14 junho 2010

fiama hasse pais brandão / idade








Conheci dias duradouros,
o sol tão longo entre manhã e tarde.
Um levantar súbito de luz
por trás da crista das heras no muro velho,
e depois descer no verão entre grades verdes
e para além do portão como a cair no Hades,
no inverno. Não havia tempo
nos dias longos, mas a passagem diária
do sol abençoado.







fiama hasse pais brandão
três rostos
poemas revistos 1985-1987
assírio & alvim
1989









13 junho 2010

amadeu baptista / estações






Miúdos de treze anos fumam erva
nas obras das traseiras,
a vizinha
recorre ao xanax e à catatua
para recuperar a adrenalina, o octogenário
dorme no cadeirão de orelhas secundado
pelo cão que a netinha
há-de supliciar até à raiva. Ronrona
a gataria pela lata de sardinha
que a louca do bairro distribui
ao final da manhã, ainda a esquina
está incandescente da matilha
que assediou o quarteirão durante a noite.
Camas desfeitas dos corpos dos amantes
lembram-me a tua ausência
incontornável.






amadeu baptista
estações
apeadeiro / revista de atitudes literárias
primavera 2002
quasi
2002






11 junho 2010

william carlos williams / pastoral








Quando era mais jovem
tinha a certeza
que devia fazer algo da minha vida.
Agora, mais velho,
caminho por vielas
admirando as casas
dos muito pobres:
telhados desengonçados
pátios cheios de
velho arame de capoeiras, cinzas,
móveis desconjuntados;
as cercas e os anexos
construídos com aduelas
e tábuas de caixotes, todos,
com alguma sorte,
sujos de um verde-azulado
cuja pátina
me agrada mais
que qualquer cor.

Ninguém
acreditará que isto
seja tão importante para a nação.







william carlos williams
antologia breve
tradução josé agostinho baptista
assírio & alvim
1993






09 junho 2010

maria gabriela llansol / se eu fosse aquela em que tu







210

«Se eu fosse aquela em que tu
Pensas, a que tu tens amor», dizia
Insistente a canção, à luz daquele
Candeeiro da Belle Époque. Tinha
Oito anos e olhava para o garoto
Sobre o seu supedâneo. Estive para
Dizer «Eu sou aquela em quem tu
Pensas» e estive para não dizer. E se
Tivesse dito? Seria aquele semântico
Tu que sempre me diria. E se dito não
Tivesse? Meu Eu gramatical ficaria
Apenas meu, é certo… mas tão incerto.








maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003





05 junho 2010

samuel beckett / dieppe








ainda a maré vazia
o cascalho morto
meia volta e depois os passos
em direcção às antigas luzes

1937





samuel beckett
trad. manuel portela
“relâmpago” nr.13
10/2003









04 junho 2010

gil t. sousa / passados





19

não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo.

havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível.

eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos.



gil t. sousa
falso lugar
2004


01 junho 2010

antónio josé forte / a torre de pisa














A torre de Pisa
em Itália
como qualquer torre
não fala


Inclina-se
para a frente
e cumprimenta
a gente


Não é como
a torre de Belém
que não cumprimenta
ninguém









antónio josé forte
uma rosa na tromba de um elefante
desenhos de aldina
parceria a. m. pereira
2001






31 maio 2010

vasco ferreira campos / antes que o verão chegue









Antes que o verão chegue
e as longas tardes
se espalhem pelo coração
e te prendam ao desgaste habitual
toca uma palavra
para que permaneça
na minha boca
onde mais ninguém
possa ficar confundido.
Uma apenas.

E vê como pesa menos sobre o silêncio
a sombra que vais mover.








vasco ferreira campos
a voz à chuva
guimarães
pedra formosa
1996