

O sono junta-os a ambos
A manhã mal os desperta

Dissolve-os a fadiga
E a miséria separa-os

Vejo as costas de um casaco cinzento
Numa rua baixa sob a chuva

Vejo pigmeus sem consciência
Saudarem as bandeiras e orarem

Vejo soldados no meio da lama
Saudarem as balas com a cabeça

Vejo as casas demolidas
Como que por prazer para uma festa

Vejo um ventre escancarado
Às moscas ao sol apodrecido



paul éluard
algumas das palavras
trad. antónio ramos rosa e luiza neto jorge
publicações dom quixote
1977






14 maio 2018

josé de almada negreiros / a conferência improvisada





        Minhas Senhoras e meus Senhores:
                 Mulheres e homens são as duas metades da humanidade – a metade masculina e a metade feminina.
                Há coisas inteiras feitas de duas metades e aonde não se pode cortar ao meio para separar essas duas metades. Exemplo: a humanidade com a metade masculina e a metade feminina. São duas metades que deixam, cada uma, de ser uma metade se não houver a outra metade.
                     A linha que passa por entre estas duas metades é parecidíssima com o ar por dentro de uma esponja do mar, seca.



josé de almada negreiros
andaimes e vésperas
poesia
estampa
1971








13 maio 2018

luís vaz de camões / quem pode livre ser, gentil senhora,




Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.



luís vaz de camões
sonetos





12 maio 2018

jorge de sena / as mãos dadas



Um dia me falaste,
e as árvores morriam galho a galho seco.
Havia flores, recordo.
Havia ruas, ai também recordo.
E escadas
vazias.

Não me falaste, não. Fui eu quem perguntou,
beijando-te tremente, quantos anos tinhas,
e o teu nome.

Não tinhas nome; ou tinhas, mas não teu.
E a tua idade: as tuas mãos nas minhas.


jorge de sena
fidelidade  (1958)
trinta anos de poesia
editorial inova
1972







11 maio 2018

nuno júdice / voo




Por duas vezes o pássaro atravessou
o horizonte, deixando atrás de si o dia
e a noite, confundidos para quem, no
limite da praia, olhava o seu voo; e
por duas vezes o sol hesitou, antes
de morrer, como se tivesse outra
saída para além do outro lado da terra.



nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997










10 maio 2018

rui knopfli / auto-retrato




De português tenho a nostalgia lírica
de coisas passadistas, de uma infância
amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;
a ardência árabe dos olhos, o pendor
para os extremos: da lágrima pronta
à incandescência súbita das palavras contundentes,
do riso claro à angústia mais amarga.

De português, a costela macabra, a alma
enquistada de fado, resistente a todas
as ablações de ordem cultural e o saber
que o tinto, melhor que o branco,
há-de atestar a taça na ortodoxia
de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

De português, o olhinho malandro, concupiscente
e plurirracial, lesto na mirada do seio
entrevisto, à nesga de perna, à fímbria de nádega;
a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,
o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

De suíço tenho, herdados de meu bisavô,
um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.



rui knopfli
o dente do siso
memória consentida
20 anos de poesia 1959/1979
imprensa nacional-casa da moeda
1982







09 maio 2018

josé ángel cilleruelo / bairro alto




2
Uma revista rasgada na armação
da cama vazia. Além o colchão
no piso de mármore, junto de restos
de pequena fogueira. Nas paredes,
mensagens de amor reles e obsceno.
Beatas, lixo, plásticos, migalhas
por todo o lado. Um preservativo
recente junta um sinal ao abandono.

Não sei se neste quarto estive só,
numa tarde de chuva, masturbando-me
devagar. Ou neste quarto será onde
desabotoou a saia e disse
deita-te! e o fio me beijou
os olhos. Ou talvez que na janela
de um quarto como o que descrevo agora,
numa manhã de setembro aziaga,
tremi ao ver que corria pela avenida.

Camiões e gruas e operários
destruirão o velho hotel em poucas
horas. O pó cobrirá a figueira
e os fetos do pátio antigo.
grandes rodas esmagarão a erva
onde me deitei um dia com um livro
nas mãos. Levantei os olhos
e estava junto da piscina,
prestes a rir-se do meu sotaque
de estrangeiro. Este quarto. Estas ruínas.



josé ángel cilleruelo
salobre
antologia
trad. joaquim manuel magalhães
averno
2004







08 maio 2018

alberto lins caldas / a tempestade





● por muitos anos ●
● esperei a tempestade e a destruição ●
● ficava na cama na janela na porta olhando ●
● longe ela a tempestade se preparar os anos ●
● passaram a tempestade grasnando veio ●
● veio caminhando e eu velho envelhecia ●
● perdi as forças olhando pela janela ●

● a tempestade bem próxima de casa ●
● as cidades os campos já se foram devorados ●
● dentro da fome da tempestade engolidos ●
● sinto a casa tremer as telhas ladrarem ●
● sendo arrancadas como pedaços de carne ●
● de vísceras enquanto tudo diminui e some ●
● meu mundo se tornou minúsculo um grão ●

● minha cama meus travesseiros o lençol ●
● a tempestade não brinca nem arrefece ●
● agora a treva do céu aparece e roda roda ●
● gigante que tritura a terra as gentes o mar ●
● só a cama meus três travesseiros o lençol ●
● que agora se foi logo os travesseiros a cama ●
● se partem se espalham se retorcem e eu rio ●

● talvez não seja pelo elefante cor de rosa ●
● azul que se equilibra sobre o cão sarnento ●
● como um palhaço num picadeiro pobre ●
● olhando um elefante cor de rosa azul ●
● que se equilibra sobre um cão sarnento ●
● com as pernas finas cor de rosa azul ●
● pernas finas rosa azul e eu fico rindo ●

● das hienas desse circo que gira gira ●
● das focas gordas das baleias amestradas ●
● das equilibristas bêbadas sobre cavalos ●
● dos banqueiros domadores de ratos ●
● contando litros de sangue suor e olhos ●
● em conserva línguas roxas e inchadas ●
● mas talvez não seja por nada disso e eu ●

● só ria pelo elefante cor de rosa azul ●
● que se equilibra sobre o cão sarnento ●
● com suas pernas finas rosas e azul azul ●
● ou porque rodopiam sobre o resto de mim ●
● toneladas de cebolas que me faziam chorar ●
● tomates como sois como estrelas do mar ●
● talvez seja por isso que gargalho e danço ●

● ou até mesmo por não restar nada de mim ●
● só o riso com dentes quebrados e podres ●
● no centro ridículo dessa tempestade nua ●
● sim é essa dentadura partida e cor de rosa ●
● sem lábios sem língua rosa azul sem rosto ●
● o que me faz rir faz no melhor dos mundos ●
● como se as tempestades não existissem ●




alberto lins caldas