24 junho 2012

benjamin péret / a doença imaginária


  


Eu sou o cabelo de chumbo
que viaja de astro em astro
que se tornará em cometa
e num ano e num dia te destruirá.

Mas por enquanto não há dias nem anos
existe apenas uma planta viçosa
de que desejas ser semelhante

Para ser irmão das plantas
é preciso crescer na vida
ser sólido quando na morte
Ora eu sou somente imóvel
e mudo como um planeta
Vou banhando os pés nas nuvens
que como bocas em volta
me condenam a ficar
entre os que parados estão
e que as plantas desesperam

No entanto um dia
os líquidos revoltados
lançarão para as nuvens
armas assassinas
manejadas pelas mulheres azuis
como os olhos das filhas do norte

E esse dia será dentro de um ano e um dia.




benjamin péret
tradução de nicolau saião





23 junho 2012

eugénio de andrade / as mãos e os frutos XII





foto de gil t. sousa, s. joão do porto




Se vens à minha procura,
eu aqui estou. Toma-me, noite,
sem sombra de amargura,
consciente do que dou.

Nimba-te de mim e de luar.
Disperso em ti serei mais teu.
E deixa-me derramado no olhar
de quem já me esqueceu.




eugénio de andrade
as mãos e os frutos
poesia
fundação eugénio de andrade
2000





22 junho 2012

ana paula inácio / senhora diego rivera





O que come um génio
para além de amigas e irmãs?
que prato de especial engenho
que entremeados feitiços
ervas daninhas, pêlo de cabra, suco de espinheiro
o fará ficar
nessa companhia de circo
onde equilibramos os pratos
no gume mais esticado do trapézio
quantas quedas será preciso dar
para fazer do corpo o melhor sítio donde se avista o mundo
elevá-lo a ícone nacional
como o chili e a massa de pimentão?




ana paula inácio
telhados de vidro nº. 11
averno
2008




21 junho 2012

josé miguel silva / vista para um pátio doze





E de repente era São João, era um bom sinal.
Caíam-nos na testa as primeiras ameixas.
Nem as mães interrompiam os mais vivos
desafios nas areias do Douro.
(Que raiva me dava não poder atravessá-lo
com os braços num raminho,
juntar aos mais audazes a minha timidez,
cuspir para o céu quando passávamos todos
à minha porta.)




josé miguel silva
vista para um pátio seguido de desordem
relógio d'água
2003



20 junho 2012

josé carlos barros / os monstros



  

Nos pesadelos
os monstros às vezes temem que os olhemos de frente
que possamos apagar-lhes a sombra
ou acordá-los a meio da tarde
abrindo as portada dos seus refúgios
deixando a luz avassaladora a cobrir-lhes o corpo
a queimar-lhes as pupilas remanescentes
como se fôssemos nós
os monstros
deles.




josé carlos barros
resumo
a poesia em 2009
assírio & alvim
2010



19 junho 2012

henri michaux / venham, mais uma vez


  


Venham, mais uma vez,
venham cá, palavras miseráveis
para exprimir coisa mais miserável ainda
para exprimir o caído, o devastado, o irreconhecível
o três vezes mais temível que na sombra se prepara

Para exprimir os montes de vergonha de súbito surgidos
a tapar os horizontes
a gaiola em todo o lado, para exprimir Judas,
Para exprimir Judas multiplicado, Judas faz companhia
os dinheiros não levam muito tempo para se porem
                                                a correr atrás dos Judas


Para exprimir, as folhas caem
as frontes estalam
apagam-se as gares
estancam os caminhos
o inverno desanca à chicotada o amplo rebanho

Para exprimir braços, estômagos, julgamentos no
                                                                  garrote
e milhões vezes milhões de homens inteiros no garrote
e milhões e milhões corroídos na chaga
da chaga, na chaga da queda
ou detidos, silenciosos, contemplando a desfeita coluna
                                                  vertebral do seu futuro

Contemplando sobretudo a Estátua alta que na derrota
                                                                        dos seus
se desmoronou no pedestal
os seus destroços doem. Os seus destroços torturam.
Somos perseguidos pelos seus destroços.
A noite chega. Afastam-se os ecos. Aumenta o frio.
Um grande corpo com garras, pesando com todo o
                  seu peso, sobre o corpo está estendido.




henri michaux
o retiro pelo risco
tradução júlio henriques
fenda
1999





18 junho 2012

carlos marzal / felizes os felizes



  

felizes os felizes
os mais fortes
os timoneiros do seu mar propício
os da risonha mãe do próprio
os escapados do poço da vida
os iludidos do passo dos sonhos

já estavam na sua margem e nos chamavam
os desde sempre em pose
os mais alerta
os embebidos do primeiro aroma
os do cristal de aumento sobre nada
os da lupa em paz do sol nu

honram-nos com a sua luz os atrevidos
os da desmesura
os radiantes de ser enaltecem-nos
os trágicos alegres em seu cálice

ditosos os ditosos na sua fortuna
os de humor febril do universo
os simples partidários, os devotos
os da pura razão voluptuosa

os delapidadores  nos redimem
os heróis terrestres, os sem culpa
os de já não caber em si de gozo
os da em si mesma essência
os possessos

e felizes nós outros
seus discípulos
por lambermos em mel a chaga viva
por extasiados no tempo amigo
por aprendizes deste amor demente   




carlos marzal
fuera de mí
edit. visor
madrid
2004


17 junho 2012

manólis anagnostákis / a decisão








  


Vocês são a favor ou contra?
Respondam sim ou não.
Decerto já pensaram no problema
Creio sinceramente que ele os tem preocupado.
Tudo na vida traz preocupações
Crianças mulheres insectos
Plantas nocivas, horas sem proveito
Paixões difíceis, dentes cariados
Filmes medíocres. E isto decerto os preocupa.
Sejam responsáveis e digam: Sim ou não.
A vocês é que cabe decidir.
Não lhes pedimos evidentemente que abandonem
Suas ocupações, que interrompam sua vida
O jornal preferido o bate-papo
No barbeiro os domingos ao ar livre.
Uma palavra só. Vamos, então:
Vocês são contra ou a favor?
Pensem bem: Eu fico à espera.





manólis anagnostákis
trad. josé paulo paes
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001