14 abril 2012

carlos drummond de andrade / amar






Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

  



carlos drummond de andrade
claro enigma
ed. record
1996




13 abril 2012

josé blanc de portugal / homenagem ao conde drácula ou a lua dos mortos





Velhos estão os dias; cheios
De caras rasgadas ‘inda servidoras…

Transbordam dos olhos, meios-
-Cheios de crescentes, mouras
Luas servidores de brancos altares
A deuses da noite, mortos
Nos dias solares e vivos quando
Sobe nos ares para os seus portos,
Argênteo, o disco de seu astro pertinente
E brilha a palidez escaldante, a luz dormente,
De seus rostos-jaspe de sangue vazios…

Das mortalhas-mantas pendem nastros
Iguais às cores das bocas f´ridas e dos olhos turvos,
Iguais às das bandeiras de seus grandes navios
Estivando a carga, sempre igual,
P´r´o céu dos mortos onde seu planeta
Outras luas vê e outros deuses
A boiarem nas ondas da mareta
Da esteira silente dos adeuses…

Velhos estão os dias; cheios
De caras rasgadas, ‘inda servidoras…





josé blanc de portugal
odes pedestres
o surrealismo na poesia portuguesa
org. de natália correia
frenesi
2002





12 abril 2012

tiago nené / a criança de neandertal





uma rua por baixo dos cabelos
onde coloco os pulmões ruivos dos dedos;
com o deus das unhas acedo
ao olhar submarino que deixaste à porta;
a infância tem as persianas p'ra cima,
os teus nervos estão poligâmicos,
e assim proibidos;
e desço com os dedos respirando
o ar dessa rua de colecção,
sem uma única parede embriagada,
ou um amor cubista;
estarias a cem mil anos de mim, criança
de neandertal, inconsciente ao meu
sábado; mas aqui estás tu, dormindo
na minha revista científica, sobre a qual os
pulmões dos meus dedos te escutam
a rua que me aparece nas ruínas
da minha solidão;




tiago nené
relevo móbil num coração de tempo
lua de marfim
2012




11 abril 2012

raul de carvalho / para um novo livro de cesário verde





                                     ao Sebastião Fonseca


Eles tomam cerveja, ambrosia, licores,
oleosos, sagrados como discos lunares.
Do azul da gravata ou da fímbria das ondas
retiram pensamentos ociosos e puros.

Recolhem-se de noite às oliveiras mansas
duma infância passada em louco desafio.
Ou então, nos portais, em amoroso convívio,
fingem que já não temem a noite nem o frio.

Já não têm família e mastigam, sozinhos,
um jovial jantar, colorido e minúsculo,
que haviam de comer, num domingo qualquer,
entre amigos cantando, entre mulheres amando.

Têm as caudas leves e subtis dum peixe,
têm um planeta adormecido e exangue,
têm os olhos líquidos, de asfódelo ou de cobre,
esses seres mitológicos que asfixiam a Terra.

São eles que caminham, irreais e aos tombos,
pondo nódoas de espanto por cima dos telhados.
Eles é que me deram o título deste poema:
A  Cidade Está Cheia de Homens Assassinados.





raul de carvalho
o surrealismo na poesia portuguesa
organização de natália correia
frenesi
2002





10 abril 2012

robert schindel / requiem por uma amizade






Morreu o meu hóspede, vejo-o ainda a descer, a descer
Pelo caminho abaixo com a distância nos cabelos.
E de noite, quando as estrelas o permitem, serpenteia, serpenteia
O seu eco no coração, morreu o meu hóspede.

Um riso, um sapato, o violino de estar aqui
Bebíamos um copo ou dormíamos nas palavras mais novas
E havia segundos que fazíamos explodir
Saltar da lama do tempo, para assim o podermos entender.

Agora foi-se, o seu nome descansa, descansa o tempo
Levanto os pés do caminho e vou andando
Às arrecuas pelo atalho, o eco traz-me
O longe e o perto, eu e nunca, o hóspede-amigo do lado de lá.

Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.
Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes
Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.
Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,
Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.








robert schindel
telhados de vidro nr. 11
tradução de joão barrento
averno
2008





09 abril 2012

edmundo de bettencourt / vigília





No panorama de frio
jazia cristalizado o voo dos gaviões.

Ao seu encontro ia fremente
o respirar da terra quente quase adormecida.

Fluía um riso irónico das dentaduras alvas da neblina
para bocas de ouvidos,
olhos de bocas.

Surgiu então coberto de silêncio
o homem que desde sempre morrera trucidado.

O seu sangue caía enquanto andava.
Das gotas pelo chão se levantaram logo as árvores de fogo
dentro em pouco a floresta incendiária
de todo o frio que o chamava.

E antes que soprasse a ventania
a borboleta colorida foi queimada.

Mas antes que o sol humidamente
repousasse num clarão de olhos fechados,
as cinzas de pirâmides se espalhavam
indo ferir o enorme olho esbugalhado
que de aquém fitava um espaço maior!





edmundo de bettencourt
poemas surdos
assírio & alvim
1981




07 abril 2012

rui knopfli / amputação





Algo, em mim, está morto.
O lado direito inerte, ausente,
de mim está alheio.
Do lado esquerdo
o fito,
como se a um outro
olhasse.
Metade de mim persiste,
vive,
e contempla algo, ardendo,
estiolando,
que em mim está morto.
Um perfil que apodrece
e eu vivendo
e vendo ausentar-se de mim
algo que em mim está morto
definitivamente.



rui knopfli
memória consentida : 20 anos de poesia 1959-1979
imp. nac. casa da moeda
1982





06 abril 2012

vergílio ferreira / recolhimento





4 - O abandono. O vazio. A indiferença. Tudo está feito, o que tinhas a dizer já o disseste, os que dialogavam contigo para estarem de acordo ou te insultarem foram recolhendo ao silêncio definitivo. É a hora de te ires calando também, recolheres à aposentação de falares e de ouvires. Porque nenhuma palavra é já para ti e assim nenhuma tua é para os outros. Mas a tua língua move-se ainda, entre ela e a palavra, mesmo que seja só um nome, há uma ligação que nada pode cortar. Fala para dentro. Chama para dentro. E poderás circular entre os homens sem que te metam num manicómio.






vergílio ferreira
escrever
edição de helder godinho
bertrand editora
2001