28 setembro 2026

artur do cruzeiro seixas / canto

  
Canto
canto como um desesperado!
O que julgas tu que faz mil milhões de reflexos
na superfície exausta do Tejo?
Por certo um desacordo
que atinge no coração o sol
os peixes
a tua visão impressionista.
A árvore não dá saborosos frutos
apenas porque te ama
e a tempestade
desespera-se da sua impotência.
O amor é uma ilusão
uma excepção ou um excesso?
Oh tu homem civilizado julgas-te vivo
quando és apenas uma perpétua imitação
um vil ressuscitado de mortas civilizações.
O sonho é o que te resta
mas o seu peso é excessivo
para a imensa fragilidade das palavras
que são afinal a tua coluna vertebral.
 
Todo o espaço é compacto
e tu homem
és o oco
o vazio.
 
Áfricas, 70
 
 
 
cruzeiro seixas
viagem sem regresso
tiragem limitada
2001
 




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