31 dezembro 2025

david mourão-ferreira / baptismo

  
 
Vamos abrir a noite               Vamos abrir a noite
com música de «jazz»           Percorrê-la depois
 
num barco de borracha               Celebrar o segredo
Enforcar a memória               Descobrir de repente
 
uma lha que nasce dentro do teu vestido
 
Chamar-lhe Madrugada               Adormecer contigo
 
 
 
david mourão-ferreira
poezz
jazz  na poesia em língua portuguesa
josé duarte e ricardo antónio alves
almedina
2004




30 dezembro 2025

josé miguel silva / centro comercial

  
                                                        Para o Carlos Bessa
 
 
Irrompem no elevador. São quatro,
fogem de um, fecham-lhe a porta,
riem-se juntos. O outro, eixo moído,
embate na vida, força a entrada,
acaba no chão: eu não sei o caminho
de casa! De nada lhe serve chamar
as Erínias, largam a trote os netos
de Zeus, o vinho da força responde
por eles, esconde de todos a destruição.
 
E eu, o que faço? Não faço nada.
Um pouco mais velho, um pouco
mais sonso, tal como vós,
escolho o caminho da loja seguinte.
 
 
josé miguel silva
ulisses já não mora aqui
língua morta
2014




29 dezembro 2025

manuel antónio pina / nenhuma coisa

  

Estou sempre a falar de mim ou não. O meu trabalho
é destruir aos poucos, tudo o que me lembra.
Reflexão e, ao mesmo tempo, exercício mortal.
Normalmente regresso a casa tarde, doente.
 
Desta maneira (e doutras –
a carne é triste, hélas!, e eu já li tudo)
ocupo o lugar imóvel do poema. Procuro o sentido
(vivo ou morto!) para o liquidar. Mas onde? E como? E quem?
 
Tudo o que acaba e começa.
O que está entre as pernas, mudando de lugar.
(Que fazer e para quê?)
 
 
 
manuel antónio pina
ainda não é o fim nem o princípio do mundo
calma é apenas um pouco tarde (1969)
todas as palavras, poesia reunida
assírio & alvim
2012




 

28 dezembro 2025

álvaro de campos / hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,

  
 
Hoje que tudo me falta, como se fosse o chão,
Que me conheço atrozmente, que toda a literatura
Que uso de mim para mim, para ter consciência de mim,
Caiu, como o papel que embrulhou um rebuçado mau —
Hoje tenho uma alma parecida com a morte dos nervos
Necrose da alma,
Apodrecimento dos sentidos.
Tudo quanto tenho feito conheço-o claramente: é nada.
Tudo quanto sonhei, podia tê-lo sonhado o moço de fretes.
Tudo quanto amei, se hoje me lembro que o amei, morreu há muito.
Ó Paraíso Perdido da minha infância burguesa,
Meu Éden agasalhando o chá nocturno,
Minha colcha limpa de menino!
O Destino acabou-me como a um manuscrito interrompido.
Nem altos nem baixos — consciência de nem sequer a ter...
Papelotes da velha solteira — toda a minha vida.
Tenho uma náusea do estômago nos pulmões.
Custa-me a respirar para sustentar a alma.
Tenho uma quantidade de doenças tristes nas juntas da vontade.
Minha grinalda de poeta — eras de flores de papel,
A tua imortalidade presumida era o não teres vida.
Minha coroa de louros de poeta — sonhada petrarquicamente,
Sem capotinho mas com fama,
Sem dados mas com Deus —
Tabuleta [de] vinho falsificado na última taberna da esquina!
 
9-3-1930



álvaro de campos
livro de versos
fernando pessoa
estampa
1993

27 dezembro 2025

miguel serras pereira / pássaro de fogo

  
Se um dia à morte me levar a neve
meu pássaro de fogo sem adeus
a vida é longa a morte breve
Queria-te nua até seres deus
 
deus rapariga deus sem credo
sem joelhos postos a seus pés
Onde te vejo estás e faz-se cedo
e é onde eu estaria só que tu me vês
 
 
 
miguel serras pereira
á tona do vazio & reprise
cinquenta anos de poesia de miguel serras pereira 1969-2019
corça (1982)
barricada de livros
2022




 

26 dezembro 2025

pedro tamen / a água

  
7.
 
Do coração dos frutos um Sopro diz às mãos
o caminho das ondas, acende a luz
ao Anjo. O meio dos perfumes enche as rosas
de tintas de silêncio, e a secura
dos lábios estendida agora já não mais
ardente vai ficar, sem uma qualquer culpa
oculta e desculpável. Um gesto
é necessário. Mais nada, e será feita
a central companhia nesse leito de paz.
 
 
 
pedro tamen
o sangue, a água e o vinho
tábua das matérias
poesia 1956/1991
círculo de leitores
1995
 




25 dezembro 2025

nuno júdice / se, numa noite de natal, a prostituta

  
 
vagueia, no passeio da avenida deserta,
procurando o encontro que não se dá,
e fixa os olhos na luz de uma lâmpada incerta
como se a manhã estivesse ali, agora e já,
 
que mais pode fazer quem por ela passa,
fingindo que não a vê ou a sua presença esquece,
do que apagar a névoa que a sua passagem traça
no espírito que por instantes estremece
 
– a não ser que a sua imagem insista, ainda,
quando o sol tudo tiver finalmente apagado;
que a noite não seja só uma memória finda
 
no canto sombrio de um desencontro adiado;
e que os seus passos não se ouçam, por dentro,
numa inquietação de quem não encontra o centro.
 
 
 
nuno júdice
a fonte da vida
quetzal
1997




 

24 dezembro 2025

jorge luís borges / joão I: 14

  
 
Referem as histórias orientais
A daquele rei do tempo, que, sujeito
A tédio e esplendor, saiu, secreto,
Sozinho, para chegar aos arrabais
E se perder na multidão das gentes
De rudes mãos e de obscuros nomes;
Hoje, como aquele Emir dos Crentes,
Harun, Deus quer andar por entre os homens
E nasce de uma mãe, tal como nascem
As linhagens que em poeira se desfazem
E ser-lhe-á entregue o mundo inteiro,
Ar, água, pão, manhãs, a pedra, o lírio;
Depois, porém, o sangue do martírio
E os cravos, o escárnio e o madeiro.
 
 
 
jorge luís borges
obras completas 1952-1972 vol. II
o outro, o mesmo (1964)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998




23 dezembro 2025

jack gilbert / prometido

  
Ouves-te a caminhar pela neve.
Ouves a ausência dos pássaros.
Uma quietude tão completa, que ouves
o sussurrar dentro de ti. Sozinho,
manhã após manhã, e mais nada
à noite. Dizem que nascemos sós,
para vivermos e morrermos sós. Mas estão errados.
Ficamos sós pelo tempo, por sorte,
ou por infortúnio. Quando, para o libertar,
acerto no cepo congelado na pilha de lenha,
emite um som de perfeita desumanidade,
que, puro, atravessa o vale,
como um corvo a grasnar inesperadamente
no recanto mais sombrio do crepúsculo que me
desperta a meio de uma vida. O preto
e branco de mim entrosados com esta indiferente
paisagem de Inverno. Penso na lua
a surgir num instante para encontrar o branco
entre os pinheiros sem cor.
 
 
 
jack gilbert
deixem-me ser ambos
trad. leonor castro nunes e marcos pereira
destrauss
2020




22 dezembro 2025

jacques brel / os velhos

  
 
Os velhos já não falam ou então por vezes apenas com um
                               olhar tremido
Até ricos são pobres já não têm ilusões e só lhes resta um
                               coração para dois
Em suas casas cheira a tomilho a limpo a lavanda a palavras
                               antigas
Mesmo vivendo em Paris vive-se sempre na província quando
                               se vive demais
Será de tanto terem rido que as suas vozes encarquilham
                               quando falam de ontem
E de tanto terem chorado que lágrimas esquecidas lhes
                               orvalham as pálpebras
E se tremem um pouco será por verem envelhecer o relógio de
                               prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e diz por vós
                               espero
 
Os velhos já não sonham os seus livros entorpecem os seus
                               pianos não tocam
O gatinho morreu o moscatel dos domingos já os não faz cantar
Os velhos já não mexem os seus gestos são todos rugas o seu
                               mundo é tão pequeno
Da cama para a janela depois da cama para a poltrona por fim
                               da cama para a cama
E se ainda vêm à rua de braço dado envoltos num manto hirto
É para acompanhar pelo sol o enterro de um mais velho o
                               enterro de uma mais feia
E enquanto dura um soluço esquecer por uma hora o relógio
                               de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e por eles
                               espera
Os velhos não morrem adormecem um dia e dormem demais
Dão a mão um ao outro receiam perder-se e todavia perdem-se
E o outro para ali fica o melhor ou o pior o meigo ou o severo
Pouco importa porque aquele que fica acorda num inferno
Vê-lo-emos por vezes à chuva e à mágoa
Atravessar o presente pedindo perdão por não estar já mais
                               além
E uma última vez fugir de nós o relógio de prata
Que ronrona na sala que ora diz sim ora diz não e lhe diz por
                               ti espero
Que ronrona na sal que ora diz sim ora diz não e que por fim
                               nos espera
 
 
 
jacques brel
antologia poética
trad. eduardo maia
assírio & alvim
1997




 

21 dezembro 2025

ricardo reis / o que sentimos, não o que é sentido,

  
 
O que sentimos, não o que é sentido,
É o que temos. Claro, o Inverno triste
Como à sorte o acolhamos.
Haja Inverno na terra, não na mente.
E, amor a amor, ou livro a livro, amemos
                Nossa caveira breve.
 
8-7-1930
 
 
fernando pessoa
odes de ricardo reis
ática
1946 




20 dezembro 2025

bertolt brecht / da violência

  
 
Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.
 
 
 
bertolt brecht
poemas
selecção e trad. de arnaldo saraiva
presença
1976




19 dezembro 2025

manuel de freitas / coliseu dos recreios, 2004



 

 
Desconhecerei – para sempre? –
essa arte de tornar presente
a mais pura e inesperada ausência.
Não sei explicar melhor.
 
Horas depois, na penumbra
de um bar fechado, alguém
me obrigou a escrever o seguinte:
«os nossos filósofos e historiadores
(raiz quadrada) são os
nossos compositores e intérpretes».
 
Talvez seja isso – a pior manhã
que nos encontrou vivos,
a morte que não se diz
 
quando apenas o cavaquinho sabe
que nenhuma voz regressa.
 
 
 
manuel de freitas
cretcheu futebol clube
assírio & alvim
2006