20 agosto 2020

carlos de oliveira / descida aos infernos


5
(E descendo
é como se descesse dentro de mim
nas cobardias-detritos das águas,
nos heroísmos-resíduos das fráguas.

E seja por que for
no suor anónimo das mágoas)



carlos de oliveira
descida aos infernos
a leve têmpera do vento
antologia poética
quasi
2001







19 agosto 2020

eduardo chirinos / poema com cães


Conheci-o em Istambul.
Da sua boca pendia um cigarro turco
tinha os olhos pequenos
e uma vaga expressão de príncipe arruinado.
Nunca mais voltei a vê-lo, mas comprei o seu retrato
num leilão nos arredores de Londres.
Os meus filhos inventam subterfúgios para não o olharem,
as visitas desculpam-se, inventam mil histórias,
preferem não vir.
A minha mulher acaricia o lombo dos cães.
Não os teme. Diz que são amigos do homem.



eduardo chirinos
o universo está pintado à mão
uma antologia fanática
por luís filipe parrado
língua morta
2020










18 agosto 2020

maria gabriela llansol / o raio sobre o lápis


VIII

______________ descobrimos, no pinhal, a configuração de uma caveira: uma caveira emerge no pinhal, à beira do caminho; olhando-a de perto, analisando-a, verifico que não é uma caveira, mas uma pedra.
     Só eu tive a ilusão de ser uma caveira por duas manchas incravadas no granito.
     — É um logro — diz-me Aramis. — Não foi propriamente uma ilusão, mas uma percepção difusa. De uma cabeça assente no chão trazendo à minha consciência o suporte da morte.
     Foi um ardil da pedra dirigido ao meu olhar.
     Só eu, naquele momento a atravessar o pinhal e a floresta das faias, teria a emoção visual de que estava a descobrir, apoiada na caruma, e à beira da vereda, uma ex-cabeça humana.  

 ~

maria gabriela llansol
julião sarmento
o raio sobre o lápis
livro de artistas
europalia 91
1991





17 agosto 2020

francis ponge / o ciclo das estações




Cansadas de se terem contraído todo o inverno as árvores de repente gabam-se de ser enganadas: soltam as suas palavras, uma onda, um vómito de verde. Tentam alcançar uma folheação completa de palavras. Tanto pior! As coisas arranjar-se-ão como puderem! E, na realidade, arranjam-se! Nenhuma liberdade na folheação… As árvores lançam, pelo menos é o que pensam, não importa que palavras, lançam caules para neles suspenderem mais palavras: os nossos troncos, pensam elas, aqui estão para tudo assumirem. Esforçam-se por se esconderem, por se confundirem umas nas outras. Julgam poder dizer tudo, cobrir inteiramente o mundo com palavras variadas: mas não dizem senão «as árvores». Incapazes até de reter os pássaros que delas voltam a partir, embora se alegrassem por terem produzido tão estranhas flores. Sempre a mesma folha, o mesmo modo de desdobramento, e o mesmo limite, sempre folhas simétricas umas às outras, simetricamente suspensas! Tenta mais uma folha! — A mesma! Mais outra! A mesma! Em suma, nada poderia pará-las senão de súbito esta observação: «Não se sai das árvores por meios de árvore». Um novo cansaço, e uma nova mudança moral. «Deixemos tudo isto amarelecer, e cair. Que venha o taciturno estado, o despojamento, o OUTONO.»



francis ponge
le parti pris des choses
alguns poemas
tradução de manuel gusmão
livros cotovia
1996






16 agosto 2020

franz kafka / diários



1912, 9 de Julho


Ainda não escrevi nada. Vou começar amanhã. Senão caio outra vez num período de insatisfação irresistível e prolongado; já estou até a entrar nele. As crises nervosas estão a aparecer. Mas se conseguir fazer qualquer coisa, não preciso de tomar precauções supersticiosas.

A invenção do demónio. Se estamos possuídos pelo demónio, não pode ser só por um, porque então viveríamos, pelo menos na terra, em paz, como se fosse um Deus, em união, sem contradições, sem reflexão, sempre seguros do homem atrás de nós. O seu rosto não nos amedrontaria, porque, como seres diabólicos, teríamos, mesmo que um pouco sensíveis à vista, a esperteza suficiente de preferir sacrificar uma mão para lhe tapar a cara com ela. Se estivéssemos possuídos apenas por um demónio, um que tivesse uma visão tranquila, calma, de toda a nossa natureza, e liberdade para dispor de nós em qualquer momento, esse demónio teria também poder suficiente para nos manter durante o âmbito de uma vida humana muito acima do espirito de Deus em nós, e mesmo para nos balançar de um lado para o outro para que assim não víssemos nenhum sinal dele e consequentemente não fôssemos perturbados por esse lado. Só uma multidão de demónios pode ser responsável pelas nossas desgraças terrenas. Porque não se matam eles uns aos outros até só ficar um, ou porque não ficam subordinados a um grande demónio? Qualquer das duas hipóteses estaria de acordo com o princípio diabólico de nos enganar tanto quanto possível. Faltando unidade, para que serve a atenção escrupulosa que todos os demónios nos prestam? Deve importar muito mais a um demónio que nos caia um cabelo do que a Deus, uma vez que o demónio perde na realidade esse cabelo e Deus não. Mas não conseguimos atingir um estado de bem-estar enquanto houver dentro de nós tantos demónios.




franz kafka
diários (1910-1923)
trad. maria adélia silva melo
difel
1986







15 agosto 2020

adília lopes / para um vil criminoso



Fizeste-me mil maldades
e uma maldade muito grande
que não se faz
acho que devo ter sido a pessoa
a quem fizeste mais maldades
nem deves ter feito a ninguém
uma maldade tão grande
como a que me fizeste a mim
não sei se tens remorsos
tu dizes que não tens remorsos nenhuns
porque dizes que és um vil criminoso
para mim
eu também sou uma vil criminosa
mas não para ti
desconfio que tens o remorso
de ter alguns remorsos
por me teres feito mil maldades
e uma maldade muito grande
a maldade muito grande está feita
e não se faz
acho que essa maldade muito grande
nos aproximou um do outro
em vez de nos afastar
mas para mim é um drôle de chemin
e para ti também deve ser
mas com um vil criminoso nunca se sabe


adília lopes
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987






14 agosto 2020

josé luis garcía martin / a chuva



A chuva é um soldado triste,
uma sentinela sem sono. Espias
sua firme juventude. Ardem os lábios
em negra chama de melancolia.

Ruas lascivas sobem pelas suas pernas,
distante e firme não sorri.
Ávidas mãos pelo rosto imberbe,
mãos de névoa putrefactas insistem.

Silencioso acerca-se um cavalo
da água escura e fresca do desejo.
Ilumina-se a cara do soldado
num instante de lua, leve, longe.

Envolto em negra chama chamas
ao plural sentinela minucioso.
Imóvel, mudo, segue seu destino
noutro mundo, noutro tempo, noutro.


josé luís garcia martin
trípticos espanhóis 1º.
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
1998






13 agosto 2020

judite canha fernandes / sem título



dois dentes de leão
fundidos em seus pequenos fios brancos
passaram a voar
e sumiram
mais altos do que as fábricas



judite canha fernandes
podemos amar ou podemos
editora urutau
2019









12 agosto 2020

marta navarro; paola d´agostino / também dizem que o caminho de casa




Também dizem que o caminho de casa
se encontra por doçura
quando cai uma noite qualquer.
Estou aqui
com as chaves na mão
à espera de um sinal.



marta navarro; paola d´agostino
dançam; dançam
edit. a tua mãe
2014











11 agosto 2020

paulo da costa domingos / rapa



Na fábrica da angústia,
onde jazem raciocínios
ditos científicos e os arranjos
convenientes ao lucro,
molda-se o sossego dos tribunais
na divisão das famílias.


¡O horror, a infâmia, a ordem
e as suas manobras, que sujam
a luminosa manhã da loba,
seu grito encurralado por injúrias,
leve-os o Diabo e escolha!

Na fábrica de cega ceifa
fecha-se os olhos ao veneno
moral dos broncos que olham,
roídos, por cima do ombro.

Expulsa do lugar onde reina
a ganância, o ruído e o ciúme
vai formosa e não segura: a Beleza.

Na luminosa manhã há que ouvir
O sussurro suave de passos, ou…

Nada.


paulo da costa domingos
a céu aberto
averno
2017






10 agosto 2020

joaquim manuel magalhães / a águia sublevou ganimedes

ilda david



A águia sublevou Ganimedes. Um corpo
pode ser um tiro uma casa incendiada
na submissa ferocidade do amor.
Nunca soube donde vinha. Vinha. Tocava
á porta, tomávamos um café. Saía.
O que tentamos para amarem o que somos.
Na selva de interditos o longe de dentro
tem a medo sossegos sem nenhum lugar.


joaquim manuel magalhães
ilda david
alguns antecedentes mitológicos
assírio & alvim
1984






09 agosto 2020

joão miguel fernandes jorge / este repouso



Este repouso
quando a luz separa
as mais secretas folhas

e os olhos,
por instante, são o rosto
e a noite

o vento que me prende e
não conheço.



joão miguel fernandes jorge
à beira do mar de junho
relógio d´água
2019








08 agosto 2020

jorge velhote / fria é a água na escuridão



.1.

Há uma luz branca que chega
como antes chegou uma luz
negra ou o frio vertiginoso
do esquecimento.
Olhavas as tuas mãos
enquanto nas veias escorriam
líquidos furiosos abrasando.
Por vezes a melancolia inclinava-te
a cabeça para lugares enxutos
e velozes. Ou escuros.
Vias os melros entre ramagens ocultos
como sombras e tangias o vento
para selar o inverno.



jorge velhote
âmago
edições sem nome
2018