24 maio 2015

álvaro de campos / grandes são os desertos



Grandes são os desertos, e tudo é deserto. 
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto 
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. 
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes 
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, 
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu. 
Grandes são os desertos, minha alma! 
Grandes são os desertos. 


Não tirei bilhete para a vida, 
Errei a porta do sentimento, 
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. 
Hoje não me resta, em vésperas de viagem, 
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, 
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, 
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado) 
Senão saber isto: 
Grandes são os desertos, e tudo é deserto. 
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida, 


Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar 
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem) 
Acendo o cigarro para adiar a viagem, 
Para adiar todas as viagens. 
Para adiar o universo inteiro. 


Volta amanhã, realidade! 
Basta por hoje, gentes! 
Adia-te, presente absoluto! 
Mais vale não ser que ser assim. 


Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, 
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito. 


Mas tenho que arrumar mala, 
Tenho por força que arrumar a mala, 
A mala. 


Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão. 
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala. 
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas, 
A  ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino. 


Tenho que arrumar a mala de ser. 
Tenho que existir a arrumar malas. 
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. 
Olho para o lado, verifico que estou a dormir. 
Sei só que tenho que arrumar a mala, 
E que os desertos são grandes e tudo é deserto, 
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. 


Ergo-me de repente todos os Césares.   
Vou definitivamente arrumar a mala.   
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;  
Hei de vê-la levar de aqui, 
Hei de existir independentemente dela. 


Grandes são os desertos e tudo é deserto, 
Salvo erro, naturalmente. 
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado! 


Mais vale arrumar a mala. 
Fim.





álvaro de campos





23 maio 2015

e e cummings / a minha miúda é alta e de olhos duros e longos


[iii]

a minha miúda é alta e de olhos duros e longos
assim de pé, com suas longas e duras mãos guardando
silêncio no seu vestido, bom para dormir
é o seu longo e duro corpo cheio de surpresas
qual branco arame electrificado, quando sorri
um duro e longo sorriso isso às vezes faz
crescer alegremente em mim ardentes comichões,
e o frágil ruído dos seus olhos facilmente aguça
a minha impaciência até à ponta ─  a minha miúda é alta
e tesa, com pernas finas tal qual uma trepadeira
que passou a vida inteira num muro de jardim,
e vai morrer. Quando carrancudos vamos para a cama
com estas pernas começa a lançar-se e a enroscar-se
à minha volta, e a beijar-me o rosto e a cabeça.


e. e. cummings
xix poemas
trad. jorge fazenda lourenço
assírio & Alvim
1998




22 maio 2015

paulo da costa domingos / averbamento



Um cordão policial, na socialização
da falência, debrua as sanefas.
Julga-se que a lógica é
salvar os ricos e esperar

que eles deixem cair,
dos seus sacos a abarrotar
de dinheiro, algum
na praça pública.


paulo da costa domingos
averbamento
& etc
2011




21 maio 2015

manuel de freitas / 5 601036 307313



Dizem que ressuscitou o rock
numa pose de vampiro. Não sei.
Pelas olheiras, sobre o cabedal
tão velho, mais parece um agarrado,
desses que costumo encontrar
no 42. Mau hálito tem - quase tanto
como a voz. Mas leva sempre
suminhos, cremes de beleza, fiambre.
Dá-me a ideia que nele até o olhar
cansado é uma mentira cosmética,
que depois usa em voz alta contra o tal
"sistema". Eu talvez gritasse melhor.

  

manuel de freitas
isilda ou a nudez dos códigos de barras
black son editores
2001




20 maio 2015

sebastião alba / no meu país



No meu país
dardejado de sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
à flor da possível
geografia
um frémito cinde
as estações do ano.

  
sebastião alba
o ritmo do presságio
edições 70
1981




19 maio 2015

konstandinos kavafis / antes de o tempo os mudar



Entristeceram grandemente     no momento da sua separação.
Eles não a queriam;     foram as circunstâncias.
Necessidades vitais     fizeram um deles
ir embora para longe ─      Nova Iorque ou Canadá.
O seu amor não era     por certo como dantes;
tinha diminuído     a atracção gradualmente,
tinha diminuído     muito a sua atracção.
Mas separar-se,     não o queriam.
Foram as circunstâncias. ─      Ou porventura artista
foi a Sorte     separando-os agora
antes de apagar-se o sentimento deles,     antes de o Tempo os mudar;
o um para o outro     ficará para sempre como se fosse
esse belo rapaz     dos vinte e quatro anos.



konstandinos kavafis
poemas e prosas
trad. joaquim manuel magalhães e
nikos pratsinis
relógio d´água
1994



18 maio 2015

rui costa / os turistas



Estes são os turistas e vêm da Grécia
para me ver.
Não sabem que estou extinto
há um milhão de anos
e que me transplantei no vértice de uma
estrela perdida no futuro
luzindo à nossa imagem.
Eis os turistas, com suas rodas de fogo,
como eles chegam afoitos
e estacam diante das pedras
desta cidade que apodrece junto ao rio
porque não sabe distinta forma de amar.
São os turistas,
eles limpam as unhas às gaivotas
e comem pasta de atum
enquanto apertam as sandálias,
e olham para mim,
e levantam-se com o saco a tiracolo e
empunham o arpão
e perguntam se eu sou Herodes e eu
respondo-lhes que não,
nem Platão,
nem o seu vizinho acidental que
dominou a Lídia,
nem o cavalo que decidiu morrer para
ocultar a fuga do Mestre rumo a estâncias
balneares que não devem ser menosprezadas,
mas que posso carregar, sim,
no botão da máquina fotográfica,
e eu caminho os passos necessários e
diante dos séculos que o universo
não contempla
decepo-lhes a cabeça – e volto
para junto de mim
enquanto eles começam a escovar
o cabelo das gaivotas
e entrando num tubo que César
construiu caminham às cegas
para bem longe
da cidade que apodrece junto ao rio.


rui costa
mike tyson para principiantes
2012




17 maio 2015

luís miguel nava / a fome



Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.

Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,

aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.


luís miguel nava
poesia completa (1979-1994)
vulcão
publicações dom quixote
2002




16 maio 2015

alberto caeiro / última estrela



Última estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim;
Alegre pelo critério (?) que tenho em Poder ver-te
Sem "estado de alma" nenhum, sonho ver-te.
A tua beleza para mim está em existires
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.




alberto caeiro



15 maio 2015

eugénio de andrade / quase nada



O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.


eugénio de andrade
poemas
1966




14 maio 2015

yvette centeno / cantiga de amigo



Leva-me à catedral de Chartres
ver os Anjos de pedra

ver os arcos
lugar de mutação

abraça-me a um canto

ou deixa-me
sozinha

aprender a lição
que a pedra ensina

não a eternidade

a solidão.




yvette centeno
a oriente
edit. presença
1998





13 maio 2015

carlos eurico da costa / primeiro poema da solenidade



A labareda ascendente superando as auroras desvendadas: um altar iluminado onde crepitam
sons leves, um rio correndo há milhares de anos para nós, alheios da nossa validade, mortificados, lúcidos, exaltados, extáticos, senhores dos melhores ácidos corrosivos, sábios do amanhecer nos arquipélagos, manipuladores das artes ocultas e raras, povoando ora os mais altos cumes ora o leito purificador das enseadas

exuberantes de todo o álcool das palavras, espectadores do próprio olhar nocturno, do ínfimo traço de vida que resta nos museus paleontológicos

Nisto consistirá a nossa tradição e tudo o que de nós for ausente bastará um calmo gesto para o petrificar

E bem dentro de nós um calor cósmico, opaco, tão íntimo que será o perfil arroxeado, pleno
e sombras das montanhas no Outono, as belas montanhas que nos centralizam como se fôssemos navios transparentes sem destino e sem ódios.

E o medo do desfilar de perfis adversos que nos afugentam da nossa verdadeira imagem como entes malditos

e toda esta prova de fogo, imutável, tão necessária a nós, errantes, esta meia-luz que cega mas também ilumina

Hoje, decorrido o tempo sobre a sucessão de múltiplos actos, esquecidos da profética lucidez
das visões, soerguemo-nos num último alento como as maiores aves aquáticas que, feridas, vão morrer silenciosamente nas planícies

Mas nunca será tarde para obter a dureza que cria o hábito de elevarmos em grandes gestos as nossas mãos tão pobres, tão despovoadas que nos queimam a carne

Estará bem longe de nós o quarto acto da purificação. Cedo será para distinguirmos as
silhuetas das sombras, o ponto médio dos precipícios, a água e a noite

Esperemos conforme os verdadeiros mantendo este mundo interior que nos define até que vejamos outra luz mais quente, até que ante os nossos olhos se descerre todo o conjunto de vendas espessas, todo o duplo movimento inverso da definição

A hora capital surgirá aparatosamente com todas as dependências inerentes à sua qualidade,
polarizando e enfrentando toda a substância – o pacto sinistro, misterioso, a fúria que nos qualifica

Os nossos dedos alongados e penetrantes terão o dinamismo da sua potência primária; os nossos actos serão como longos cabos aéreos, elásticos e transportadores; a palavra será leve, insuportável para os mortos, de som agudo, penetrante e insuspeito

O nosso gesto terminará quando se estiolar a última luz e após a queda no mar dum animal ainda não existente, belo e translúcido, para os olhos conseguirem um brilho extraordinário idêntico ao que se avista no centro das mais belas tempestades

Os habitantes das grandes cidades deslocar-se-ão lentamente na direcção assinalada
 inquirindo temerosamente, uns dos outros, qual o planeta escolhido




carlos eurico da costa
surrealismo abjeccionismo
antologia selecionada por
mário cesariny de vasconcelos
edições salamandra
1992




12 maio 2015

jorge de sousa braga / na corrente



Há quem diga que a noite é um rio - subterrâneo - que
nasce e desagua em pleno dia. Ou será o dia um rio  que
nasce e desagua em plena noite? Ou talvez a noite e o
dia sejam o mesmo rio que não nasce nem desagua.
Corre apenas. Através de nós.



jorge de sousa braga
o poeta nu
fenda
1991