Todos aqueles
anos em que vivemos
nas traseiras
da florista, quando era hábito acordar
cedo para me
pôr à janela a ver
homens de
camisolas vermelhas a empurrar
carrinhos de
hidrângeas, paletes de tulipas
da Holanda, ranúnculos
rosa-velho,
magotes de jacinto
amarelo, uma
fúria de cor debaixo
de lâmpadas de
halogéneo ainda antes
das seis. Os donos
dos restaurantes com
os seus casacos
de pele pretos que chegavam
antes da alvorada
obrigados a assistir como
cortesãos à
passagem da beleza, aguardando
que esta se
aprontasse enquanto do outro lado
da rua, no
parque de estacionamento, não era raro
haver alguém,
nas calmas, a mijar.
john freeman
mapas
trad. miguel
cardoso
tinta da china
2019