03 setembro 2016

jorge luís borges / o apaixonado



Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Dürer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.


jorge luís borges
obras completas 1975-1985 vol. III
história da noite   (1977)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998





02 setembro 2016

ángel crespo / amanhecer em lisboa



1
Ditosos os países que se debatem com suas sombras
e cujos habitantes olham, movem-se, pronunciam-se dignamente
e te recordam a outros e a eles mesmos
quando andavas a perguntar por teu próprio país
e não tinhas pátria.

O ar enche-se de olhares e do voo dos pássaros
quando amanhece pelas esquinas
de Lisboa, e as torres espreguiçam-se
enquanto seus ninhos se libertam de plumas
e os sinos e os ruídos dos motores
fazem mover braços, rodas, êmbolos
e corações iludidos pelo sonho.

Uma janela abre-se em Alfama. E depois outra e outra,
e a respiração dos edifícios
fede e ao mesmo tempo perfume os lençóis enormes do ar
que um milhão de mãos sacode
sobre as ruas pombalinas, visitadas pelos pardais
 – e pelas pombas, por que não: que culpa têm dos nomes
e da vida traçada a compasso? –,
 e na Praça da Tal brilha o rocio a baptizá-la novamente,
e a Avenida da Liberdade não enrubesce, quando com os olhos
de suas árvores e seus cafés vazios lê outra vez seu nome,
entre voos alegres e assustados das aves madrugadoras.

Um amigo está à tua espera
para levar-te ao Castelo de São Jorge
e falar-te de poetas espanhóis e rimas portuguesas,
e tu fechas os olhos – já no alto do castelo –
para lembrar o cair de tantas tardes
que sabiam ao café amargo do Chiado e ao azeite rançoso de um nome
e aos versos impublicáveis que te liam às escondidas.


2
A liberdade não é um cordeiro, mas um leão que pode matar-te,
se é que deveras amas a liberdade.
Estou a vê-lo desde as nobres ruínas
a cujos pés crescem as favas e árvores que me irritam porque não sei o seu nome
mas me perfumam com recordações que já esqueci;
estou a vê-lo, nem desmelenado, meter as garras no mar
 – pois aqui chamam assim ao rio –,  onde os vapores vão buscar o vapor
e, é inútil negá-lo, a liberdade tem um alto preço
porque é traidora, cruel e extraordinariamente preguiçosa
e o seu verdadeiro sonho é converter-se em ovelha
mesmo com o risco de ser devorada.

Meteu uma pata no mar e retira-a entre arrepios,
vai rugir e sai a cantar uma canção que não entendo
porque me fazem chorar os pássaros cujos nomes conheço.
O meu amigo está a falar-me de Madrid e da poesia
e da lembrança de outro amigo
que me estende a mão sobre o mar – com que delicada frequência! –  
e me leva onde a recebo
enquanto oiço o mar das Antilhas rugir por seus leões.

Mas agora estou aqui estando num estava triste
e estou a esquecer tudo
porque me Lisboa, leonada, começou a chover
uma luz que me surpreende sempre nu,
e o meu amigo arremessou a capa que não trazia
sobre as balaustradas,
e vai planando, assustando
o leão, que oxalá nos devore.


ángel crespo
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985



01 setembro 2016

sharon olds / de volta a casa depois das férias



O carro rodou para a entrada ao ocaso e parou.
A mulher saiu sob as enormes árvores pretas
e desceu ao jardim e sentiu que havia lá alguém,
alguém com raiva. As árvores estavam encorpadas de negrume
e os botões desembainhavam as facas.

Deixou-se ficar de fora do seu jardim
e viu como os caules retorciam os músculos
e todo aquele terreno parecia uma campa
de onde alguém lutava por sair.

                                                        De repente
pressentiu uma grande sombra erguendo-se,
lançando-se a correr – ela levou a mão ao pescoço
branca como uma raiz.

                                        Estava, portanto, em casa.
Aquele era o seu lugar, o único de entre todos
onde tinha medo de andar, onde alguém chegara
sempre primeiro, e, contra ela, manteria o posto
a todo o custo.


sharon olds
satanás diz
trad, margarida vale de gato
antígona
2004




31 agosto 2016

sebastião da gama / nos teus olhos



Nos teus olhos, aos poucos, vou achando
(de adivinhá-lo há rosas que sorriem)
quanto no mundo, aos poucos, fui perdendo…



sebastião da gama
cabo da boa esperança
ed. ática
1959




30 agosto 2016

sabine scholl / a beleza




Ora à luz do escurecer ora ao alvor da manhã,
ora ao roçar e ao arredar de tudo o costumeiro.

Uma vez cresceu a sombra a um canto, uma vez passou um raio
pela sala, uma respirei sal e sussurrei murmúrios.

Assim o entrelaçar-se é como o amor a cada coisa, assim são
azuis as visões dos pássaros, cujas imagens alternam.

Aquilo que se aproxima, vira, se perde, lugar de repouso
na tarefa do perceber, do agir, aquilo que espanta.

O vazio e pressentimento,  o campo, o teu andar, o arbítrio
e expressão visível  de um sonho, o engano.

Às vezes ele está nos olhos, às vezes no suavizar dos traços,
às vezes no repetir uma palavra, às vezes pelos caminhos fora.

Então uma cavidade, um voo, uma extensão sem fim, breve,
um relâmpago, então com o entendimento do fogo, TU, o Universo.


sabine scholl
tradução de antónio de sousa ribeiro
poesia do mundo
afrontamento
1995




29 agosto 2016

yorgos seferis / a folha do choupo




Tremia tanto que o vento a levou
tremia tanto como não a levaria o vento
lá longe
um mar
lá longe
uma ilha ao sol
e as mãos apertando os remos
morrendo no momento em que o porto apareceu
e os olhos fechados
em anémonas do mar.

Tremia tanto tanto
procurei-a tanto tanto
na cisterna com os eucaliptos
na primavera e no verão
em todas as nuas florestas
meu deus procurei-a.


yorgos seferis
diário de bordo I
poemas escolhidos
trad. de joaquim manuel magalhães e nikos pratisinis
relógio d´água
1993



28 agosto 2016

judith teixeira / quando o sol morre



Na linha rubra do horizonte, a serra,
como um monstro, adormecido,
tem o ar repousado e indefinido
de quem dorme há mil anos sobre a terra!

O arvoredo, os braços nus descerra
para o azul, já frio e diluído –
curvado o tronco negro e carcomido
rezando pelo sol que se desterra…

Ao longe os corvos, velhos e palreiros,
lá andam a contar pelos outeiros
feitiços de gigantes encantados!...

E o vento desvairado em seu fragor
vai pelos montes, repetindo a dor,
dos que andam pela vida, desgarrados.

Outubro de 1922


judith teixeira
castelo de sombras
1923



27 agosto 2016

álvaro de campos / magnificat



Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

7-11-1933

  

fernando pessoa
poesias de álvaro de campos
edições ática
1980



26 agosto 2016

ana hatherly / era uma vez duas serpentes



Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.


ana hatherly
39 tisanas
1969



25 agosto 2016

joão esteves / nostalgia



todos os dias, há sempre um tempo
que de mim se separa.

tempo que cai de maduro,
no tempo perdido,
no tempo fingido.

tempo que empresto ao tempo,
mas que nunca revejo.

investimento mal calculado?

o tempo, por certo,
está-me a dever tempo.

dizem, contudo,
não haver outro pacto,
senão,
dar tempo ao tempo.



joão esteves



24 agosto 2016

frederico pedreira / presa comum



1.
Queimei os dedos todos na
volta de uma ou outra memória,
vasculhando num livro escuro
a voz que me prometera.
Já tu, que tanto disseste, não foste
sequer uma segunda educação.

O espelho da casa, de que levaste metade:
Copiou-me todos os gestos, segredos.
Escrevo, tristeza e papel quadriculado.
Se levantar os olhos, terei
a sombra corcunda, as orelhas de burro:
nunca verás palácios nos sulcos da parede.
Vira a página, faz um verso igual ao outro.
Entende: não há cura para este consolo.

2.
Tento subtrair-me ao frio
dos dias, pequenos golpes
impronunciáveis, outrora
carícias, coisas antigas.

Pondero a misteriosa
engrenagem de tudo
o que sempre pareceu
estanque na alvorada:

o nevoeiro com o seu riso,
o copo num soluço de pó,
deixado à cabeceira, o meu
corpo apagado a um canto.

3.
Uma manhã de Outono.
Donzel, peço-te: veste o fato,
a camisa gasta no colarinho,
calças demasiado largas,
depois os sapatos descosidos.

A casa sossegada
sempre que não estás aqui.
Em cima da cómoda, os frascos
dos comprimidos, alguns abertos.
Evita arreganhar os dentes:
este dia não tem um começo real.

O que poderá acontecer hoje
que faça de ti uma coisa diferente?
Estarás sozinho quando mais logo
o fogo voltar a falar em casa.

Espero que caias de borco,
que lamentes tudo o que
ouviste dos outros passageiros,
dos tolos de luz, dos que
nunca mais tropeçam na armadilha.
Que faças essa cinza a tua ceia.

E de seguida cospe, cospe inteiro –
como um cão invariável, faminto.


frederico pedreira
presa comum
voo rasante
antologia de poesia contemporânea
mariposa azual
2015



23 agosto 2016

julio cortázar / instruções para chorar



Prescindindo dos motivos, vamos ater-nos à maneira correcta de chorar ou seja, um pranto que não ingresse no escândalo, nem insulte o sorriso com paralela e torpe semelhança. Consiste o pranto médio ou corrente numa contracção geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranho, este último no final, já que o pranto termina no momento em que uma pessoa se assoa energicamente.

Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe for impossível por haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães onde ninguém entra.

Quando o pranto começar, você cobrirá com decoro o rosto usando para tal ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com a manga do bibe a tapar a cara, e de preferência a um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.


júlio cortázar
histórias de cronópios e de famas
manual de instruções
tradução de alfacinha da silva
editorial estampa
1973



22 agosto 2016

guillermo carnero / sweetie, why do snails come creeping out?




Se és novinha e tens amor,
que farás quando maior?

Anónimo, Ramillete de flores
(Lisboa, 1593)


Sempre chegamos cedo, ou tarde, ou nunca
a comboios que partiram ou não existem,
apanhamo-los já em andamento
para qualquer lugar sem estação nem nome.
Onde eu estaria, Capuchinho,
quando da torre abaixo tu lançavas
a escada de amor de tuas tranças.
Dispo-te, e o tempo claro que te envolve
súbito se amontoa e cai em mim
com um ácido rumor de arestas negras
ao chegar a tirar-te esses soquetes
curtos, de ir à aula de ginástica,
de sair em passeio com um vestido branco:
magoa-me a surpresa
se aprendo em tuas aulas algum truque brilhante,
um magistral alarde de gramática parda.
Quatro coisas ainda posso descobrir-te
e deixar gravadas em tua pele
essas doces lembranças que uma mulher não esquece:
o que é o sabor a casco e o seu travo,
o que leva a lagosta Thermidor,
porque nos arrastamos quando termina a chuva,
para apanhar o sol, os caracóis.


guillermo carnero
tradução de josé bento
canal nr. 6
revista de literatura
palha de abrantes
1999