06 maio 2012

e.e. cummings / a função do amor é fabricar desconhecimento






a função do amor é fabricar desconhecimento

(o conhecido não tem desejo; mas todo o amor é desejar)
embora se viva às avessas, o idêntico sufoque o uno
a verdade se confunda com o facto, os peixes se gabem de pescar

e os homens sejam apanhados pelos vermes(o amor pode não se
importar
se o tempo troteia, a luz declina, os limites vergam
nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela
─ -o medo tem morte menor; e viverá menos quando a morte acabar)

que afortunados são os amantes(cujos seres se submetem
ao que esteja para ser descoberto)
cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder
mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver

(que riem e choram)que sonham, criam e matam
enquanto o todo se move; cada parte permanece quieta:




e.e. cummings
livrodepoemas
trad. cecília rego pinheiro
assírio & alvim
1999





05 maio 2012

carlos oquendo de amat / mãe






O teu nome chega devagarinho como as músicas humildes
e das tuas mãos esvoaçam pombas brancas

Na minha recordação vestes sempre de branco
como as crianças no recreio que os homens olham de longe

Nos teus braços morre um céu e outro nasce da tua ternura

Quando estou pensando o carinho abre-se a teu lado como uma flor

Entre ti e o horizonte
a minha palavra é primitiva como a chuva e os hinos

Porque ante ti se calam as rosas e as canções.


  


carlos oquendo de amat
(puno-peru,1905 - navacerrada-espanha,1936)
tradução de nicolau saião






04 maio 2012

rené char / juventude


  


Longe da emboscada dos imprevistos
e da esmola dos calvários,
gerais-vos a vós próprias,
reféns dos pássaros,
fontes.
A queda do homem feita da agonia das suas cinzas,
do homem
que se debate com a sua vingativa providência,
não basta para vos desencantar.

Louvor, aceitámo-nos mutuamente.

"Se eu tivesse sido muda como a marcha da pedra,
fiel ao Sol,
que ignora a sua ferida cerzida de hera,
se eu tivesse sido criança como a árvore branca
que acolhe os pavores das abelhas,
se as colinas tivessem vivido o Verão,
se o relâmpago me tivesse aberto as suas grades,
se as tuas noites me tivessem perdoado..."

Olhar,
vergel de estrelas,
as giestas,
a solidão,
distinguem-se de vós!
O cântico põe cobro ao exílio.
A brisa dos cordeiros traz a vida nova.





rené char
furor e mistério
(grafia adaptada)
tradução margarida vale de gato
relógio de água
2000




03 maio 2012

gil t. sousa / invisível





1

as mãos roçam a noite como árvores nuas e tudo o que deixam nas janelas fechadas é um canto de pedra, um canto negro que sobe e desce os telhados de ruas desconhecidas e desertas, que se esconde em corações solitários, como gárgulas de sangue, por onde escorrem vozes, gritos secos e antigos, gritos de medo, gritos de raiva, de homens que sufocaram no tempo, estrangulados de mentira e de lama.

sou tão invisível, hoje! nenhuma ponte me apanha no abismo de acordar.




gil t. sousa
água forte
2005




02 maio 2012

mário-henrique leiria / evocação






Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos teus ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte
ao sol poente

todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão




mário-henrique leiria
contos do gin tonic
editorial estampa
1973


01 maio 2012

antónio barahona da fonseca / a andré breton






Diz
não desistas
e tempo é
de noites dias futuros
de flores de crina azul nos teus olhos
diz
Liberdade
«Liberdade liberdade cor de homem»

Morcego de asas brancas
cujos lábios de estrela cadente
voam pelo prazer de fumar
no ar puro
diz
«Liberdade liberdade cor de homem»
  
*

No crepúsculo surrealista
a estátua de André Breton
com o coração de águia trespassado por uma espada de sangue
sorri na enseada dos barcos livres





antónio barahona da fonseca
impressões digitais
o surrealismo na poesia portuguesa
org. de natália correia
frenesi
2002




1.º de maio












30 abril 2012

josé sebag / o planeta precário






a noite cerrou todas as janelas
alastrou um império de improviso para os
cães sem nome sem dono e atirou
longamente o seu queixo de toneladas até
à mancha
espalmada do rio

e à sua maneira de nos insultar
a tristonha envergadura da sua queixa

as palavras
que usamos
têm  a idade que aparentam

atingidas pela velhice ou pelo descrédito
num alvoroço se oferecem ao abismo

despenhadas rolam
e se confundem com a lava
com a espuma tensa do tempo ainda intacto

para de novo nascerem noutra pátria
mais respirável
ternamente povoar o indómito e triste
hálito
do mais apavorado e generosos bicho

À hora de morrer vai ser necessário
imitar a navegação tumultuosa e resignada
das palavras.

Entre elas e o poeta
um segredo brinca
religioso
trémulo
e imprudente

um segredo amoroso e repugnante

Tu, que de há tanto e tão bem o conheces
melhor te será conservá-lo escondido
até ao momento da surpresa
que a morte branca do medo exige

Cada um de nós, deve ser, não a lei, mas
o galho inopinado e ímpar
o plano imediato da evasão
alucinado e lúcido

Cada um de nós deve ser o momento
de recusar férias à ferida
e de mandar matar todos os parafusos
destronar todas as molas reais
ou irreais
da

respiração artificial

pendurada do tecto
a tua ausência informa: é madrugada
bela notícia confirmada
o céu está menos preto

busto ou explanada
mas só de sombra
a solidão redonda
desta vida parada

não é flor nem bomba
nem página virada
nem a hecatombe
fria e ferial

da charada final
e indesejada !

Falta o indulto especial da tua mão
e tu a dizeres-me, aguda e de assalto:

 "A solidão
é nada."

a cabeça começa por fazer dueto com o teu relógio
crepita sobre a almofada
parece mesmo um gatilho em desuso
uma flecha detida por um hábito lívido

são já os primeiros rumores estremunhados
no tablado das coisas
para onde a luz, como tu, atira os braços
como tu um beijo

enorme e distraída oficina conjugal

é agora a infalível
serpente inofensiva e doméstica do sol
monstro diluviano de capoeira
a farejar
com um aspecto acabrunhado de enfermeiro despedido
a fresta que permita o carnaval

está então na hora?

a cabotagem entre portos diminuídos
tenazmente em circuito cinzento
o tráfego livre dos gestos, enrugado apenas
pelo milagre de um ou outro vizinho mais mumificado
se levar pela mão a cara de brinquedo do filho

a quem acabam por perdoar por não ter ainda convite
e é só entrar

no solfejo nauseante
no cerimonial mercantilista do braço ao peito





josé sebag
surrealismo abjeccionismo
antologia organizada por mário cesariny
edições salamandra
1992