26 janeiro 2010
ernesto sampaio / geografia
A oriente
o horizonte escarlate
da dor humana
a ocidente
o crepúsculo
no fim do percurso
a norte
o Senhor da Morte
a sul
o vento do deserto
em cima
o olho do mundo
em baixo
o sonho indestrutível
ernesto sampaio
feriados nacionais
fenda
1999
23 janeiro 2010
paulo jorge fidalgo / gostos
Gosto da chuva em dias cinzentos
das ruas transpiradas e das mulheres
abrigadas sob as pálpebras da noite.
Gosto de uvas e de tremoços
e dos trémulos moços que namoram.
miúdas constipadas - choro com eles
suas mágoas.
Gosto das luzes e das fachadas iluminadas
dos palácios com árvores e dos pássaros
nas árvores gosto da fidelidade dos cães
e do cheiro dos animais em casa
gosto do Inverno se estou triste e de ir
anoitecer ao cinema, bebo vinho e rio
sozinho no meu quarto enquanto espero
que tu venhas tardia e fria ao meu colo,
chamo-te nomes que amei e tu sabes
que eu amei e não te importas que te ame
assim tipo filme de renúncias e façanhas,
gosto de homens taciturnos e amigos
dos jornais de ontem e de um quadro
de Giotto numa história sem sentido,
leio prosa dispersa a preço razoável
e sou maldoso se vejo coisa doutro
que não preste, gosto de viagens curtas
e de mijar ao vento contra as giestas,
gosto de falar do passado e ser diferente
por dentro de mim que se não vê,
modesto não digo porque minto mas gosto
do azul limpo ou quase verde, uso tinta
durmo mal e pago imposto.
E prefiro um gosto ao resto.
paulo jorge fidalgo
hablar/falar de poesia nr. 4
2001
20 janeiro 2010
josé tolentino mendonça / side of the road
Ateei o fogo
quebrei as portas de bronze
desfiz sinais nas pedras lisas
enlouqueci os adivinhos
minha língua tornou-se tão
estranha
que não se pode entender
as multidões vitoriosas
levantam em teu nome grinaldas
tamboris e danças
despojos de várias
cores
tomo o caminho por onde vieste
tropeçando como os que não
têm olhos
josé tolentino mendonça
a estrada branca
assírio & alvim
2005
18 janeiro 2010
egito gonçalves / imagens de um inverno indocumentado
A vida tem lágrimas pesadas como árvores…
A sombra avança no atalho como um formigueiro.
Tuas pernas estão vermelhas de frio na paragem do eléctrico.
Felizmente existe a noite e a tua chegada.
O anjo estático não é mais que um boneco de pedra.
O calor da tua boca reinventa o estio.
egito gonçalves
o amor desagua em delta
editorial inova
1971
16 janeiro 2010
antónio franco alexandre / corto viaggio sentimentale, capriccio italiano
6
quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes
a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.
antónio franco alexandre
quatro caprichos
assírio & alvim
1999
14 janeiro 2010
daniel faria / ando um pouco acima do chão
Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo
Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito
Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo
Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema
Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio dos incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim
E bebe
daniel faria
poesia
explicação das árvores e de outros animais
quasi
2003
12 janeiro 2010
antónio gancho / música
A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada faria prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erege a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.
antónio gancho
o ar da manhã
assírio & alvim
1995
10 janeiro 2010
laurie anderson / lírio branco
Em que filme do Fassbinder é que é? Um homem sem um braço
Entra numa florista e diz:
Qual é a flor que exprime
A passagem dos dias
Os dias que se sucedem sem fim
Puxando-nos
Para o futuro?
A infinita
Passagem dos dias
Puxando-nos infinitamente
Para o futuro.
E a florista diz:
O lírio branco.
laurie anderson
anéis de fumo
poemas
tradução de joão lisboa
assírio & alvim
1997
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