Acontece que entro nas alfaiatarias e nos cinemas
abatido, impenetrável, como um cisne de feltro
vogando numa água de origem e de cinza.
Eu só quero um descanso de pedras ou de lã,
eu só quero não ver as lojas e os jardins,
mercadorias, óculos, ascensores.
e do cabelo e da sombra.
Acontece que me canso de ser homem.
assustar um notário com um lírio cortado
ou dar morte a uma freira com um soco na orelha.
Seria lindo
ir pela rua com uma faca verde
e aos gritos até morrer de frio.
vacilante, estendido, tiritando de sono,
para baixo, nas tripas molhadas da terra,
absorvendo e pensando, comendo dia após dia.
Não quero continuar raiz e sepultura,
subterrâneo solitário e adega com mortos,
transido, morrendo de desgosto.
quando me vê chegar com esta cara de cárcere,
e uiva no seu decurso como roda ferida,
e dá passos de sangue quente em direcção à noite.
para os hospitais onde os ossos saem pela janela,
para certas sapatarias que cheiram a vinagre,
para ruas espantosas como fendas.
pendentes da entrada das casas que eu odeio,
há dentaduras esquecidas numa cafeteira,
há espelhos
que deviam ter chorado de vergonha e de espanto,
há guarda-chuvas em todo o lado, e venenos, e umbigos.
com fúria, com esquecimento,
passo, atravesso escritórios e centros ortopédicos
e pátios onde há roupa a secar num arame:
cuecas, toalhas e camisas que choram
lentas lágrimas sujas.
pablo neruda
antologia breve
tradução de fernando assis pacheco
dom quixote
1971
4 comentários:
...navegando numas águas de origem e cinzas...
O cheiro das barbearias me faz chorar aos gritos
Está incompleto.
Muito obrigado pelo comentário. De facto o poema estava mal transcrito. Um erro que não tinha detectado. Está corrigido.
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