22 abril 2020

diogo alcoforado / díptico



1
É tarde e a pele diz o fundo
instante onde somos, o avesso
do trânsito comum, - quase regresso
a quanto, espelhando, é segundo

feroz proposição, risco e fim.
E em nós, sem suporte, vamos indo
no sulco disponível; se, partindo,
por dentro do excesso só assim

havemos nosso nomes, ou nossa parte.
Nem canto nem imagem são bastantes
a quem supôs haver, embora incerta,

verdade que se queira ter por arte.
E o medo persiste onde, errantes,
os pés tocam o chão, a descoberta


2
passagem por que vivos renascemos:
subindo, na confrontação do lume,
escarpas e desvios, - esse cume
mais alto que a nós mesmos o demos,

exacto, como construção secreta.
Por ele nos mudamos; e depressa
a voz fere a noite, atravessa
a boca e a mão que vai directa

ao cimo ou ao corpo mais preciso.
Inesperado dom! e só aí
a perna e a luz correm a par

ou formam novo trilho, indiviso.
E o passo aumenta onde o vi-
tal sopro dá ao termo seu lugar.



diogo alcoforado
hífen 11 maio 1998
o sitio das nascentes
cadernos semestrais de poesia
1998





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