03 abril 2011

clarice lispector / a paixão segundo g. h.

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Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.





clarice lispector
a paixão segundo g. h.
relógio d´água
2000
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01 abril 2011

paul éluard / tristeza de ondas de pedra

Tristeza de ondas de pedra.

Lâminas apunhalam lâminas
Vidros quebram vidros
Lâmpadas apagam lâmpadas.

Tantos laços quebrados.

A flecha e a ferida
O olho e a luz
A ascensão e a cabeça.

Invisível no silêncio.



paul éluard
algumas palavras (antologia)
tradução antónio ramos rosa e luiza neto jorge
dom quixote
1977

29 março 2011

ernesto sampaio / no tarot…


No Tarot, há uma correspondência exacta entre os primeiros termos do 2.º e do 5.º ternários, representados pelos arcanos IV e XII. O arcano IV (Imperador) representa o enxofre dos alquimistas, o fogo interior, princípio activo da vida individual. Ao arder, este fogo consome reservas que se vão esgotando, de onde a diminuirão gradual do seu ardor e a sua extinção final naquilo a que chamamos a Morte (arcano XIII), a qual , na realidade, não extingue nada, mas liberta as energias sufocadas sob o peso de uma matéria cada vez mais inerte. Longe de matar, a morte revivifica, dissociando o que já não pode continuar a viver. Sem a sua intervenção, tudo desfalecia, de tal modo que a vida, finalmente, já não se distinguiria da imagem que o vulgo tem da morte.



ernesto sampaio
fernanda

fenda
2005



27 março 2011

joan margarit / primeiro amor





Na Gerona triste dos meus sete anos
onde as vitrinas do pós-guerra
tinham uma cor cinzenta de penúria
a cutelaria era um estalido
de luz nos pequenos espelhos de aço.
Com a fronte descansando no vidro
olhava uma navalha longa e fina
bela como uma estátua de mármore.
Como não queriam armas em minha casa
comprei-a em segredo e no bolso
batia-me, ao caminhar, na coxa.
Por vezes abria-a devagar
e aparecia a folha fina e direita
com a conventual frialdade da arma.
Silenciosa presença do perigo:
nos trinta primeiros anos escondi-a
atrás de livros de versos e depois
numa gaveta entre as tuas cuecas
e entre as tuas meias.
Agora, prestes a fazer os cinquenta e quatro
volto a vê-la aberta na palma da mão
tão perigosa como na infância.
Sensual, fria. Mais perto do pescoço.




joan margarit
quinze poetas catalães
tradução de egito gonçalves
ed. limiar, porto
1994

22 março 2011

pedro oom / poema






Os camaradas
saíram para a rua
com os bolsos cheios de serpentinas

(o calendário
estava trocado
e de Entrudo

nicles
nem um só cabeçudo
ou máscara
até o polícia de giro
com a dignidade sui generis
dos pequenos autocratas
participou na patuscada
depois do jogo
- o Benfica foi eliminado)

Os camaradas
compraram fatos novos
nos alfaiates dernier-cri
e botaram as serpentinas
no lixo
para não deformar
os bolsos (novos).






pedro oom
sacavém, março de 1973






21 março 2011

vinícius de moraes / a rosa de hiroxima




Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada





vinícius de moraes
rosa do mundo
2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001





19 março 2011

william carlos williams / estas



--------ESTAS

são as semanas desoladas, sombrias
em que na sua aridez a natureza
rivaliza com a estupidez humana.

O ano despenha-se na noite
e o coração é um abismo
mais fundo que a noite

nesse vazio varrido pelo vento
sem sol, sem lua nem estrelas
apenas uma estranha luz do pensamento

que lança um tenebroso fogo -
rodando sobre si mesma até
no frio incendiar-se

e revelar ao homem algo que ele
desconhece, não a solidão
em si - não um espectro

ainda que o pudesse abraçar - vazio,
desespero - (gemendo
soluçando) entre

as chamas e os estrondos da guerra;
casas em cujos aposentos
o frio ultrapassa o imaginável,

aqueles que se foram e que amávamos
vazias as camas, húmidos os
sofás, as cadeiras sem uso -

Oculta-os algures
longe do pensamento, deixa-os criar
raízes e crescer, salvo de olhos e ouvidos

ciosos - por si somente.
A esta mina chegam para escavar - todos.
Será isto o contraponto da música mais

suave? A fonte da poesia que
ao ver o relógio parado, diz:
Parou o relógio

que ontem trabalhava tão bem?
e ouve o som das águas do lago
salpicando - agora petrificadas.







william carlos williams
antologia breve
tradução josé agostinho baptista
assírio & alvim
1993

fotografia urs stooss





14 março 2011

walt whitman /a um estranho







Estranho que por mim passas! não sabes com que
anseio meus olhos te fitam.

Porque és aquele que eu procuro, aquela que eu
procuro (como se fora um sonho),
Tenho a certeza que, nalguma parte, alegremente
vivi contigo,
Recordo, ao nos cruzarmos, tudo, fluido, afectuoso,
casto, calmo,
Cresceste comigo, foste comigo um rapaz, comigo
foste rapariga,
Comi contigo, dormi contigo, o teu corpo não ficou só
teu, nem o meu corpo só meu,
Deste-me o prazer dos teus olhos, do rosto, da carne,
ao nos cruzarmos levas da minha
barba, peito, mãos, em troca.

Não me cumpre falar-te, eu sou quem existe para
pensar em ti, quando fico sozinho
ou de noite acordo,
Eu sou quem deve esperar, seguro de voltar a
encontrar-te,
Eu sou quem deve cuidar de te não perder para
sempre.





walt whitman
poesia de 26 séculos
vol. II de bashô a nietzche
trad. jorge de sena
editorial inova
1972